sábado, 12 de outubro de 2013

A DESCIDA AOS INFERNOS

Para  distinguir-se  da  multidão  que  permanece  supérflua  em  sua maneira de pensar, convém aprender a meditar profundamente. Para esse efeito, o isolamento silencioso impõe-se, porque nós não podemos seguir o curso de nossos pensamentos, senão evitando aquilo que nos distrai; retirar-se para a solidão foi, pois, outrora, o primeiro ato do aspirante à sabedoria. Fugir do tumulto dos vivos para refugiar-se perto dos mortos, a fim de inspirar-se naquilo que eles sabem melhor do que nós, tal nos parece haver sido o instinto dos mais antigos adeptos da Arte de Pensar.
A deusa da Vida, a grande Ishtar, instruía os sábios por seu exemplo, quando, voltando seu rosto na direção do país sem retorno, ela renunciava aos esplendores do mundo exterior para penetrar nas trevas de Aralou. É preciso descer a si mesmo para iniciar-se. Os heróis mitológicos, cujas explorações subterrâneas nos são poeticamente contadas, foram Iniciados vitoriosos do ciclo das provas inelutáveis.
Na realidade, o Inferno dos filósofos não é outro senão o mundo interior que trazemos em nós. É o interior da terra, ao qual se reporta o preceito alquímico:  Visita Interioria Terrae, Rectificando Invenies Occultum Lapidem, frase cujas palavras têm por inicial as sete letras de VITRIOL. Esta substância devia levar o Hermetista a visitar seu próprio interior, a fim de aí descobrir, em retificando, a Pedra escondida dos Sábios. Trata-se de uma pedra cúbica que se forma no centro do ser pensante, quando ele toma consciência da certeza fundamental  em torno da  qual se realizará a cristalização construtiva do Templo de suas convicções.
Ao despojamento maçônico dos metais corresponde, em Alquimia, a limpeza do indivíduo, ao  qual  nada deve aderir que seja  estranho à sua substância. Tomada tal precaução, o indivíduo é introduzido no Ovo filosófico, onde ele será incubado até sua eclosão.
Em  Maçonaria,  o  Ovo  hermeticamente  fechado,  onde o indivíduo é chamado a morrer e a decompor-se, toma o aspecto de uma cripta funerária dita Câmara de Reflexões.  É de ordinário um espaço reduzido, organizado num porão, cujas paredes negras trazem, em branco, inscrições do gênero das seguintes:
Se é a curiosidade que aqui te conduz, vai-te.
Se temes ser esclarecido sobre teus defeitos, estarás mal entre nós.
Se és capaz de dissimulação, treme, serás descoberto.
Se  te  aténs  às  distinções  humanas,  sai;  aqui  não  se  reconhece
nenhuma delas.
Se tua alma sente pavor, não vás mais longe.
Se perseverares, serás purificado pelos elementos, sairás do abismo
das trevas, verás a luz.
Encerrado nesse lugar, o recipiendário despojado de seus metais sentase diante de uma pequena mesa, em face de uma caveira cercada por duas taças, uma delas contendo sal e a outra, enxofre. Um pão, um cântaro com água e material necessário à escrita completam as ferramentas da cripta, onde o prisioneiro deve preparar-se para morrer voluntariamente.
As frases que pode ler e os objetos que surpreendem sua visão à luz de uma lâmpada funerária levam ao recolhimento. Se o recipiendário entra no espírito da  mise em scène ritualística, ele esquecerá o mundo exterior para voltar-se sobre si mesmo. Tudo aquilo que é ilusório e vão apaga-se diante da realidade viva que o indivíduo traz dentro de si. No fundo de nós reside a consciência; escutemo-la. Que responde ela às três questões que se colocam ao futuro iniciado? Quais são os deveres do homem em relação a Deus, a ele mesmo e a seus semelhantes?
Deus é uma palavra que não poderia ser retirada da linguagem dos sábios, porque a inteligência humana se consome em esforços constantes para conceber o divino. Representações grosseiras tem tido lugar; no decorrer de inumeráveis séculos, chegaram idéias mais sutis, mas o enigma do Ser permanece sem solução. Nenhum pensador adivinhou a palavra daquele que é, e, quando hierogramas nos são propostos como solução, esses não são senão símbolos de um indecifrável Desconhecido. Deus permanece o  “x” de uma irredutível equação.
O  aspirante à luz aí verá a tradução da homenagem rendida pelo homem àquilo que sente estar acima dele. Seria razoável atribuirmo-nos o mais alto lugar na escala dos seres, a nós, miseráveis parasitas de um globo ínfimo perdido da imensidão cósmica? Somos menos que o grão de areia arrastado pelo vento que sopra numa praia. Se existimos, é em razão daquilo que repercute em nós: forças que estão tão pouco sob nosso controle que nem mesmo as conhecemos. Perguntemo-nos, pois, com toda humildade, o que devemos àquilo que está acima de nós?
O simbolismo maçônico sugere que tudo se constrói e que a tarefa dos seres é construtiva. Um imenso trabalho se realiza no universo e o gênero humano dele participa à sua maneira. O dever do homem é, pois, trabalhar humanamente, cumprindo a tarefa que lhe é assinada. Isso equivale a dizer, em linguagem mística: meu dever em relação a Deus é o de conformar-me à sua vontade, à vista de associar-me à sua obra de criação que é eterna. Eu desejo ser o agente dócil, enérgico e inteligente do arquiteto que dirige a evolução e assegura o progresso. Tenho, em relação a mim mesmo, o dever de desenvolver-me pela instrução e aplicação ao trabalho; enfim, eu devo a meus semelhantes ajudá-los a instruir-se e a bem trabalhar.
Quando o recipiendário está assim orientado, ele liquida seu passado profano, redigindo seu testamento. Despojado de seus metais, ele não possui mais nada que possa legar. De que pode dispor então, a não ser dele mesmo e de sua energia ativa? Ele testa, renunciando aos erros passados, tomando irrevogáveis resoluções para o amanhã.
O sal e o enxofre da câmara de reflexões têm por que intrigar ao recipiendário entranho  à Alquimia. Essas substâncias fazem parte de um ternário que se completa pelo mercúrio. Tudo, segundo o Hermetismo, compõe-se de enxofre, mercúrio e sal, mas estes três princípios fazem alusão:
1º. À energia expansiva inerente a toda individualidade;
2º. A esta mesma energia proveniente de influências ambientais que se
concentram sobre a individualidade;
3º. À esfera de equilíbrio resultante da neutralização da ação sulforosa
centrípeta penetrante e compressiva.
O isolamento e a subtração às influências exteriores condenam à morte o indivíduo privado do enxofre mercurial que mantém a vida. Quando o enxofre queima num invólucro de sal tornado impenetrável ao ar que mantém o fogo vital, tende a extinguir-se, reduzido a incubar-se sob as cinzas salinas. Tal é precisamente o estado do recipiendário que sofre a prova da Terra; ele é enterrado no solo, como o grão chamado a germinar. É preciso que seu núcleo espiritual desdobre-se interiormente, tomando posse de sua caverna sulforosa. Comecemos por reinar sobre nosso Inferno, se quisermos sair para conquistar o céu e a terra.
Oswald Wirth — Os Mistérios da Arte Real — Ritual do Adepto.

Um comentário:

Carlos disse...

Lindo texto!!!