domingo, 17 de setembro de 2017

INICIAÇÃO AO GRAU DE APRENDIZ (IMPRESSÕES)

À GL.'. do G.'. A.'. D.'. U.'.

Augusta e Respeitável Loja Maçônica Simbólica Mista
Triângulo da Fraternidade


   S.'.


                                                            F.'.             U.'.

Primeira peça de arquitetura do grau de Aprendiz Maçom.

Tema solicitado pelo Ir.'. 2º Vig.'. - Iniciação ao Grau de Aprendiz (Impressões)


          Durante o momento em que fui vendado e comecei minha jornada, pensei na Criação Divina, que eu considero um magnífico espetáculo, e na capacidade humana de representar nossa jornada evolutiva por intermédio de símbolos contidos nas iniciações e nos estudos das organizações iniciáticas.  Caminhei imaginando como se estivesse percorrendo túneis. Ao terminar minha jornada, sentei-me e Meditei a respeito da iniciação que eu estava realizando, e a respeito da geometria que iria me cercar, que está muito presente e oculta através dos símbolos maçônicos, numa tentativa de buscar uma razão para explicar por que eu estava ali, naquele lugar, naquele momento específico. Quando eu permaneci na câmara da Reflexão para assinar os papéis, e me deparei com a caveira, comecei a relembrar minha trajetória de vida, das inúmeras iniciações que eu já realizei, tentando buscar respostas para a minha existência. Pensei que este não é um novo momento, mas um velho momento, onde espaço e tempo se tornam inexistentes. Pensei que aquele, era apenas mais uma etapa em minha vida, uma etapa que eu ainda não sei o motivo, ou o por que de eu estar ali, pois já estive em tantos lugares, em tantos momentos, e todos serviram para algo, para me transformar no que hoje eu sou, ou penso ser, ou no que ainda vou me transformar. Ainda não sei o verdadeiro motivo que me impeliu para que eu  adentra-se neste templo, nesta antiga ordem iniciática e filosófica. Mas sei, tenho plena certeza, por razão de experiências neste campo, que nada acontece por acaso, que tudo tem sua razão de ser. Vivenciei este momento iniciático, tendo a certeza, de que, o que realmente importa não são as letras ou as palavras, mas, sim, a vivência pessoal que cada um experimenta nesses locais iniciáticos. Sei que, todos os livros são as janelas do conhecimento, mas não são as portas, apontam coisas aos homens, mas não as dão de fato, (SanMartin). E, é desse modo, que eu ha muito tempo encaro o auto conhecimento, ou seja, não busco em livros ou em homens, mas sim em meu ser interior, onde todas as resposta se encontram já em sua plenitude máxima. Mas, também, sei que os livros, os símbolos e as alegorias, os rituais, nos trazem um caminho a ser seguido, nos fornecem um princípio simbólico de entendimento das coisas vivenciadas por todos os iniciados.
Meditando durante a iniciação, eu pensava, que, o que realmente importa numa iniciação, ou em toda iniciação, seja onde for, é que a egrégora é o ponto culminante de toda forma de iniciação, desde as mais primitivas e simples, até as mais elaboradas e refinadas, pois todos as iniciações possuem uma finalidade em comum, ou seja, a finalidade de nos ligar a outras almas que buscam um objetivo comum para todos, embora a forma de entendimento de cada um seja individual e pessoal. São diversos rios, diversos entendimentos, diversas formas de pensar Deus, mas devemos ter sempre em mente, que todos os rios deságuam num único e imenso oceano. Este oceano, representa a união de todas as almas. Antes da queda, todas as almas eram interligadas numa única fonte e modo de existir, mas após a queda, houve a confusão, os véus baixaram em frente aos olhos de cada alma individualmente, e cada uma começou uma jornada pessoal e diferente, numa busca ininterrupta, através de inúmeras encarnações no mundo das multiplicidades terrenas. Mas, no decorrer dos tempos, no suceder das encarnações, estas almas começaram novamente a se reagrupar, e desse modo, começaram as inúmeras egrégoras, iniciações, ordens, religiões, filosofias, etc. Por que, no final, tudo retornará ao começo. Lembrando que todas as almas apenas poderão retornar ao paraíso, ao seu local de origem, juntas, nada chega ao pai individualizado, a não ser por intermédio de Ostes cósmicos, ou das Ostes terrenas, e mesmo assim, estas Ostes Cósmicas e terrenas formam egrégoras para poderem acessar ao Criador. Enquanto isto não acontece, enquanto não retornamos ao nosso local de origem, onde a evolução acontece pela vida, e não mais pela morte como ocorre em nosso mundo terreno, nós humanos, aprendizes, eternamente aprendizes, independente do grau de consciência ou das iniciações que temos, nos unimos em egrégoras por intermédio dessas iniciações realizadas nas ordens iniciáticas, em religiões ou filosofias. Tudo isto, de algum modo, se passou em minha cabeça no momento da minha iniciação ao grau de Aprendiz, grau este, que eu pretendo nunca esquecer, de que, "sempre serei um eterno Aprendiz", pois este é um dos objetivos do trabalho maçônico, lembrar de que sempre seremos aprendizes neste mundo, e que devemos utilizar estes momentos de estudos para despertar na busca do conhecimento oculto que aparentemente parece estar distante, mas que pode estar ao nosso lado, ou dentro de cada um de nós.
          Tudo isto, eu expresso, em nome do Nosso Senhor, Criador de todas as coisas, do Grande Arquiteto do Universo.   

         Or.'. de Porto Alegre, 21 de setembro de 2013. da E.'. V.'.

Vinicius dos Santos
Apr.'. M.'.


Bibliografia:

Sanmartin, Louis Claude de - Monografia Martinista.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A MAÇONARIA E A MULHER

A Historia da Maçonaria, as suas origens e os seus Princípios Filosóficos estão dissecados, publicados e à disposição de todos em qualquer boa livraria. É importante considerar que aqueles que se dedicam a escrever sobre Maçonaria seguem Escolas diferentes.
Em primeiro lugar temos a Escola Autêntica, que tem a tendência de fazer a Maçonaria derivar das Lojas e Corporações Operativas da Idade Média. Temos também  a Escola Antropológica, que aplica as descobertas da antropologia aos estudos das origens históricas da Maçonaria. A Escola antropológica dá à Maçonaria uma antiguidade muito maior do que a defendida pela Escola Autêntica. Temos ainda a Escola Mística, que procura despertar espiritualmente o homem em seu desenvolvimento interno. Esta Escola tem buscado espiritualizar a Maçonaria, o que a leva às portas do conceito de religião.
Finalmente, temos a Escola Oculta. Esta Escola, do mesmo modo que a Mística, busca a união do homem com o Criador. Enquanto os místicos usam a oração, os ocultistas recorrem à magia, com a invocação das forças invisíveis. Esta Escola é representada pela Ordem Maçônica Mista Internacional “O Direito Humano”, com sede em Paris. Ela se distingue pela admissão de mulheres, com iniciação no mesmo nível de igualdade com os homens. Nesta Ordem encontramos os ensinamentos de Pitágoras, de Agrippa, de Paracelso, da Ordem Rosa-Cruz e da Maçonaria Egípcia de Cagliostro.  Esta Ordem foi fundada em 1893 em Paris por Maria Deraismes e Georges Martin, e está presente, com suas Lojas Mistas, em 60 países de todos os continentes.
Não são poucos os documentos que contêm os Antigos Deveres do Maçom e que atestam a presença da mulher na Maçonaria. Na França, o Livro dos Ofícios, escrito por Etienne Boileau em 1268; na Inglaterra, os Estatutos da Guilda de Norwich, de 1375; na Escócia, os Estatutos da Loja de York, de 1693. Estes Estatutos assim se expressavam: “Aquele ou aquela que se tornar Maçom deve fazer seus juramentos colocando a mão sobre a Bíblia”. Outros documentos de Lojas inglesas citam, nominalmente, várias mulheres-maçons.
As Ordenações da Loja Corporação de Corpus Christi, da cidade de York e datadas de 1408, dizem o seguinte: “Serão admitidos na Ordem todos os candidatos de ambos os sexos, desde que exerçam profissão honesta, tenham boa reputação e sejam de bons costumes”. No mesmo manuscrito se pode ler que os Irmãos e Irmãs deverão prestar o juramento sobre a Bíblia e também se faz alusão à Dama, particularmente no compromisso do Aprendiz, quando ele jura obedecer ao Mestre ou à Dama.
O Manuscrito Régio, escrito em 1390, é composto de 794 versos e fala da tradição da Corporação e dos deveres do Maçom. Em nenhum momento menciona que a Ordem seja restrita aos homens. Ao contrário, prova a presença da mulher, ao afirmar em seu item 10º, versos 203 e 204: “Que nenhum Mestre suplante outro, senão que procedam todos entre si como Irmão e Irmã”. No item 9º, versos 351 e 352, lê-se o seguinte: “Amavelmente, servindo-nos a todos, como se fossemos Irmão e Irmã”. Em síntese, a presença da mulher na Maçonaria está documentada no período que vai de 1268 a 1713, isto é, durante um período de 445 anos.  A exclusão da mulher da Maçonaria viria a ocorrer a partir da criação dos Landmarks, as Cláusulas Pétreas das Constituições Maçônicas, contrariando assim a tradição  e os antigos usos e costumes de nossa Ordem. Esta exclusão foi introduzida pelo Presbítero James Anderson no art. 18 da Constituição de 1723 da Grande Loja de Londres. Assim perdeu a mulher um direito que, por séculos, lhe pertenceu.
É bom lembrar que a alma da mulher é tão digna do favor divino quanto a do homem e que, sob o aspecto místico, nem o espírito tem sexo, nem Deus discrimina nenhuma das suas criaturas. É interessante também lembrar que é atualmente na Inglaterra que está a Maçonaria Feminina mais forte e atuante em todo o mundo.
A Maçonaria da Europa Continental nunca se conformou com esta discriminação. Em 1730, sete anos após a exclusão da mulher pela Maçonaria inglesa, criou-se na França a Maçonaria de Adoção. Tratava-se de Lojas Maçônicas femininas, adotadas por Lojas Masculinas. Em 1786 o Conde Cagliostro fundou a Loja Sabedoria Triunfante, para homens e mulheres. Dizia Cagliostro que se as mulheres eram admitidas nos Antigos Mistérios, não havia razão para excluí-las das Ordens Modernas. A Maçonaria de Adoção chegou ao Brasil em 1876, e suas Lojas só cessaram de funcionar em 1903. A Maçonaria de Adoção possui Lojas em muitos países do Mundo.
Em resumo, existem três tipos de Maçonaria para Mulheres: A Maçonaria Mista chamada  O Direito Humano, formada por homens e mulheres, a Maçonaria de Adoção, apadrinhada por Lojas Masculinas e a Maçonaria Feminina. A Maçonaria Feminina exclui, totalmente, a participação de homens em suas Lojas.  Em Portugal, por exemplo, as primeiras Lojas da Maçonaria Feminina foram fundadas no ano de 1983. Hoje, este país tem uma Grande Loja Feminina de Portugal.
Devido à influência que a Grande Loja Unida da Inglaterra e as Grandes Lojas Norte-Americanas exercem no mundo Maçônico, são consideradas Irregulares todas Lojas e entidades Maçônicas compostas por mulheres.
Por outro lado, o caráter exclusivista e masculino da Maçonaria contraria a essência dos Antigos Deveres, contraria a Divisa da Ordem por negar o princípio da Igualdade, e impede a adequação à Tradição e aos parâmetros que regem a evolução e o progresso das sociedades humanas.
A marcha da história é irreversível. O que fazer então, para mudar o atual estado de coisas? No Brasil, por exemplo, o GOB sofreu os dissabores e as represálias da perda de reconhecimentos internacionais quando, no final do séc. XIX e início do séc. XX concedeu Cartas Constitutivas a algumas Lojas da Maçonaria de Adoção. Pressões e perda de reconhecimentos internacionais levaram o GOB a revogar em 1903 estas Cartas Constitutivas.

A união entre as Potências Maçônicas Brasileiras poderia fornecer o cacife necessário para submeter o assunto às demais Potências do Mundo. O que impede então a Maçonaria brasileira de debater o assunto e fazer causa comum para devolver à mulher aquilo que lhe foi tirado pelos falsos luminares que subverteram a Tradição Maçônica no início do século XVIII?  Fica aqui a sugestão.
Antonio Rocha Fadista – M.I.
https://bibliot3ca.wordpress.com/a-maconaria-e-a-mulher/

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O OUTRO TERMO DA EQUAÇÃO


A afirmação de que o que se busca na Maçonaria é o aperfeiçoamento individual através da interação com a Loja transcrita para linguagem matemática seria qualquer coisa como Maçom + Loja = Aperfeiçoamento.

O primeiro termo da equação, o Maçom, é abundantemente tratado nos escritos, nos seus mais variados aspetos. É natural: os maçons que escrevem sobre Maçonaria integram eles próprios o primeiro termo da equação, conhecem-no literalmente por dentro e por fora, é mais fácil escrever sobre o que se conhece, analisar o que o próprio sente, definir os objetivos que o próprio anseia.

Mas, para que a equação funcione, exista realmente, é indispensável a presença e o efeito do seu segundo termo: a Loja. É a Loja que é o ponto de confluência de todos os obreiros, onde todos levam as suas idiossincrasias pessoais, mas também os seus esforços, preocupações e anseios. É no confronto de tudo aquilo que se junta e partilha na Loja que cada um escolhe e retira os materiais e as ferramentas que utilizará no seu próprio desbaste. Ser maçom só faz plenamente sentido se e quando integrado em Loja. Aí, sim, o método disponível para ao aperfeiçoamento individual concretiza-se. Maçom e Loja completam-se e mutuamente se influenciam.

Há muita matéria escrita sobre o primeiro termo da equação, o maçom. Sobre o segundo termo dessa equação, a Loja, os elementos disponíveis são muito menos. Não é só por ser mais fácil escrever sobre o maçom do que sobre a Loja. É também porque, se bem virmos a coisa, a relação entre o maçom e a Loja é similar ao que, dizem os entendidos no assunto, sucede no âmbito da física quântica: o observador, pelo simples facto de observar o fenómeno, altera esse fenómeno. 

Efetivamente, o maçom integra-se numa Loja. É influenciado por ela, mas também ele próprio a influencia. O simples facto de o maçom observar, analisar, efetuar juízo crítico sobre a sua Loja, faz com que, seja a sua análise melhor ou pior, seja o resultado dela mais ou menos agradável, altere a perceção que dela tinha. E, ao tal suceder, inevitavelmente que se modifica, quiçá impercetivelmente, a sua relação com a Loja e, assim, a forma como a Loja o influencia, mas também a sua própria influência sobre a Loja. O simples facto de observar a Loja resulta na modificação da Loja observada, tal como na modificação do próprio observador. Mudanças insignificantes, impercetíveis, talvez. Mas estão lá, ficam lá, interagem com outras subtis modificações. Assim evolui o maçom. Assim evolui a Loja. Assim evoluem ambos.

Esta relação mutuamente influenciadora entre o maçom e a sua Loja deve alertar-nos para a necessidade de não nos concentrarmos apenas no primeiro termo da equação, o maçom, isto é, nós - apesar de ser esse, de sermos nós, o objetivo principal -, mas também não descurar a atenção no segundo termo da equação, a Loja.

Não nos enganemos: a Loja não são as paredes dentro das quais nos reunimos. Não são os adereços que nos rodeiam. Não é o mero ambiente que criamos. Nem o conjunto de lições que aprendemos. A Loja é, somos, o conjunto de maçons que nela se integram. A Loja não é ELA. A Loja é NÓS.  A Loja, sendo algo diverso de nós, é algo de que nós fazemos parte, que nós influenciamos e que nos influencia.

O maçom deseja aperfeiçoar-se. É meritório. Ao fazê-lo, está a cuidar de si. Mas o maçom sabe que a sua tarefa só plenamente se executa se em consonância, em interação, com sua Loja. Assim sendo, o mínimo de bom senso manda que também se preocupe com a sua Loja, com o bom estado dela. E, repito, o que aqui menos importa são as paredes, a decoração ou os artefactos. O que importa, a essência da Loja, são os seus obreiros. Um a um. Todos. O conjunto de todos. A influência de cada um sobre cada um e sobre todos e a influência de todos sobre cada um.

Observar, estudar, a dinâmica da Loja, procurar determinar o estado dela, as correções que nela porventura haja a fazer, o contributo que relevantemente a ela possamos dar, é tarefa que o maçom não deve, não pode descurar. É uma tarefa ciclópica, eu sei! Parece, muitas vezes, uma tarefa impossível, de tal forma se nos afiguram insignificantes os resultados que a nossa ação individual é suscetível de obter, também o sei. Mas a colmeia vive e cresce graças ao aparentemente insignificante resultado do trabalho de cada uma das suas abelhas...

O maçom que aprendeu a sê-lo não esquece que tem de zelar pelos dois termos da equação. Porque o resultado individual depende do coletivo. Porque o coletivo depende do individual, mas também influencia o individual. Ao zelar pelo bom estado da sua Loja, o maçom está simultaneamente a melhorar-se a si próprio. Ao melhorar-se a si próprio, está a contribuir para a melhoria da sua Loja.

Bem vistas as coisas, sim, a relação entre o maçom e a sua Loja é como a física quântica: parece muito difícil, aparenta ser muito inacessível, mostra-se muito esotérica, mas o que é preciso é afinal apenas trabalho e bom senso!

Rui Bandeira
Fonte: http://a-partir-pedra.blogspot.com.br/2017/02/o-outro-termo-da-equacao.html

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O abrasivo que afia o cinzel


A gigantesca e verdadeira obra da Maçonaria é propiciar ao seu iniciado um lugar adequado para a modificação da personalidade, a moderação de paixões e desejos e o desenvolvimento de virtudes; numa escalada que inicia numa operação denominada: desbastar a pedra bruta.
Esta atividade consiste no trabalho, básico e rústico, de arrancar da pedra, arestas, deformidades e protuberâncias, de modo que ela possa vir a adaptar-se ao seu lugar reservado numa importante construção.
Traduzindo, significa: o aprendiz recebe instrução, é dotado de ferramentas, de conhecimentos elementares, é assistido por método e simbologia próprios que, manipulados por seu intelecto, culminam em desenvolver suas capacidades racionais, intelectuais, lógicas e filosóficas nos assuntos da Maçonaria.
E estas, por sua vez, o auxiliam a subir uma escada que parte de um ambiente onde domina a matéria, e o eleva até um estágio onde ocorre a predominância do espírito sobre a matéria.
O interessante é que, o potencial adquirido com o uso da sua própria intelectualidade, dependendo de suas raízes culturais, não o precipita na geração de dogmas que possam torná-lo fanático; ao contrário, o treinamento o leva ao suave equilíbrio entre racionalidade e espiritualidade.
Gradativamente, o processo "abre portas inefáveis" até então invisíveis. Sua sensibilidade lhe revela, a cada reunião, no templo especialmente preparado para o seu desenvolvimento pessoal, onde, sob efeito de sons e incenso, ocorre sua integração com a força do maçom, um campo energético gerado pelo seu grupo de companheiros.
A vida mística e profunda da essência dos símbolos vai gradativamente revelando o que até então não enxergava. Desvelando apenas uma parte onde ele mesmo é material de construção, uma pedra que depois de trabalhada, constituirá parte integrante do grande templo moral da humanidade.
Dentre as ferramentas de trabalho do aprendiz estão o maço e o inseparável cinzel que desbastam a pedra bruta, ele mesmo. O cinzel representa o intelecto e ambos concorrem para o mesmo objetivo. É exemplo de dualismo construtivo, eficaz e positivo.
O cinzel é o símbolo do trabalho inteligente. Seguro pela mão esquerda corresponde ao aspecto passivo da consciência, à penetração, à receptividade intelectual, ao discernimento especulativo, indispensável para descobrir as protuberâncias ou falhas da personalidade. Serve de intermediário entre o homem e a natureza. Sozinho seu uso é quase nulo. Sem a ajuda do maço ele não produz muita coisa, exige participação da outra ferramenta. Assemelhado com a razão humana que, isolada, nada constrói. O cinzel carece da parte operativa, ação, força e trabalho do maço.
A lógica representada pelo cinzel torna o aprendiz independente, sem torná-lo mesquinho. Sem sua intervenção, o resultado do trabalho seria inútil, senão perigoso. A sua falta representa as soluções aprisionadas no espírito. Além de ser emblema da escultura, arquitetura e belas artes, é também a imagem da causticidade dos argumentos que permite destruir os sofismas do erro.
O cinzel é usado para o trabalho mais bruto, no alicerce de uma construção. Um trabalho básico. É o aço aplicado sobre a pedra, ambos duros, mas, a dureza do cinzel é maior, ademais, está afiado, daí sua capacidade de penetração, de corte das asperezas. Com ele corta-se fora o que o homem tem de feroz, levando-o a uma condição mais elevada diante da natureza e aproximando-o do conceito de Grande Arquiteto do Universo.
A Terra seria um deserto se os seres humanos deixassem de fazer por polidez o que são incapazes de fazer por amor, e seria quase perfeito, se cada um conseguisse fazer por amor o que só faz por polidez; isto porque, ela faz a pessoa parecer por fora, como deveria ser por dentro.
Quem não for bastante delicado e cortês não pode ser muito bom.
Cerimônias são diferentes em cada país, mas a verdadeira cortesia é igual em todos os lugares.
Assim como a cera, naturalmente dura e rígida, torna-se, com um pouco de calor, tão moldável que se pode levá-la a tomar a forma que se desejar. Também se pode, com um pouco de cortesia e amabilidade, conquistar os obstinados e os hostis.
Partindo do princípio de que uma virtude não é natural, mas uma qualidade desenvolvida ao longo do crescimento individual, do ponto de vista moral, a polidez é uma virtude. Como exemplo: o que acorreria com as quatro virtudes cardeais: justiça, prudência, temperança e coragem, se o indivíduo não é polido ou destituído de qualquer educação ou cortesia? Seriam inúteis!
Sem a educação e o respeito não há como desenvolver virtudes. E como a polidez é algo de aparente pouca importância, é neste "quase nada" que reside seu mérito. Ela pode ser definida como o caráter ou a qualidade do que é polido, da fina educação, da gentileza.
É também uma forma do discurso que indica cortesia e civilidade daquele que fala. Ao que se esforça no uso de expressões que atenuem o tom autoritário, do imperativo e outras fórmulas de etiqueta linguística.
Adicionalmente, designa o indivíduo que possui grandes virtudes e elevada cultura e conhecimento em determinadas áreas do saber.
Na luta para obter maior controle do espírito sobre a matéria, a polidez lustra o coração, de modo que revele o não visto. Sua transparência é proporcional ao quanto foi polido.
Para quem mais poliu sua sensibilidade manifestam-se mais formas invisíveis e revelam-se verdades para as quais a mais sofisticada racionalidade é impotente.
E o cinzel deve ser afiado continuamente, permanentemente, exigindo constante aporte de novos conhecimentos, para não embotar. É a Polidez, o conhecimento aprofundado de temas da vida que o afia. Afiar o cinzel significa receber fina educação, ser cortês e atencioso. E estas são atividades nas quais denodadamente deve-se investir com força, com a ação do maço, e gradativamente ir galgando a escada que leva à perfeição que pertence ao Grande Arquiteto do Universo.
Autor: Charles Evaldo Boller
Bibliografia
CAMINO, Rizzardo da, Dicionário Maçônico, ISBN 85-7374-251-8, primeira edição, Madras Editora limitada., 413 páginas, São Paulo, 2001;
Paraná, Grande Loja do, Ritual do Grau de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito, terceira edição, Grande Loja do Paraná, 98 páginas, Curitiba, 2001.
Fonte: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2017/02/08/o-abrasivo-que-afia-o-cinzel/

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A DESCOBERTA DA ESPIRITUALIDADE


Você já se perguntou o que é espiritualidade? Para muitas pessoas, a espiritualidade é aquilo que é vivenciado por quem professa uma religião. De fato, dentro do universo das religiões, com seus ensinamentos e cultos, pode-se entrar numa atmosfera de profunda elevação espiritual. Além disso, nossa cultura religiosa ocidental ensina que não há espiritualidade fora da religião, e diferentes religiões disputam o privilégio de ser o único caminho para Deus.
No entanto, Gordon Allport, um dos mais importantes psicólogos do século XX, em um estudo sobre preconceito observou que, paradoxalmente, no meio religioso encontram-se tanto os mais importantes exemplos de compaixão e tolerância, como os mais perturbadores exemplos de preconceito, violência ideológica e intolerância. Isso significa que professorar uma religião não está necessariamente associado a uma genuína vivência espiritual. E, portanto, a pergunta continua: o que é espiritualidade?
Analisada do ponto de vista subjetivo, ou seja, naquela dimensão que se passa no interior de nossa mente, a espiritualidade surge como uma qualidade especial da consciência da ordem do amor, da sabedoria e da paz interior. Ela pode ser inspirada e estimulada pela prática religiosa ou, como percebeu Allport, pode ser suprimida por uma prática inadequada e imatura, tanto do ponto de vista existencial como ético.
Quando a vivência religiosa atua positivamente na geração da qualidade espiritual da consciência, o faz através de exemplos e ensinamentos libertadores, que geram um entendimento da realidade que é inspirador e induz à ação e ao aprofundamento. A qualidade espiritual da consciência, então. cresce firmemente gerando harmonia à sua volta e distribuindo aos mais próximos a inspiração que a alimenta.
No entanto, quando a prática religiosa suprime a espiritualidade, surgem estados de fanatismo e credulidade, julgamentos arrogantes em relação ao diferente, domínio sobre a consciência ele outros, supressão da autonomia e da liberdade de pensamento, perda da espontaneidade e propensão a representar papéis de superioridade. Nesse caso, a vivência religiosa pode gerar grande pre­juízo nas relações interpessoais e desestabilizar interiormente seus praticantes. Impossibilitados de contar de forma autônoma com seus recursos interiores, jáque sua liberdade mental e discernimento são vistos com desconfiança, tornam-se cada vez mais dependentes de figuras externas de autoridade.
Uma interessante definição de espiritualidade foi dada por Annie Besant, uma ativista social que viveu no final do século XlX e começo do século XX, e que se tornou teosofísta após conhecer a fundadora do movimento teosófico, Helena Blavarsky. Besant afirmou queespiritualidade é a percepção da unidade. O conceito de unidade remete a ensinamentos antigos presentes em muitas tradições. e afirma que existe uma realidade última que está na origem do mundo manifestado, onde todas a coisas estão conectadas e compartilham da mesma natureza e origem.
A noção de interdependência, presente no paradigma sistêmico que surgiu da física de partículas e que rapidamente domina os mais diversos cenários atuais da ciência, confirma esse antigo axioma. Do ponto de vista da consciência, portanto, a espiritualidade implica em ultrapassar o pensar discriminativo. N0 entanto, isso é insuficiente para a compreensão do que Anníe Besant procurou mostrar.
Besant conhecia profundamente o pensamento oriental, pois viveu toda a fase madura de sua vida na Índia, estudando e meditando sobre seus legados espirituais. Profunda conhecedora da filosofia do yoga, ela sabia que a espiritualidade está associada à existência de camadas gradualmente mais profundas de nossa mente. Em outras palavras, a dimensão espiritual é a essência de nós mesmos, sendo a mente como a vivenciamos e todo o funcionamen­to psicológico que nela toma lugar apenas a camada mais externa de nosso ser. Para oyOga, nossa verdadeira natureza espiritual está semiadormecida em suas regiões mais profundas, impedida de se manifestar plenamente em razão da superficialidade de nossa mente e ela falta ele sintonia com os estados interiores.
Um termo sânscrito, buddhi, esclarece a definição proposta por Besant. Buddhi significa inteligência espiritual, ou intuição, a capacidade de compreender de forma direta a essência e a natureza das coisas. Nos sábios, buddhi está desperto, gerando aquela classe de discernimento que honra esse termo, ou seja, ir ao cerne das coisas. Quanto mais presente está buddbi, mais o centro da consciência está próximo da unidade, e mais firme é a noção de interdependência e da consequente capacidade de identificar-se com todos os seres comoparte de si mesmo, ou mais propriamente, sendo todos parte do mesmo ser.
Além ela noção de unidade, outros dois aspectos da filosofia oculta da índia explicam o contexto conceitual das palavras de Besant, O primeiro é o de que tudo está vivo e expressa algum grau de consciência. A noção ocidental de seres animados e inanimados não existe nessa visão. Mesmo os seres considerados inanimados, como os minerais, possuem algum grau de consciência, e na dimensão da vida e da consciência estão todos ligados. Mesmo os objetos construídos são átomos e moléculas que estão vivos e também possuem certo grau de consciência.
O segundo aspecto é que existe uma relação de analogia e simbolismo entre micro e macrocosmo. Portanto, o ser humano guarda na profundidade espiritual de seu ser as mesmas forças e princípios que criaram o universo. A mente humana é expressão da mente cósmica que arquitetou o universo. O poder criador que move todas as coisas também se move em nós, e a força aglutinadora e geradora de vida se expressa em nós como amor nas mais diversas formas.
A questão central da espiritualidade, portanto, é como descobrir em nós o seu poder. Se é verdade que ela é a essência de nosso ser, estarmos privados de sua presença significa estarmos exilados de nós mesmos. Para tal exílio, não há movimento físico de volta possível, porque a cisão ocorre na subjetividade da consciência. Tal exílio equivale a estar condenado a uma constante insatisfação existencial, onde a diversão do momento sempre perde o seu encanto. Buddhi, ao contrário, se expressa como felicidade sem causa, um estado de plenitude e de puro ser que nenhuma busca exige ou necessita.
Talvez a primeira atitude segura associada ao despertar da espiritualidade seja assumir que somos apenas alunos e sempre seremos.Mesmo alguém que está capacitado para ensinar algo sobre espiritualidade a quem está numa fase menos adiantada sempre é uma criança face às crescentes complexidades e aos mistérios que se encontram no cantinho, De fato, abandonar a postura de aprendiz pode ser um grave risco para o caminhante, que pode satisfazer-se por orgulho e arrogância com supostas posições de superioridade, Essa imersão de perspectiva está na origem da derrocada de grandes movimentos espiritualistas.
A postura do aluno (discípulo) implica assumir a ignorância e ser preenchido pela sinceridade do perguntar e do escutar, O caminho passa a ser, então, o deleite de descobrir o impressionante e encantador espetáculo divino, cuja sabedoria vai sendo gradual e parcialmente desvelada. Esse é um processo pleno de beleza e encantos surgidos da comunhão com a grande mente. É ao mesmo tempo pleno de decepção e dor resultantes da nossa ignorância. A superação da ignorância espiritual, sempre lembrada pela dor, faz gra­dualmente aflorar a qualidade da sabedoria, da paz e do amor característicos da espiritualidade real.
Os termos aluno, aprendiz ou discípulo tornam-se ainda mais apropriados quando observados dois aspectos do caminho. O primeiro é que se cria uma relação de aprendizado consciente em que quem ensina é a própria vida. A cada pergunta, consciente ou inconscientemente formulada pelo aprendiz, haverá uma resposta. O que fica em questão, aqui, passa a ser a capacidade do aprendiz identificar e escutar o que a vida traz como resposta. Esse é um exercício encantador que fortalece imensamente a confiança no processo do aprendizado e deixa muito evidente que estamos envoltos num incrível mistério. A pequena mente do aluno e a grande mente cósmica começam a dialogar.
O segundo aspecto é explicado pela filosofia oriental como o estabelecimento de um vínculo do aprendiz com mestres espirituais, vínculoesse que o aprendiz pode desconhecer. O que ocorre é que, quando o pensamento purificado e sincero do buscador atinge níveis vibratóriosmais sutis, inevitavelmente entra nas faixas vibratórias que são o campo de ação dos verdadeiros mestres espirituais. Tal como sabemos quando alguém bate à porta de nossa casa, esses seres iluminados que acompanham secretamente o desabrochar espiritual de todos os seres não deixam de perceber quando alguém atinge ou toca os reinos invisíveis mais sutis da realidade, mesmo tendo o pensar e a aspiraçãoainda incipientes. A criação desse vínculo, mesmo que o aspirante não saiba, será de fundamental importância para seu futuro.
Assim como um copo d'água pode guardar em seu fundo, por decantação, partículas de sujeira, também nós temos nosso psiquismo carregado de toxinas emocionais e mentais. Carregamos um enorme peso psicológico de crenças, condicionamentos, autoimagens negativas, culpa, autocobranças que geram inquietação, egocentrismo e isolamento. Isso nos torna psicologicamente pesados, especialmente pelos nódulos emocionais que geram as defesas que formam nossa personalidade. Por defesa. nos tornamos egocentrados. em constante busca de nossos interesses. Apesar de ser considerado "normal" em nossa sociedade, esse funcionamento é pleno de motivações egoístas que se tornam um impedimento intransponível para quem deseja tocar essas regiões vibratórias mais sutis.
Gerar a motivação correta, desprovida de egoísmo. é uma fase crucial do verdadeiro despertar espiritual. Equivale a colocar água tre­mendamente pura no copo, o que inevitavelmente levanta a sujeira depositada no fundo. Superar o peso psíquico das motivações egoístas éum trabalho alquímico que cabe ao próprio aprendiz. Descartar o que se tornou velho, como conceitos e crenças que não servem mais, buscas obsessivas que só nos prendem, hábitos perniciosos e a capacidade de gerar sofrimento são a desintoxicação necessária ao aprendiz. Ele deve aprender a desaprender. É necessário reconquistar a espontaneidade interior de uma criança tendo a experiência e maturidade de um ancião. Apenas a leveza da motivação inegoísta possibilita isso. O copo, então, estará cheio de água pura.
Se o desaprender é fundamental, há também o aprender fundamental: o de abrir-se para o novo, o desconhecido, e fazê-lo sem ser tomado pela insegurança, confiando apenas no próprio discernimento e na natureza espiritual da realidade. Com a capacidade de olhar de forma nova para tudo, comprometida com a verdade e com a motivação de gerar felicidade para todos os seres, a qualidade amorosa, pacífica e sábia da espiritualidade vai ocupando irreversivelmente o lugar central que lhe está reservado em nossa vida e em nossa consciência.
Autor: Marco Antônio Bilibio Carvalho, psicólogo e membro da Sociedade Teosófica.
Fontehttp://lojateosoficadharma.blogspot.com.br/2016/09/a-descoberta-da-espiritualidade-marco.html

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

EM BUSCA DE UMA TRADIÇÃO INVENTADA


A história é continuamente reescrita. À medida que a realidade presente muda, as interpretações acerca de um fato passado também são alteradas, buscando respostas que correspondam melhor às necessidades do tempo atual. Foi assim com a Inconfidência Mineira (1789). Poucos momentos foram tão debatidos, reescritos e apropriados quanto esse.
Durante boa parte do século XIX, a Inconfidência não assumiu lugar de destaque na historiografia brasileira. Tal situação modificou-se apenas na segunda metade do século, quando o princípio da nacionalidade tornou-se uma questão premente a ser resolvida. Urgia ao Brasil a construção de laços de pertencimento capazes de criar um sentimento nacionalista, e era fundamental encontrar os elementos fundadores da nação, construindo uma identidade que pudesse particularizá-la. Com o golpe militar que inaugurou a República em 1889, essas necessidades foram reforçadas. O regime instaurado de cima para baixo estava longe de apresentar-se como uma demanda da população em geral. Assim, era preciso legitimá-lo perante o povo, apresentando-o não como um elemento estranho à sociedade, mas sim como um desejo histórico presente havia muito tempo.
A solução para essas questões passava pela criação de um mito fundador que estabelecesse uma ideia de continuidade entre o fato presente e o passado brasileiro. Era necessário criar uma tradição republicana para a nação por meio de heróis que já tivessem ansiado pela implantação desse regime. Nessa ocasião, a Inconfidência Mineira e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, assumiram com propriedade o papel de precursores da República.
A escolha de Tiradentes como herói nacional não é difícil de ser explicada. Com a publicação da obra de Joaquim Norberto de Souza e Silva, História da Conjuração Mineira (1873), que ressaltava o fervor religioso do personagem nos últimos momentos de sua vida, inúmeras representações simbólicas tornaram-se possíveis, aproximando-o à figura de Cristo. Outro fator importante para essa opção foi que o movimento não aconteceu efetivamente, o que poupou os inconfidentes do derramamento de sangue e os manteve imaculados. Eles foram apenas vítimas da violência, nunca agentes.
A Inconfidência como objeto passível de ser novamente apropriado permitiu à historiografia refazer as linhas gerais do levante sempre que a conjuntura política brasileira teve necessidade de reavivar o sentimento nacional. Seu legado simbólico foi retomado de tempos em tempos, mais especificamente nos momentos de rupturas históricas no decorrer do século XX. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e até mesmo os militares de 1964, auto-intitulados “os novos inconfidentes”, apropriaram-se do fato histórico em favor de seus interesses políticos. Sob novas roupagens, o mito repetia-se incessantemente.
Contudo, não foram apenas os governos que utilizaram a influência do movimento e de seu herói. Muitas instituições também procuraram um “lugar ao sol” nessa festa de apropriações simbólicas. Foi o caso da maçonaria, que tomou Tiradentes como seu símbolo maior no Brasil ainda no século XIX. A partir de 1870, ocorreu um crescimento acelerado do número de lojas maçônicas no país e muitas delas foram batizadas de “Tiradentes”. Frequentemente, suas bibliotecas tinham o inconfidente por patrono e até mesmo os jornais maçônicos carregavam seu nome. Já no século XX, Tiradentes pareceu ganhar em definitivo um lugar de destaque no panteão maçônico, tornando-se patrono da Academia Maçônica de Letras.
Mas por que esse mineiro poderia representar a maçonaria? Que legitimidade haveria nisso? “Simples”, responderiam os historiadores ligados a essa organização: Tiradentes teria sido maçom, e a Inconfidência Mineira, uma conspiração maçônica em prol da libertação nacional!
Muitos maçons, historiadores ou não, aventuraram-se a escrever sobre o episódio para desvendar sua “verdadeira” história e demonstrar o papel crucial da maçonaria na definição dos acontecimentos de 1789. Em geral, essas narrativas começam demonstrando que a Inconfidência não foi um episódio regional. Tal movimento teria feito parte de um projeto internacional elaborado para tornar livres todos os povos oprimidos. A Inconfidência, a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos seriam expressões de um mesmo fenômeno: o do anseio revolucionário por independência, democracia e liberdade que sacudiu a Europa e a América por meio das atividades maçônicas.
Desse modo, o sentimento nativista não seria suficiente para explicar os anseios dos inconfidentes pela República. Acreditar apenas nisso, segundo os escritores da maçonaria, seria “ingenuidade e romantismo”. Os conspiradores mineiros agiriam inspirados não só pela ideia de nação brasileira, mas, principalmente, pelos sentimentos de sua organização. “Mirando-se no exemplo vitorioso da revolução americana guiada por George Washington, Thomas Jefferson, etc., (...) os líderes inconfidentes questionaram o que a metrópole impunha como sendo inquestionável”, escreve o maçom Raymundo Vargas. Eles não teriam planejado uma revolta se não tivessem certeza de que os “irmãos” americanos prestariam auxílio ao restante do continente. O projeto também incluía a Europa, e a França foi o palco escolhido para os contatos que uniriam o Brasil “a essa corrente universal de liberdade”.
A narrativa maçônica apresenta-se confusa para aqueles que sabem que a instituição foi fundada no Brasil em 1801. A Inconfidência poderia caracterizar-se como um movimento maçônico se ainda não havia lojas no Brasil? De acordo com seus escritores, haveria, sim, centenas de maçons organizados em lojas, mas estas funcionavam clandestinamente, já que a ordem se encontrava proibida pela legislação portuguesa.
O relato que inaugurou a crença em uma Inconfidência de caráter maçônico partiu de Joaquim Felício dos Santos, que, curiosamente, não era maçom. Em sua obra Memórias do distrito diamantino da comarca do Serro Frio (1924), ele escreve que a “Inconfidência de Minas tinha sido dirigida pela maçonaria, Tiradentes e quase todos os conjurados eram pedreiros-livres”. Com base nessa passagem, estudiosos, maçons ou não, começaram a associar automaticamente a Inconfidência à maçonaria. Surgiu a crença de que Tiradentes, que ia muito à Bahia para refazer o sortimento de mercadorias de seu negócio, acabou, numa de suas viagens, tornando-se maçom. Ele seria o responsável pela criação de uma loja maçônica, local onde os conjurados teriam sido iniciados na organização, “introduzida por Tiradentes quando por aqui passava vindo da Bahia para Vila Rica”, escreve Tenório D'Albuquerque.
Prova maior da importância do triângulo como símbolo maçônico teria se dado no momento da execução de Tiradentes, quando o maçom e capitão Luiz Benedito de Castro não distribuiu as tropas em círculo como de costume, e sim formou um triângulo humano em torno do patíbulo. A multidão “não poderia compreender o significado simbólico daquele triângulo, mas Tiradentes, no centro dele, compreendia aquela última e singela homenagem”, descreve Raymundo Vargas.
Finalmente, as narrativas maçônicas encontram explicação também para um instigante mistério: o sumiço da cabeça de Tiradentes. A urna funerária contendo a cabeça do herói da Inconfidência teria sido retirada secretamente às altas horas da noite pelos irmãos maçons remanescentes do movimento. O roubo da cabeça seria, segundo Raymundo Vargas, uma das primeiras afrontas da maçonaria às autoridades repressoras portuguesas, mostrando-lhes que “a luta só começava”. Segundo autores maçons, não teria sido por acaso que, no mesmo local onde a cabeça de Tiradentes fora exposta, o então presidente da província mineira e grão-mestre da maçonaria brasileira em 1874 Joaquim Saldanha Marinho, em 3 de abril de 1867 ergueu uma coluna de pedra em memória do mártir maçom.
Vários outros aspectos da Inconfidência foram trabalhados pelos autores ligados à organização, tais como a personalidade maçônica do Visconde de Barbacena ou as “irrefutáveis” provas da viagem de Tiradentes à Europa para fazer contato com seus irmãos da ordem. Percebe-se que a maçonaria, por meio de seus intelectuais, construiu uma série de argumentos para não deixar dúvida quanto ao papel de destaque dessa instituição no desenrolar de todos os fatos da Conjuração. Recentemente, surgiram alguns trabalhos elaborados por historiadores maçons mais criteriosos que refutam muitas das teses aqui apresentadas. Contudo, estes ainda não foram suficientes para derrubar do imaginário maçônico a figura do herói mineiro.
De fato, existem vestígios de que maçons passaram pelas Minas setecentistas. Analisando os processos inquisitoriais luso-brasileiros de fins do século XVIII e início do XIX, encontram-se denúncias contra mineiros de Vila Rica e do Tijuco, acusados de libertinos, heréticos e maçons. Sabe-se também que muitos estudantes brasileiros em Coimbra e Montpellier iniciaram-se na maçonaria europeia e trouxeram seus valores e ideias para o Brasil. Alguns deles, como José Álvares Maciel e Domingos Vidal, ajudaram nos planos dos inconfidentes.
Para além da discussão da veracidade ou não desses relatos acerca da Inconfidência, é interessante perceber de que maneira a elaboração de tal narrativa histórica favorece a instituição dos pedreiros livres. Em diversos momentos, a presença da maçonaria em território brasileiro foi questionada. Com a proclamação da República, por exemplo, a Igreja Católica perdeu o título de religião oficial do Estado e, para tentar reaver sua influência política, reforçou o combate à organização. O catolicismo oficial passou a apresentar a maçonaria como uma sociedade “estranha” à cultura brasileira, vinda de fora, representante do imperialismo e, logo, uma ameaça à soberania nacional. Mais tarde, com esses argumentos, Getúlio Vargas a colocaria na ilegalidade.
Diante de situações como essas, tornou-se fundamental para a maçonaria apresentar-se à sociedade brasileira como uma instituição que, ao contrário do que dizem seus opositores, mostra se presente há tempos em nosso território e em nossa cultura. Assim, a narrativa da Inconfidência como um movimento maçônico pode ser denominada de “'tradição inventada”, expressão cunhada por Eric Hobsbawm que indica a criação de um passado com o qual se busca estabelecer uma continuidade. Construir por meio de uma historiografia uma tradição na qual os maçons teriam feito parte do momento fundador da nação brasileira é, sem dúvida, uma maneira de assegurar sua presença no Brasil. Ao associar a imagem de Tiradentes à sua, essa ordem passa a ser lembrada como a defensora dos nobres valores carregados pelo herói nacional. Mais do que uma forma de defesa, a apropriação maçônica da simbologia da Inconfidência lhe dá legitimidade perante a sociedade. Por ora, a estratégia teve êxito na medida em que a insurreição de 1789 e a atuação maçônica encontram-se, ainda hoje, intimamente associadas no imaginário popular.
Autora: Françoise Jean de Oliveira Souza
Notas
A bandeira mineira - A origem da bandeira de Minas Gerais é mais uma prova, para os maçons, do envolvimento desta organização na Inconfidência. “Se ainda ao mais incrédulo dos incrédulos restasse um resquício de dúvida quanto à origem maçônica da Inconfidência Mineira, bastaria contemplar-lhe a bandeira”, afirma Tenório D'Albuquerque, em A bandeira maçônica dos inconfidentes. Utilizando como disfarce a ideia da Santíssima Trindade, o triângulo representaria, na verdade, a sagrada trindade da maçonaria: liberdade, igualdade e fraternidade. No interrogatório relatado nos autos da devassa, ao ser perguntado sobre o significado da bandeira, Tiradentes teria respondido “sagrada trindade” e não “santíssima”. Tal detalhe supostamente passou despercebido ao escrivão.
Discordância entre historiadores - A historiografia acadêmica encontra-se longe de um consenso acerca da participação ou não da maçonaria na Inconfidência. As hipóteses vão desde o papel central dos maçons na elaboração dos planos do levante até a negação total de sua influência na Conjuração.
Augusto de Lima Júnior ressalta o papel da maçonaria ao percebê-la como um importante elemento de ligação e comunicação dos inconfidentes com os grupos de apoio no Rio de Janeiro e na Europa. Em posição oposta está Lúcio José dos Santos, alegando que o fato de não haver nenhum vestígio da ação propriamente maçônica nos autos da devassa seria a maior prova da ausência dessa sociedade na Inconfidência. Também argumenta que, se a maçonaria possuísse prestígio suficiente a ponto de ser a idealizadora do movimento, ela teria tido forças para impedir a condenação de seus membros. Finalmente, a meio-termo entre as duas opiniões encontra-se Márcio Jardim, para quem a atuação maçônica teria sido importante, mas secundária: seu papel seria apenas o de aglutinar pessoas e idéias. O autor observa, ainda, como a maçonaria dos dias atuais se apropria da figura de Tiradentes, o que revelaria um desejo de mostrar poder acima do comum, causando lhe surpresa o fato de “boatos sobreviverem ao tempo e à evidência das provas contrárias”.
Fonte: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2017/01/13/em-busca-de-uma-tra=
dicao-inventada/

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

PALAVRAS VAZIAS SOPRADAS AO VENTO


"Uma pessoa cuja força está em suas palavras e não em suas ações, sempre ficará presa no mundo dos extremos.” Diz o Zohar, o texto mais importante da Cabala. Nossas palavras têm poder. Uma energia incrível é revelada cada vez que se faz uma promessa. Se a pessoa faz uma promessa e depois não a cumpre, cria um pequeno vácuo de energia em sua vida. Por causa destes vazios criados pelas palavras que dizemos e depois não realizamos, com frequência, nos sentimos desconfortáveis e insatisfeitos.
Hoje, tome cuidado para que as palavras que você coloca para fora sejam condizentes com a verdade do que você está fazendo. Se houver diferença entre as palavras e as ações, você está perdendo seu tempo. Tem muita gente que fala demais e faz muito pouco. Faça mais e fale menos.

SIMPLICIDADE


 Aos que buscam o extraordinário,
não o encontrarão em mim. 
Ele nunca me fascinou. 
Eu me encanto com as simplicidades dos dias,
quando um pássaro cruza meu caminho
ou o sol se põe como que conversando comigo.
Pequena que sou, 
as coisas grandes da vida pra mim são aquelas que passam despercebidas,
feitas para olhos delicados e corações atenciosos.
O cheiro de chuva molhando o chão, 
o barulho de um sorriso de criança, 
a brisa que nos toca com mãos de seda.
Um amor correspondido,
uma amizade que resiste ao tempo. 
Isso é o que me deslumbra. 
É o que faz a minha alma suspirar. 
Sou espírito de poucas necessidades.
(Rachel Carvalho)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O SEGREDO MAÇÓNICO ESOTÉRICO: O VERDADEIRO SEGREDO MAÇÓNICO



Na minha opinião, já hoje aqui o disse, o verdadeiro segredo maçónico vai muito além da discrição sobre identidades, modos de reconhecimento, rituais, cerimónias e trabalhos efetuados. Na minha opinião, o verdadeiro segredo maçónico, o que importa, o que releva, existe, não porque os maçons o queiram preservar, mas porque não o conseguem revelar. Porque é insuscetível de plena transmissão.
O verdadeiro segredo maçónico, aquilo a que muitos chamam de Palavra Sagrada ou, muito simplesmente, de Luz, é aquilo que o maçom aprende através do contacto com seus Irmãos, do convívio e busca de entendimento dos elementos simbólicos que a maçonaria profusamente coloca à disposição dos seus elementos, do método de análise, de trabalho, de esforço, de meditação, de extenuada conquista, passo a passo, degrau a degrau, patamar a patamar, sobre si próprio, a pulso desbastando suas imperfeições, despojando-se do interesse sobre toda a ganga material que obnubila os nossos espíritos, indo-se cada vez mais longe em épica viagem, com começo e fim no fundo de si mesmo e aí descobrindo a resposta que procura.
Esta busca, esta viagem, esta procura, tem um começo e um fim, mas nem um nem outro serão porventura os esperados. O começo será sempre depois do meio dia, a hora a que os maçons iniciam os seus trabalhos, quando cada um está efetivamente apto a começar a trilhar o caminho sem marcos, bordas ou fronteiras, que conduzirá não sabe onde. O fim, esse, tem hora marcada, aquela em que os maçons pousam as suas ferramentas, a meia noite. Como em muito do que tem valor, tão importante é o resultado como o trabalho para o obter, tão atraente é o destino, como o caminho que a ele conduz. E muito raramente o caminho mais curto entre o ponto de partida e o de chegada será uma reta...
Em bom rigor, duvido mesmo que haja apenas um verdadeiro segredo maçónico, um único segredo esotérico. Nesta altura do meu entendimento, propendo a considerar que cada maçom atinge a sua própria Luz - a deste com mais brilho, a daquele mais baça, a daqueloutro, qual bruxuleante chama de longínqua vela, mal se vendo -, cada maçon encontra e resgata a sua própria e individual Palavra Perdida - a de um bela e cristalina, a de outro sonora e estentória, a de um terceiro suave e quase inaudível murmúrio.
Cada um encontra o que procura e o que trabalha e se esforça por encontrar. Cada um encontra Segredos, Luzes, Palavras, diferentes ao longo da sua busca. Porque esta nunca termina. Cada resposta encontrada dá origem a novas perguntas, nascidas de mais lúcida compreensão, em perpétua evolução e aprofundamento de compreensão. É por isso que tenho para mim que eu não posso, não consigo, não sei, partilhar a minha Palavra, com mais ninguém, nem sequer com o meu mais chegado Irmão. Não só porque não consigo descrevê-la em toda a sua extensão e complexidade, como porque o mero enunciar do ponto do caminho em que me encontro me abre novos horizontes de busca, para lá dos quais nem sequer sei se não terei de pôr em causa e de reformular tudo ou parte do que me levou a percorrer esse preciso caminho, quer ainda porque cada viagem, mesmo a do meu mais mais chegado Irmão, seguiu rumos diversos dos meus, levando a linguagens distintas, a conceitos diferentes, a complexas variantes.
Cada um, em cada momento, encontra diferente Palavra, vê diversa Luz, preserva variado Segredo, porque cada um viaja para destinos diferentes: cada um viaja até ao fundo de si mesmo e cada um é todo um Universo diferente do parceiro do lado.
Nessa viagem, nesse trabalho, nessa busca, cada um procura coisa diversa. Eu só posso definir o que neste momento busco. Já me reconciliei - há muito! - com a finitude da vida neste plano de existência, já abandonei, por estulta e estéril, a busca do imenso porquê, a mim nunca me interessou particularmente interrogar-me sobre o cósmico como. Por agora, desde há muito e não sei até quando, concentro-me na busca do sentido da Vida e da Criação. Tenho uma ideia rude e imprecisa desse sentido. Busco o melhor ângulo para obter mais Luz. Espero que consiga obter o Brilho suficiente para, através do sentido da Criação, entrever o Criador... E tudo isto eu - neste momento - busco, em fantástica viagem, sem outro veículo que não eu próprio, não consumindo outro combustível senão tudo aquilo de que me interiormente despojo, sem outro destino e caminho senão o fundo de mim mesmo. Porque é o conhecimento de mim mesmo, em todas as complexas vertentes que condicionam o meu Eu, que me habilitará a conhecer o Outro, o Mundo e quem o criou e porquê e para quê e como. Eu sou a pergunta, a pergunta sem resposta, a pergunta buscando a resposta e, simultaneamente, a resposta contida na própria pergunta, que me levará a nova pergunta, que gerará nova resposta, em contínuo alargar de horizontes, que espero me permita entrever o que está para além do horizonte e contém todos os horizontes...
Confuso, não é? Pois é! Eu bem avisei que o segredo maçónico esotérico é aquele que existe porque não se consegue transmitir...
Rui Bandeira - Mestre Maçom
Excerto de Peça de Arquitetura lida em sessão no grau de Aprendiz da R:. L:. Mestre Affonso Domingues, n.º 5, em 13 de abril de 6011, E:. M:..
Texto completo: http://www.rlmad.net/rlmad-main/mmenu-pranchas/715-segredo-maconico-sp-906612108


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A LUZ DA CONSCIÊNCIA


“As ações liberam energias que criam condições favoráveis ou obstruções. O universo é governado por leis imparciais. Ao contrário das leis dos homens, elas não podem ser quebradas impunemente. Existe um perfeito equilíbrio nas forças do universo. Como tudo obedece às leis universais, não há opção para o aprendiz espiritual a não ser trabalhar para criar condições benéficas em si mesmo. Ninguém mais pode fazer isso por ele.

        Ao contrário dos falsos gurus, os verdadeiros adeptos dizem: ‘Preencha as condições.’ Esses instrutores podem parecer duros, mas na realidade são verdadeiros benfeitores. O guru que disser: ‘enquanto você se dedicar a mim, eu o protegerei’ está apenas enganando os discípulos.

         Um Mestre afirmou: ‘Seja puro e decidido na senda da retidão. Seja honesto e altruísta; esqueça de si e pense no lado bom das pessoas.’ Quem segue esses conselhos atrai atenção de um adepto. Dizem que, quando um Iluminado olha para o nosso mundo, que é escuro e triste, vê aqui e ali a Luz da Consciência dos puros e generosos, que esquecem seus próprios interesses pelos dos outros. Os adeptos repetidamente indicaram que somente a afinidade interna pode levar um aspirante até eles. A retidão e a generosidade são condições necessárias para chegar à porta e bater.”

Autoria: Rhada Burnier
Fonte: http://lojateosoficadharma.blogspot.com.br/2016/07/a-luz-da-consciencia-radha-burnier.html

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

TODO PRECONCEITO É ODIOSO

"Meu nome é Reverendo Joel Mbongi Kuvuna. Sou natural da República Democrática do Congo, estudante de doutorado na Universidade de KwaZulu-Natal na África do Sul e pastor da Igreja Protestante.
Lhe escrevo para expor o tratamento desumano que fui exposto em 21 de outubro de 2016, ao término do Seminário Internacional ocorrido em São Leopoldo, no Brasil. O encontro, intitulado “On becoming human-impacting communities: Gender-Race-Politics”, recebeu participantes das Faculdades EST (Brasil), Union Theological Seminary (EUA), University of Oslo, (Noruega) e University of KwaZulu-Natal (UKZN – África do Sul).
Quando retornávamos às nossas cidades de origem através do aeroporto Salgado Filho, de Porto Alegre, por volta de 17h, fui cruelmente humilhado pelo Departamento da Polícia Federal de Porto Alegre. Quatro policiais sem uniforme militar, mas fortemente armados, vieram na nossa direção extremamente furiosos e nos retiraram do setor de embarque: dois professores e dois alunos norte-americanos e eu, logo após o check-in. Nesse instante nos retiraram os passaportes violentamente, sem qualquer explicação, ordenando que os seguisse; nos instalaram em seu gabinete, onde insistiram que meus colegas norte-americanos me deixassem sozinho em uma sala separada. Neste momento finalmente entendi que eu era o alvo do episódio. Mas o que eu havia feito de errado? Minha única falha seria a de ser negro e portar um passaporte africano.
Quando meus colegas saíram da sala, os agentes abriram minhas bagagens e espalharam meus pertences, sem que eu pudesse perguntar o que havia de errado, dizendo apenas que eu ficasse calado. Fiquei traumatizado pelo ocorrido, pois eles demonstraram claramente seu desdém por mim enquanto verificavam minha bagagens. Quando um dos agentes encontraram minha loção, disse com desdém: “African lotion!”.
Então chamaram seu cachorro para me farejar. Ao não encontrar nada, me obrigaram a tirar toda a minha roupa e o forçaram a me farejar mais três vezes. Quanto mais os agentes não confirmavam sua expectativa, mais furiosos ficavam. Finalmente, após confirmar a inexistência de qualquer irregularidade, nada foi explicado a respeito do que estava sendo procurado e qualquer pedido de desculpas foi feito. Eles apenas disseram para que eu recolhesse as minhas coisas e saísse. Eu chorei como nunca antes, desde que me tornei adulto.
Por que fui tratado de modo desumano, como um animal, mantido em custódia, enquanto meus colegas me aguardavam do lado de fora? Ao perguntarmos que lei havíamos desrespeitado, um dos agentes respondeu “se vocês resistirem, nós queremos mostrar que estamos no Brasil”.
Eu tenho apenas uma hipótese para isso: quando os agentes viram os passaportes dos meus colegas, os retiraram imediatamente para que me esperassem do lado de fora. Meu tratamento foi em função da minha cor e minha origem. Sou africano e negro e espero uma explicação sobre o que fizeram comigo, pois mereço respeito como ser humano. A cor da minha pele não pode ser a razão para me denegrir. Foi uma conduta vergonhosa do Departamento da Polícia Federal de Porto Alegre.
Espero então uma explicação pelo que foi feito, pois as pessoas precisam ser tratadas com respeito. Todos os seres humanos precisam ser tratados dignamente. Os agentes sabiam que eu sou um aluno de doutorado e um reverendo.
Eu estava nu diante dos policiais, mas eles não estavam preocupados com isso. Fui farejado pelo seu cachorro, e tudo isso por causa da minha cor e minha origem.
Se queremos um mundo melhor, precisamos banir a violência e a opressão, tratarmos as pessoas com respeito, considerando que têm direito à dignidade, grande valor e potencial de fazer deste mundo um lugar melhor.
Minha razão de escrevê-lo foi para informá-lo acerca desse evento, e reside na esperança que o senhor acolha minha reclamação e leve até a polícia que me tratou dessa forma, para que tenham consciência da dor que provocaram em seu vergonhoso tratamento. Confio que a minha demanda será considerada e minha voz ouvida.
Peço ainda atenção às cartas das Instituições parceiras, que organizaram o presente evento (Union Theological Seminary, dos Estados Unidos e Faculdades EST, no Brasil), anexadas ao presente relato.
Saudações
Reverendo Joel Kuvuna
.oOo.
Com cópia para:
Vice-Reitor das Faculdades EST, Brasil
Universidade de KwaZulu-Natal, África do Sul
Union Theological Seminary, Estados Unidos
Universidade de Oslo, Noruega
Embaixada da República Democrática do Congo no Brasil
Embaixada do Brasil na República Democrática do Congo
Secretaria de Direitos Humanos no Brasil
Departamento da Polícia Federal do Brasil de Porto Alegre"
.oOo.
O Reverendo Joel Mbongi Kuvuna é Estudante de Doutorado da Universidade de KwaZulu-Natal, Pietermaritzburg, África do Sul.
Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/episodio-de-racismo-ocorrido-em-porto-alegre-por-joel-mbongi-kuvuna/

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Descenso al Interior de la Terra


Al comienzo mismo del rito de nuestra iniciación somos conducidos por el Hermano Experto a una pequeña y oscura estancia llamada la Cámara, o Gabinete, de Reflexión, dentro de la cual permanecemos encerrados durante un período de tiempo indeterminado, y antes de entrar por primera vez en el Templo. Al introducirnos en ella dicho Hermano nos dirige las siguientes palabras:
"Caballero, aquí es donde Vd. va a sufrir la primera prueba, que los antiguos iniciados llamaban la "prueba de la Tierra". A tal fin, es indispensable que se deshaga de toda ilusión y, para hacerse sensible materialmente a lo que debe ejecutar dentro de Vd. espiritualmente, le ruego me dé lo que lleva de valioso y, particularmente, todos los objetos de metal, que simbolizan lo que reluce con brillo engañoso... Ahora, Caballero, vais a ser abandonados a Vd. mismo, en la soledad, el silencio, y con esta débil luz. Los objetos y las imágenes que se ofrecen a su vista tienen un sentido simbólico y deben incitaros a la meditación."
Estas palabras son sumamente reveladoras acerca del significado de ese momento solemne de nuestra recepción. Ellas nos advierten de la necesidad de purificarnos de todas las ilusiones, egos y vicios que conforman nuestra errónea «personalidad», y que hemos ido adquiriendo en nuestro contacto con las «tinieblas exteriores» del mundo profano. Sin ese previo «despojamiento de los metales» –que crean una dura y gruesa costra alrededor de nuestro verdadero ser impidiendo que se manifieste– jamás podríamos recibir la influencia espiritual vehiculada por el rito y los símbolos de la iniciación, impidiendo así la posibilidad salvífica del renacimiento, de volver a nacer en un mundo nuevo bañado por una luz mucho más transparente y sutil: el mundo de las ideas y arquetipos emanados del Gran Arquitecto del Universo.
Pero, lógicamente, nadie podrá hacer ese trabajo por nosotros, razón por la cual somos abandonados a nuestra suerte, recogidos en la soledad y el silencio, encerrados en fin, en nuestra particular Cámara de Reflexión, y una vez allí morir a la condición profana. Ese acto o gesto interno de negación y muerte a un mundo y a una personalidad ficticia se vive simbólicamente (lo que por cierto hace válida y real esa experiencia) como un «regreso al útero» materno, o a la matriz de la tierra nutricia, es decir a un plano de concentración extrema donde «reflexionamos» sobre el sentido de nuestra existencia, sobre quién somos en verdad.
En realidad, la Cámara de Reflexión es lo mismo que el athanor, «huevo filosófico» u horno alquímico, símbolos todos ellos de la conciencia herméticamente cerrada a las influencias externas, y en donde, amparados en la íntima y generativa oscuridad, se lleva a cabo un proceso de cocción, fermentación, destilación, sublimación y finalmente transmutación de lo espeso en lo sutil, de lo terrestre en lo celeste. Este proceso, como sabemos, es el vivido por la semilla en su eclosión vertical hacia los espacios aéreos, o por el gusano de seda, que después de un tiempo encerrado en el capullo sale de él transmutado en mariposa, en un ser completamente otro, pasando de lo que repta a lo que vuela.
Esto que decimos está claramente ejemplificado por los diversos objetos, inscripciones e imágenes simbólicas presentes en la Cámara. Allí, depositados sobre una mesa, encontramos tres pequeños recipientes conteniendo azufre, mercurio y sal, los tres principios herméticos que simbolizan el espíritu, el alma y el cuerpo, respectivamente, lo cual nos sugiere la idea de que la Gran Obra iniciática incumbe al ser humano considerado en su totalidad, y no tan sólo en un aspecto o modalidad de ésta; una jarra con agua y al lado un trozo de pan, símbolos del agua de vida y del alimento espiritual que restituyen el «recuerdo» y fortalecen al candidato después de sufrir la primera muerte iniciática, expresada a su vez por el cráneo y las tibias cruzadas. Este es el estado que la Alquimia denomina nigredo, o «negro más negro que el negro» que señala la descomposición de la personalidad egótica. Pero esa descomposición o putrefacción contiene ya el germen del nuevo nacimiento, anunciado por el gallo, ave emblemática del dios Hermes, y cuyo canto proferido en lo más profundo de la noche avisa sin embargo de la proximidad del día y de la luz del Sol nacida en el Oriente. En este sentido, nos dice la Tradición que «cuando todo parece perdido, es cuando todo será salvado», pues después de descender, como Dante, a las profundidades del Infierno, no queda más remedio que ascender por el eje que une la Tierra y el Cielo. Y precisamente ese descenso y ese ascenso están sugeridos por las siglas V.I.T.R.I.O.L. que aparecen grabadas en una de las negras paredes de la Cámara. El significado de estas siglas alquímicas es bastante elocuente al respecto: «Visita el Interior de la Tierra y Rectificando Encontrarás la Piedra Oculta». La rectificación de que se trata tiene que ver con el cambio de «orientación» que se va produciendo en nosotros conforme progresamos «...por las vías que nos han sido trazadas», es decir, por la vía sagrada de la iniciación, lo que es simultáneo al despertar de nuestras potencialidades internas que nos conducirán a la obtención del Conocimiento, simbolizado por la Piedra Oculta (Filosofal) o Piedra Cúbica en punta del maestro masón.
Así, pues, sólo cuando el postulante sepa comprender – o asimilar en sí mismo – el mensaje de todos estos símbolos que se ofrecen a su meditación, habrá «superado satisfactoriamente la prueba de la Tierra, a la Gloria del Gran Arquitecto del Universo», y estará, por tanto, preparado para llamar a las «puertas del Templo», lo que hace una vez ha sido reducido a pura posibilidad de ser presta a recibir los efluvios emanados del resto de los elementos purificadores que determinarán su desarrollo y crecimiento interior: el Aire, el Agua y el Fuego.
Autores: Sete Mestres Maçons
NOTA
Este texto pertence ao livro Símbolo, Rito, Iniciación, publicado por Ed. Obelisco, Barcelona 1992, e posteriormente por Kier, Buenos Aires 2003 com o título Cosmogonía Masónica: Símbolo, Rito, Iniciación.
Fonte: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2016/11/20/descenso-al-interior-de-la-terra/