terça-feira, 7 de novembro de 2017

PROPÓSITO INICIAL DA MAÇONARIA

Existe um Mistério, maior do que todos os Mistérios deste Mundo, que é o Mistério da Existência humana.
Provindo de um Mistério maior, inconcebível, Incognoscível, o Ser Humano, busca por entre as Florestas dos Erros o caminho de retorno ao seu local de origem.
Perdidos por entre essas florestas dos erros e da verdade, nós vamos tateando cegamente, nos apoiando aqui e ali, num mundo de completa escuridão, onde estamos sujeitos a todo momento cair num precipício, pois a maioria de nós vive no abdômen, preso aos prazeres deste mundo, aos desejos e as angústias, repletos de dúvidas e de medos, onde o nosso local de origem, que os Cristãos e Judeus chamam de paraíso, e os Druídas chamam de Gwenwed (Mundo Branco), parece estar muito distante de nós, se tornando um sonho, apenas um desejo distante da humanidade, mas um desejo temoroso, por não sabermos se realmente este mundo existiu algum dia, ou, se existiu, ainda existe.
Todo o nosso passado e nossas lembranças dele se tornou muito distante, e aparentemente inexistente, por isso nos tornamos presos a este mundo, onde um antigo Druida disse:
“Homem, lembra-te de que tu és somente um átomo, e que, mesmo que tu pudesses ser o Deus dessa terra que tu engatinhas e rastejas, mesmo assim, tu ainda serias apenas um átomo, e um entre tantos outros no Universo.
Na Antiga Rosacruz e nos primórdios da Maçonaria Legítima, na construção do seu alicerce, os Antigos Rosacruzes e Templários Maçons, desejosos de trazer uma filosofia que pudesse ampliar a Luz para as Almas humanas, criaram um sistema de Símbolos que pensaram tornar os homens ligados a um caminho que os levasse de volta ao Mundo anterior a este que existimos, e que pensamos existir plenamente.
Embora, os objetivos iniciais desses Místicos fossem de aperfeiçoamento e de tornar os seres humanos livres e de bons costumes, pessoas mais perfeitas para atuar neste Mundo, muito deste antigo conhecimento, que retrata a Criação do Universo e de seus mundos, e retrata a descida das Almas e o seu retorno, por intermédio do Ritual em Loja, tem sido modificado ou suas chaves foram perdidas, e apenas alguns poucos iniciados conseguem penetrar em seus mistérios, mas, existem Lojas que possuem pessoas  com mentes afins, onde a nível Espiritual lhes podem ser dadas tais chaves de maneira interna.
O que deve ser um Maçom: “Devemos ser ou nos tornar uma União de Almas afins, com o único objetivo de nos unirmos para que possamos acessar essas chaves iniciais do Profundo Mistério da Vida e da Morte.
A Maçonaria, desde o Inicio, em nossa primeira iniciação, nos confronta com a nossa verdadeira e inequívoca realidade, ou seja, somos colocamos no Quarto das Reflexões de frente a uma caveira, para lembrarmos quem realmente somos e o que realmente nos espera futuramente neste Mundo das Multiplicidades Terrenas.
Com isto, devemos entender que de agora em diante a Morte não virá mais implacável e terrível como antes roçar os matos secos deste mundo, pois, no momento de uma Iniciação Maçônica, o anjo do progresso desprenderá suavemente as Almas da sua cadeia mortal, para deixa-las subir para Deus, retornando ao seu antigo local de origem. Local este, que é direito de todas as Almas viventes.
Os antigos Templários Maçons e Rosacruzes, entendiam que deveriam criar um Ritual e Filosofia, que permitisse aos seres humano, que, quando eles souberem viver, então, não morrerão mais, e de pedra bruta passarão para uma pedra polida, como se antes fossem uma lagarta sem perspectiva, se arrastando por este mundo, e de repente se tornaram uma borboleta, que agora voa sem mais os limites de outrora, se tornando livres e de bons costumes diante da Natureza Naturante, voando até Deus.
Os Antigos Maçons e Rosacruzes, sabiam que os terrores da morte são filhos da nossa ignorância, e que a própria morte não é tão horrenda, senão pelos restos de que se cobre e as cores sombrias com que os seres humanos cobrem a sua imagem.
Existe na Natureza uma força que não morre, e esta força transforma ininterruptamente os seres para os conservar. Ela é a Razão e o Verbo da Natureza.
E os antigos entendiam que existe também no ser humano uma Força análoga à da Natureza, e esta Força é a Razão ou o Verbo Humano. Sabiam os antigos que o Verbo humano é a expressão da sua Vontade dirigida pela sua Razão.
Sabiam, também, os Antigos, que este Verbo é Onipotente quando é razoável, porque, então, é análogo ao Verbo de Deus.
Desse modo, pelo Rituais e pelos seus Símbolos, e pelo Verbo da sua Razão, os seres humanos podem tornarem-se aptos para conquistar a Vida e triunfar sobre à Morte.
Os antigos Rosacruzes e Maçons Templários, entediam que a vida inteira do ser humano é somente parturição ou abortamento do seu verbo, onde suas palavras se tornaram vãs, sem sentido, sopradas aos ventos, pois, sabiam que os seres humanos que morrem sem ter ao menos tentado buscar algo a respeito dos Mistérios da vida, e sem ter entendido ou formulado a palavra da Razão, sem ter tentando por um único instante penetrar na Razão do Eterno, acabam morrendo sem Esperança Eterna, e desse modo, reencarnando continuamente na Roda das encarnações contínuas deste Mundo.
Entendiam, os antigos Maçons, possuidores das chaves que podem abrir as portas dos Antigos Mistérios de Eleusis, que deveriam criar um Ritual que fosse capaz de aperfeiçoar os Ser Humano, de molda-los como um artesão modela a Pedra Bruta, tornando a sua Arte uma Beleza capaz de atingir os Corações da Humanidade.
Entendiam, estes Homens, que para lutar contra o fantasma da morte, é preciso ter-se os seres humanos identificados com a realidade da vida.
E, para que essa identificação pudesse ocorrer eles decidiram criar um Ritual que pudesse expressar o Momento da Criação e o seu recolhimento, que pudesse expressar o nascimento da Vida Humana e o seu recolhimento, a ida e vinda das Almas.
Desse modo, este Ritual foi feito de forma que pudesse ao mesmo tempo apresentar o maior Segredo de todos os Segredos, e ao mesmo tempo pudesse permitir o Aperfeiçoamento do Ser Humano por intermédio do Justo e do Perfeito, da Liberdade e da Justiça.
Um Ritual que pudesse desbastar as pedras tornando-as Belas o suficiente para que nossas Almas possam novamente recordar sua Origem, e com isso despertar nossas Consciências, trazendo de volta todos os nossos direitos que tínhamos anterior a nossa Queda, ou, podemos dizer, obter novamente o nosso direito anterior à Descida das Almas que ocorreu pelo seu Livre Arbítrio.
Foi este o objetivo inicial de Maçonaria, aperfeiçoar seres humanos para que pudesse ser criada uma Sociedade mais Justa e mais Perfeita para vivermos, trazendo para a terra um pedacinho da lembrança de nosso Local de origem, onde éramos perfeitos em Essência, distantes de todo Mal.

Vinicius dos Santos
1º Vig.'.    

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O QUE É A REALIDADE? - RADHA BURNIER


 “Muitas crianças choram quando suas mães choram ou quando veem alguém chorando. Talvez a consciência inocente no corpo jovem, não tendo tido ainda experiências na vida material, instintivamente sinta que a infelicidade não é algo correto. Uma criança responde com naturalidade, e portanto sente que algo está errado quando alguém está infeliz. A maioria das crianças é atraída por outros seres inocentes - outras crianças e animais, particularmente os mais jovens. 
Esse estado de inocência se perde quando a criança torna-se adulta, e o modo de vida moderno não ajuda o jovem a preservá-lo. Assistir repetidamente a episódios de violência na televisão, por exemplo, ajuda a destruir o senso instintivo de unidade que as crianças possuem. Os humanos, como é bem sabido, precisam de proteção e cuidados durante um período de tempo muito mais longo do que os animais. Isso pode ser parte do plano da natureza para desenvolver nossa sensibilidade.
O animal jovem é forçado a lutar pela sobrevivência, o que inclui aprender a desconfiança, o medo e a agressividade, ten­dências que contribuem para o comportamento competitivo. Quando existe insegurança e medo, desenvolve-se a agressão; o medo obriga a mente a planejar maneiras de autodefesa. Assim se instala a insensibilidade, e a consciência perde sua inata delicadeza de resposta.
A maioria de nós adota atitudes duras; se formos honestos, descobriremos como e quando elas ocorrem - como são perdidas a inocência da infância e a qualidade de estar em harmonia com as outras criaturas vivas.
O que é o mundo real? Esta é uma pergunta que ocorre a estudantes e pensadores. O mundo natural - montanhas, rios, estrelas, árvores e pássaros - é real? Provavelmente é, sendo parte da vida una fora da qual nada existe. Por outro lado, uma vez que o mundo natural é apenas uma parte da realidade total, ele pode ser real de maneira relativa, e não de maneira absoluta. Nos textos hindus sugere-se que os rios, montanhas e toda a natureza são apenas parte do divino esplendor que o Supremo revela, pois os nossos olhos são incapazes de ver além. Apenas um fragmento ela realidade é manifestado como universo, sendo o não manifesto a parte maior.
Portanto, o mudo natural não é irreal, porque é parte de uma suprema existência, mas é apenas parte, não o todo. É um meio atra­vés do qual algo muito mais vasto pode ser vislumbrado. no entanto, que tipo de mente e coração consegue ver o esplendor além das formas externas? Não a consciência destituída de inocência. A criança que sofre ao ouvir uma história em que um animal morre provavelmente está muito mais próxima da verdade da vida do que o adulto que sabe tudo a respeito da sobrevivência, do conforto e de vantagens pessoais.
Os seres humanos são parte do mundo natural, são criação da natureza, mas nós nos tornamos estranho. Ao perder a inocência, nós nos exilamos do paraíso e escolhemos viver num falso mundo de ambição, paixões e guerras. Esse mundo, produto do pensamento humano, é irreal, porque está baseado em percepções distorcidas e em falsos valores. A ilusão não está nas ár­vores, nos animais e na terra, mas no olho do homem que vê tudo como objeto para possuir e explorar. Aqueles que viam o rio e a montanha como presenças divinas viam a mesma água e a mesma montanha que nós vemos hoje, mas nós os reduzimos a nada mais que matéria inerte.
O endurecimento da mente precisa terminar. Devemos prestar atenção à qualidade de nossas respostas ao desenvolvimento da sensibilidade - e isso não é sentimentalismo. Os grandes videntes não cediam ao emocionalismo; eles viam a realidade.”

Radha Burnier é escritora e foi presidente internacional da Sociedade Teosófica
Revista Sophia – Editora Teosófica

Fonte: http://lojateosoficadharma.blogspot.com.br/2016/08/o-que-e-realidade-radha-burnier.html
A propósito, ver: http://lojatriangulodafraternidade.blogspot.com.br/2011/07/o-real-segredo.html

domingo, 1 de outubro de 2017

A NOÇÃO DE DEUS DE BARUCH SPINOZA


Einstein, quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu: “Acredito no Deus de Spinoza**, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”. 
Pára de ficar rezando e batendo no peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.
Pára de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.
Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.
Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho… Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?
Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.
Pára de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz… Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio.
Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez?
Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?
Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são coisas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.
Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.
Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas. Eu te fiz absolutamente livre.
Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho: Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste… Do que mais gostaste? O que aprendeste?
Pára de crer em mim – crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.
Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Aborrece-me que me louvem. Cansa-me que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Sentes-te olhado, surpreendido?… Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.
Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim.
A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações?
Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro… aí é que estou batendo em ti.
  
( ** ) Baruch Spinoza (1632-1677) nasceu em Amsterdã, Holanda. Era de uma família tradicional judia, de origem portuguesa. Sua família emigrou porque os judeus estavam sendo perseguidos. Seu pai era um comerciante bem sucedido e abastado. Spinoza gostava de estudar e ficava na sinagoga. Era um dos melhores alunos. Aprendeu a Bíblia Sagrada e o Talmude. Então foi para uma escola particular, onde conheceu o latim. Pôde então ter um estudo mais abrangente. Leu sobre a identificação de Deus com o universo, sobre a associação da matéria com o corpo de Deus. Interessou-se muito pela filosofia moderna, como Bacon, Hobbes e Descartes. Então foi acusado de heresia, por se mostrar irredutível em suas opiniões. Spinoza fez uma análise histórica da Bíblia, colocando-a como fruto de seu tempo. Critica os dogmas rígidos e rituais sem sentido nem poder, bem como o luxo e a ostentação da Igreja. Por suas opiniões, um homem tentou matá-lo com um punhal. Escapou graças à sua agilidade. Ofereceram uma pensão para ele manter fidelidade à sinagoga e Spinoza recusou. Foi então excomungado, em 1656. Amaldiçoaram-no em ritual. Depois disso, viajou pela Holanda. Os judeus não falavam com Spinoza, mas os cristãos sim. Apesar disso, não se converteu ao cristianismo. Seus familiares quiseram deserdá-lo. Lutou pela herança do pai e ganhou a causa. Mas recusou a recebê-la, só queria fazer valer seus direitos. Suas principais obras são: Tratado político, inacabado; Tratado da correção do intelecto; Princípios da Filosofia Cartesiana; Pensamentos Metafísicos; e sua obra prima: Ética Demonstrada pelo método geométrico. Algumas obras suas foram incluídas no Index de livros proibidos. Foi preso sob acusação religiosa e morreu na prisão, aos quarenta e quatro anos. O ponto principal do pensamento de Spinoza é a comunhão entre Deus e a natureza. Spinoza critica a religião porque ela está alimentada pelo medo e a superstição. Devemos fazer uma interpretação racional da Bíblia. A diferença entre filosofia e religião é que a primeira busca a verdade e a segunda precisa da obediência para ser realizada.

Fonte: ttp://visao.sapo.pt/artigossiteantigo/artigosimportadosforum/o-deus-de-spinoza=f733623

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A CABALA E O MISTICISMO MAÇÔNICO


A  palavra Cabala  tem  origem  no  vocábulo  hebraico  “kibbel”,  significando  lição, tradição,  ensino.  A Cabala  é  a tradição esotérica e o conjunto das doutrinas secretas do judaísmo. Esta ciência oculta foi recolhida nas Escrituras e devia ser transmitida oralmente e nunca ser escrita, visando evitar que o texto caísse sob as vistas dos profanos.
Os  cabalistas datam as  concepções primordiais da Cabala de  tempos primitivos  - que remetem a Moisés e até Abraão  e  Adão. Quanto  aos  verdadeiros  fundadores  da Cabala, entretanto, são mencionados três talmudistas: Rabino Ismael ben Ehsa (cerca de 130  d.C.); Rabino Nechunjah  ben Hakana  (cerca  de  75  d.C.)  e, sobretudo, Simeon ben Yohai (cerca de 150 d.C.), sendo este último apontado como autor do famoso Zohar.
Acredita-se que os ensinamentos da Cabala começaram de  forma oral, que  foi transmitida por Enoque aos seus descendentes, sendo que, posteriormente, Moisés, para evitar que seus ensinamentos se perdessem, comunicou-os aos setenta anciãos escolhidos, e daí para frente de forma escrita.
Mas, ao serem escritos os ensinamentos cabalísticos, foi utilizada a maneira mais simbólica possível, com o intuito da não compreensão profana, mas  tão somente dos iniciados. Dois são os  livros fundamentais da Cabala: 1º o Sefer Yetsirah, ou Livro da Criação, e o Zohar, ou Livro dos Esplendores.
A Cabala apareceu, na sua  forma atual, por volta do século XII,  repetindo, continuando e completando o ensino esotérico do Talmude. Na Bíblia  temos os  livros cabalísticos de Ezequiel e do Apocalipse, que  foram escritos de forma velada, simbólica. A chave do seu ocultismo  repousa, como a do Talmude, sobre o valor dos números, a combinação das 22 letras do alfabeto hebraico e a força oculta do Tetragrama.
O ensino da Cabala esmera-se em dar com precisão a definição da divindade vulgarmente denominada Deus, em fixar-lhe os atributos e em estabelecer o processo das manifestações do seu poder. A particularidade da Cabala é de repudiar toda idéia de antropoformismo na definição da divindade, de afastar toda possibilidade de figuração de Deus  que  é  Infinito, inacessível,  incompreensível... O Ser por excelência, o Verbo eterno conjugando-se, simultaneamente ao presente, ao passado, ao futuro:Jeová, Aquele que  foi, que é, que será, Aquele cujo nome nunca  deve  ser  pronunciado porque o profano não compreenderia que o Deus Todo-Poderoso, o Deus dos Exércitos não pudesse ter nenhum outro nome a não ser o verbo Ser.
A Cabala descobre todos os mistérios da criação neste simples nome, ao estudar o simbolismo representado pelas quatro letras formando este nome assim dividido: IOD, HE, VAV~ HE (IHVH).
Este nome é aquele que encontramos no cume de  todas as  iniciações, aquele que  irradia no centro do  triângulo flamejante da Maçonaria.
A primeira letra, o IOD, figurada por uma vírgula ou um ponto, representa o princípio original das coisas, o ponto de partida da criação. Esta letra que ocupa o décimo lugar no alfabeto hebraico, é representada pelo número 10, ele mesmo composto do número um, unidade, princípio, e do zero, representando o nada, por seu significado e o Todo por sua forma. No IOD ou número 10, a unidade, origem do Todo, alia-se ao Nada para formar o princípio inicial da Criação, princípio gerador, princípio masculino.
A segunda letra, o HE, quinta letra do alfabeto hebraico, representa o número 5, equivalente à metade do valor da primeira  letra, 10. E o princípio  inicial  IOD ou 10 que se  fraciona em dois, e que se desdobra. Tal é a origem do binário: masculino-feminino, ativo-passivo, positivo-negativo, homem -mulher. A energia criadora masculina  junta-se à matéria fecunda feminina.
A  terceira  letra, VAV, ocupa o sexto  lugar no alfabeto. Resulta da ação geradora do  IOD sobre o HE, ao princípio masculino sobre o princípio feminino. E o filho, a resultante: um mais cinco igual a seis.
A quarta letra representa um segundo HE, novo elemento feminino, indispensável ao filho para possuir a faculdade de se  reproduzir e de perpetuar o Ser. E o grão que contém em potência a geração  futura e a possibilidade de garantir a Eternidade.
JEHOVA, portanto, não é um nome, mas o símbolo da Criação e da Eternidade, do SER PERFEITO. Este nome não pode ser pronunciado a não ser uma vez por ano, e soletrado letra por letra no Santo dos Santos, pelo Sumo Sacerdote, Grão-Mestre da Arte Sacerdotal, no meio do ruído das preces do povo profano. Diz-nos Elifas Levi:  “Todas as  religiões dogmáticas saíram da Cabala e para ela  voltam. Tudo quanto existe de científico e de grandioso nos sonhos religiosos de todos os iluminados é tirado da Cabala. Todas as associações maçônicas lhe devem os seus segredos e os seus símbolos”.
Paul Naudon assim escreveu:
“Nada permite de resto de situar, no tempo, a adoção, pela Maçonaria dos sinais e símbolos que a Cabala utiliza. A instituição não foi uma criação espontânea; deriva em grande parte das associações arquitetônicas que a precederam ou inspiraram, como os colégios romanos, as associações monásticas, as guildas etc. Sofreu, igualmente, largas influências dos maçons aceitos cujo papel tornou-se progressivamente primordial com o declínio do elemento profissional.
As preocupações filosóficas desses maçons especulativos alquimistas, hermetistas, cabalistas, rosa-cruzes e seus subsídios esotéricos vieram  juntar-se e completar os da Maçonaria. O fundamento de suas doutrinas repousava sobre o mesmo princípio da Maçonaria: o da imanência divina. O papel desses hermetistas foi  importante na transição entre a Maçonaria operativa e a Maçonaria  especulativa moderna. Mas a sua contribuição com  um simbolismo egípcio, hebraico e siríaco  não  era  mais  que uma síntese que vinha integrar-se em um meio amplamente preparado pelos mais eminentes pensadores da Idade Média e da Renascença”.
O programa do grau de Aprendiz compreende os números um, dois, três e quatro, donde os conceitos de unidade, de binário, de ternário e de quaternário. O do grau de Companheiro compreende quatro, cinco, seis e sete (tétrada sagrada, quintessência, rosa mística, hexagrama, setenário). O grau de Mestre estuda os números sete, oito, nove e dez (tri-unidade setenária, ogdoada solar, Eneada ou árvore dos Sefirot). Os dez Sefirot são dez emanações do Deus único: dez reconduz a um...
Assim, a Cabala passa à Maçonaria seus ensinamentos mais expressivos.
Ir.·. José Geraldo da Silva
Fonte: http://www.solbrilhando.com.br/Sociedade/Maconaria/Artigos/A_Cabala_e_o_misticismo_maconico.htm

domingo, 17 de setembro de 2017

INICIAÇÃO AO GRAU DE APRENDIZ (IMPRESSÕES)

À GL.'. do G.'. A.'. D.'. U.'.

Augusta e Respeitável Loja Maçônica Simbólica Mista
Triângulo da Fraternidade


   S.'.


                                                            F.'.             U.'.

Primeira peça de arquitetura do grau de Aprendiz Maçom.

Tema solicitado pelo Ir.'. 2º Vig.'. - Iniciação ao Grau de Aprendiz (Impressões)


          Durante o momento em que fui vendado e comecei minha jornada, pensei na Criação Divina, que eu considero um magnífico espetáculo, e na capacidade humana de representar nossa jornada evolutiva por intermédio de símbolos contidos nas iniciações e nos estudos das organizações iniciáticas.  Caminhei imaginando como se estivesse percorrendo túneis. Ao terminar minha jornada, sentei-me e Meditei a respeito da iniciação que eu estava realizando, e a respeito da geometria que iria me cercar, que está muito presente e oculta através dos símbolos maçônicos, numa tentativa de buscar uma razão para explicar por que eu estava ali, naquele lugar, naquele momento específico. Quando eu permaneci na câmara da Reflexão para assinar os papéis, e me deparei com a caveira, comecei a relembrar minha trajetória de vida, das inúmeras iniciações que eu já realizei, tentando buscar respostas para a minha existência. Pensei que este não é um novo momento, mas um velho momento, onde espaço e tempo se tornam inexistentes. Pensei que aquele, era apenas mais uma etapa em minha vida, uma etapa que eu ainda não sei o motivo, ou o por que de eu estar ali, pois já estive em tantos lugares, em tantos momentos, e todos serviram para algo, para me transformar no que hoje eu sou, ou penso ser, ou no que ainda vou me transformar. Ainda não sei o verdadeiro motivo que me impeliu para que eu  adentra-se neste templo, nesta antiga ordem iniciática e filosófica. Mas sei, tenho plena certeza, por razão de experiências neste campo, que nada acontece por acaso, que tudo tem sua razão de ser. Vivenciei este momento iniciático, tendo a certeza, de que, o que realmente importa não são as letras ou as palavras, mas, sim, a vivência pessoal que cada um experimenta nesses locais iniciáticos. Sei que, todos os livros são as janelas do conhecimento, mas não são as portas, apontam coisas aos homens, mas não as dão de fato, (SanMartin). E, é desse modo, que eu ha muito tempo encaro o auto conhecimento, ou seja, não busco em livros ou em homens, mas sim em meu ser interior, onde todas as resposta se encontram já em sua plenitude máxima. Mas, também, sei que os livros, os símbolos e as alegorias, os rituais, nos trazem um caminho a ser seguido, nos fornecem um princípio simbólico de entendimento das coisas vivenciadas por todos os iniciados.
Meditando durante a iniciação, eu pensava, que, o que realmente importa numa iniciação, ou em toda iniciação, seja onde for, é que a egrégora é o ponto culminante de toda forma de iniciação, desde as mais primitivas e simples, até as mais elaboradas e refinadas, pois todos as iniciações possuem uma finalidade em comum, ou seja, a finalidade de nos ligar a outras almas que buscam um objetivo comum para todos, embora a forma de entendimento de cada um seja individual e pessoal. São diversos rios, diversos entendimentos, diversas formas de pensar Deus, mas devemos ter sempre em mente, que todos os rios deságuam num único e imenso oceano. Este oceano, representa a união de todas as almas. Antes da queda, todas as almas eram interligadas numa única fonte e modo de existir, mas após a queda, houve a confusão, os véus baixaram em frente aos olhos de cada alma individualmente, e cada uma começou uma jornada pessoal e diferente, numa busca ininterrupta, através de inúmeras encarnações no mundo das multiplicidades terrenas. Mas, no decorrer dos tempos, no suceder das encarnações, estas almas começaram novamente a se reagrupar, e desse modo, começaram as inúmeras egrégoras, iniciações, ordens, religiões, filosofias, etc. Por que, no final, tudo retornará ao começo. Lembrando que todas as almas apenas poderão retornar ao paraíso, ao seu local de origem, juntas, nada chega ao pai individualizado, a não ser por intermédio de Ostes cósmicos, ou das Ostes terrenas, e mesmo assim, estas Ostes Cósmicas e terrenas formam egrégoras para poderem acessar ao Criador. Enquanto isto não acontece, enquanto não retornamos ao nosso local de origem, onde a evolução acontece pela vida, e não mais pela morte como ocorre em nosso mundo terreno, nós humanos, aprendizes, eternamente aprendizes, independente do grau de consciência ou das iniciações que temos, nos unimos em egrégoras por intermédio dessas iniciações realizadas nas ordens iniciáticas, em religiões ou filosofias. Tudo isto, de algum modo, se passou em minha cabeça no momento da minha iniciação ao grau de Aprendiz, grau este, que eu pretendo nunca esquecer, de que, "sempre serei um eterno Aprendiz", pois este é um dos objetivos do trabalho maçônico, lembrar de que sempre seremos aprendizes neste mundo, e que devemos utilizar estes momentos de estudos para despertar na busca do conhecimento oculto que aparentemente parece estar distante, mas que pode estar ao nosso lado, ou dentro de cada um de nós.
          Tudo isto, eu expresso, em nome do Nosso Senhor, Criador de todas as coisas, do Grande Arquiteto do Universo.   

         Or.'. de Porto Alegre, 21 de setembro de 2013. da E.'. V.'.

Vinicius dos Santos
Apr.'. M.'.


Bibliografia:

Sanmartin, Louis Claude de - Monografia Martinista.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A MAÇONARIA E A MULHER

A Historia da Maçonaria, as suas origens e os seus Princípios Filosóficos estão dissecados, publicados e à disposição de todos em qualquer boa livraria. É importante considerar que aqueles que se dedicam a escrever sobre Maçonaria seguem Escolas diferentes.
Em primeiro lugar temos a Escola Autêntica, que tem a tendência de fazer a Maçonaria derivar das Lojas e Corporações Operativas da Idade Média. Temos também  a Escola Antropológica, que aplica as descobertas da antropologia aos estudos das origens históricas da Maçonaria. A Escola antropológica dá à Maçonaria uma antiguidade muito maior do que a defendida pela Escola Autêntica. Temos ainda a Escola Mística, que procura despertar espiritualmente o homem em seu desenvolvimento interno. Esta Escola tem buscado espiritualizar a Maçonaria, o que a leva às portas do conceito de religião.
Finalmente, temos a Escola Oculta. Esta Escola, do mesmo modo que a Mística, busca a união do homem com o Criador. Enquanto os místicos usam a oração, os ocultistas recorrem à magia, com a invocação das forças invisíveis. Esta Escola é representada pela Ordem Maçônica Mista Internacional “O Direito Humano”, com sede em Paris. Ela se distingue pela admissão de mulheres, com iniciação no mesmo nível de igualdade com os homens. Nesta Ordem encontramos os ensinamentos de Pitágoras, de Agrippa, de Paracelso, da Ordem Rosa-Cruz e da Maçonaria Egípcia de Cagliostro.  Esta Ordem foi fundada em 1893 em Paris por Maria Deraismes e Georges Martin, e está presente, com suas Lojas Mistas, em 60 países de todos os continentes.
Não são poucos os documentos que contêm os Antigos Deveres do Maçom e que atestam a presença da mulher na Maçonaria. Na França, o Livro dos Ofícios, escrito por Etienne Boileau em 1268; na Inglaterra, os Estatutos da Guilda de Norwich, de 1375; na Escócia, os Estatutos da Loja de York, de 1693. Estes Estatutos assim se expressavam: “Aquele ou aquela que se tornar Maçom deve fazer seus juramentos colocando a mão sobre a Bíblia”. Outros documentos de Lojas inglesas citam, nominalmente, várias mulheres-maçons.
As Ordenações da Loja Corporação de Corpus Christi, da cidade de York e datadas de 1408, dizem o seguinte: “Serão admitidos na Ordem todos os candidatos de ambos os sexos, desde que exerçam profissão honesta, tenham boa reputação e sejam de bons costumes”. No mesmo manuscrito se pode ler que os Irmãos e Irmãs deverão prestar o juramento sobre a Bíblia e também se faz alusão à Dama, particularmente no compromisso do Aprendiz, quando ele jura obedecer ao Mestre ou à Dama.
O Manuscrito Régio, escrito em 1390, é composto de 794 versos e fala da tradição da Corporação e dos deveres do Maçom. Em nenhum momento menciona que a Ordem seja restrita aos homens. Ao contrário, prova a presença da mulher, ao afirmar em seu item 10º, versos 203 e 204: “Que nenhum Mestre suplante outro, senão que procedam todos entre si como Irmão e Irmã”. No item 9º, versos 351 e 352, lê-se o seguinte: “Amavelmente, servindo-nos a todos, como se fossemos Irmão e Irmã”. Em síntese, a presença da mulher na Maçonaria está documentada no período que vai de 1268 a 1713, isto é, durante um período de 445 anos.  A exclusão da mulher da Maçonaria viria a ocorrer a partir da criação dos Landmarks, as Cláusulas Pétreas das Constituições Maçônicas, contrariando assim a tradição  e os antigos usos e costumes de nossa Ordem. Esta exclusão foi introduzida pelo Presbítero James Anderson no art. 18 da Constituição de 1723 da Grande Loja de Londres. Assim perdeu a mulher um direito que, por séculos, lhe pertenceu.
É bom lembrar que a alma da mulher é tão digna do favor divino quanto a do homem e que, sob o aspecto místico, nem o espírito tem sexo, nem Deus discrimina nenhuma das suas criaturas. É interessante também lembrar que é atualmente na Inglaterra que está a Maçonaria Feminina mais forte e atuante em todo o mundo.
A Maçonaria da Europa Continental nunca se conformou com esta discriminação. Em 1730, sete anos após a exclusão da mulher pela Maçonaria inglesa, criou-se na França a Maçonaria de Adoção. Tratava-se de Lojas Maçônicas femininas, adotadas por Lojas Masculinas. Em 1786 o Conde Cagliostro fundou a Loja Sabedoria Triunfante, para homens e mulheres. Dizia Cagliostro que se as mulheres eram admitidas nos Antigos Mistérios, não havia razão para excluí-las das Ordens Modernas. A Maçonaria de Adoção chegou ao Brasil em 1876, e suas Lojas só cessaram de funcionar em 1903. A Maçonaria de Adoção possui Lojas em muitos países do Mundo.
Em resumo, existem três tipos de Maçonaria para Mulheres: A Maçonaria Mista chamada  O Direito Humano, formada por homens e mulheres, a Maçonaria de Adoção, apadrinhada por Lojas Masculinas e a Maçonaria Feminina. A Maçonaria Feminina exclui, totalmente, a participação de homens em suas Lojas.  Em Portugal, por exemplo, as primeiras Lojas da Maçonaria Feminina foram fundadas no ano de 1983. Hoje, este país tem uma Grande Loja Feminina de Portugal.
Devido à influência que a Grande Loja Unida da Inglaterra e as Grandes Lojas Norte-Americanas exercem no mundo Maçônico, são consideradas Irregulares todas Lojas e entidades Maçônicas compostas por mulheres.
Por outro lado, o caráter exclusivista e masculino da Maçonaria contraria a essência dos Antigos Deveres, contraria a Divisa da Ordem por negar o princípio da Igualdade, e impede a adequação à Tradição e aos parâmetros que regem a evolução e o progresso das sociedades humanas.
A marcha da história é irreversível. O que fazer então, para mudar o atual estado de coisas? No Brasil, por exemplo, o GOB sofreu os dissabores e as represálias da perda de reconhecimentos internacionais quando, no final do séc. XIX e início do séc. XX concedeu Cartas Constitutivas a algumas Lojas da Maçonaria de Adoção. Pressões e perda de reconhecimentos internacionais levaram o GOB a revogar em 1903 estas Cartas Constitutivas.

A união entre as Potências Maçônicas Brasileiras poderia fornecer o cacife necessário para submeter o assunto às demais Potências do Mundo. O que impede então a Maçonaria brasileira de debater o assunto e fazer causa comum para devolver à mulher aquilo que lhe foi tirado pelos falsos luminares que subverteram a Tradição Maçônica no início do século XVIII?  Fica aqui a sugestão.
Antonio Rocha Fadista – M.I.
https://bibliot3ca.wordpress.com/a-maconaria-e-a-mulher/

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O OUTRO TERMO DA EQUAÇÃO


A afirmação de que o que se busca na Maçonaria é o aperfeiçoamento individual através da interação com a Loja transcrita para linguagem matemática seria qualquer coisa como Maçom + Loja = Aperfeiçoamento.

O primeiro termo da equação, o Maçom, é abundantemente tratado nos escritos, nos seus mais variados aspetos. É natural: os maçons que escrevem sobre Maçonaria integram eles próprios o primeiro termo da equação, conhecem-no literalmente por dentro e por fora, é mais fácil escrever sobre o que se conhece, analisar o que o próprio sente, definir os objetivos que o próprio anseia.

Mas, para que a equação funcione, exista realmente, é indispensável a presença e o efeito do seu segundo termo: a Loja. É a Loja que é o ponto de confluência de todos os obreiros, onde todos levam as suas idiossincrasias pessoais, mas também os seus esforços, preocupações e anseios. É no confronto de tudo aquilo que se junta e partilha na Loja que cada um escolhe e retira os materiais e as ferramentas que utilizará no seu próprio desbaste. Ser maçom só faz plenamente sentido se e quando integrado em Loja. Aí, sim, o método disponível para ao aperfeiçoamento individual concretiza-se. Maçom e Loja completam-se e mutuamente se influenciam.

Há muita matéria escrita sobre o primeiro termo da equação, o maçom. Sobre o segundo termo dessa equação, a Loja, os elementos disponíveis são muito menos. Não é só por ser mais fácil escrever sobre o maçom do que sobre a Loja. É também porque, se bem virmos a coisa, a relação entre o maçom e a Loja é similar ao que, dizem os entendidos no assunto, sucede no âmbito da física quântica: o observador, pelo simples facto de observar o fenómeno, altera esse fenómeno. 

Efetivamente, o maçom integra-se numa Loja. É influenciado por ela, mas também ele próprio a influencia. O simples facto de o maçom observar, analisar, efetuar juízo crítico sobre a sua Loja, faz com que, seja a sua análise melhor ou pior, seja o resultado dela mais ou menos agradável, altere a perceção que dela tinha. E, ao tal suceder, inevitavelmente que se modifica, quiçá impercetivelmente, a sua relação com a Loja e, assim, a forma como a Loja o influencia, mas também a sua própria influência sobre a Loja. O simples facto de observar a Loja resulta na modificação da Loja observada, tal como na modificação do próprio observador. Mudanças insignificantes, impercetíveis, talvez. Mas estão lá, ficam lá, interagem com outras subtis modificações. Assim evolui o maçom. Assim evolui a Loja. Assim evoluem ambos.

Esta relação mutuamente influenciadora entre o maçom e a sua Loja deve alertar-nos para a necessidade de não nos concentrarmos apenas no primeiro termo da equação, o maçom, isto é, nós - apesar de ser esse, de sermos nós, o objetivo principal -, mas também não descurar a atenção no segundo termo da equação, a Loja.

Não nos enganemos: a Loja não são as paredes dentro das quais nos reunimos. Não são os adereços que nos rodeiam. Não é o mero ambiente que criamos. Nem o conjunto de lições que aprendemos. A Loja é, somos, o conjunto de maçons que nela se integram. A Loja não é ELA. A Loja é NÓS.  A Loja, sendo algo diverso de nós, é algo de que nós fazemos parte, que nós influenciamos e que nos influencia.

O maçom deseja aperfeiçoar-se. É meritório. Ao fazê-lo, está a cuidar de si. Mas o maçom sabe que a sua tarefa só plenamente se executa se em consonância, em interação, com sua Loja. Assim sendo, o mínimo de bom senso manda que também se preocupe com a sua Loja, com o bom estado dela. E, repito, o que aqui menos importa são as paredes, a decoração ou os artefactos. O que importa, a essência da Loja, são os seus obreiros. Um a um. Todos. O conjunto de todos. A influência de cada um sobre cada um e sobre todos e a influência de todos sobre cada um.

Observar, estudar, a dinâmica da Loja, procurar determinar o estado dela, as correções que nela porventura haja a fazer, o contributo que relevantemente a ela possamos dar, é tarefa que o maçom não deve, não pode descurar. É uma tarefa ciclópica, eu sei! Parece, muitas vezes, uma tarefa impossível, de tal forma se nos afiguram insignificantes os resultados que a nossa ação individual é suscetível de obter, também o sei. Mas a colmeia vive e cresce graças ao aparentemente insignificante resultado do trabalho de cada uma das suas abelhas...

O maçom que aprendeu a sê-lo não esquece que tem de zelar pelos dois termos da equação. Porque o resultado individual depende do coletivo. Porque o coletivo depende do individual, mas também influencia o individual. Ao zelar pelo bom estado da sua Loja, o maçom está simultaneamente a melhorar-se a si próprio. Ao melhorar-se a si próprio, está a contribuir para a melhoria da sua Loja.

Bem vistas as coisas, sim, a relação entre o maçom e a sua Loja é como a física quântica: parece muito difícil, aparenta ser muito inacessível, mostra-se muito esotérica, mas o que é preciso é afinal apenas trabalho e bom senso!

Rui Bandeira
Fonte: http://a-partir-pedra.blogspot.com.br/2017/02/o-outro-termo-da-equacao.html

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O abrasivo que afia o cinzel


A gigantesca e verdadeira obra da Maçonaria é propiciar ao seu iniciado um lugar adequado para a modificação da personalidade, a moderação de paixões e desejos e o desenvolvimento de virtudes; numa escalada que inicia numa operação denominada: desbastar a pedra bruta.
Esta atividade consiste no trabalho, básico e rústico, de arrancar da pedra, arestas, deformidades e protuberâncias, de modo que ela possa vir a adaptar-se ao seu lugar reservado numa importante construção.
Traduzindo, significa: o aprendiz recebe instrução, é dotado de ferramentas, de conhecimentos elementares, é assistido por método e simbologia próprios que, manipulados por seu intelecto, culminam em desenvolver suas capacidades racionais, intelectuais, lógicas e filosóficas nos assuntos da Maçonaria.
E estas, por sua vez, o auxiliam a subir uma escada que parte de um ambiente onde domina a matéria, e o eleva até um estágio onde ocorre a predominância do espírito sobre a matéria.
O interessante é que, o potencial adquirido com o uso da sua própria intelectualidade, dependendo de suas raízes culturais, não o precipita na geração de dogmas que possam torná-lo fanático; ao contrário, o treinamento o leva ao suave equilíbrio entre racionalidade e espiritualidade.
Gradativamente, o processo "abre portas inefáveis" até então invisíveis. Sua sensibilidade lhe revela, a cada reunião, no templo especialmente preparado para o seu desenvolvimento pessoal, onde, sob efeito de sons e incenso, ocorre sua integração com a força do maçom, um campo energético gerado pelo seu grupo de companheiros.
A vida mística e profunda da essência dos símbolos vai gradativamente revelando o que até então não enxergava. Desvelando apenas uma parte onde ele mesmo é material de construção, uma pedra que depois de trabalhada, constituirá parte integrante do grande templo moral da humanidade.
Dentre as ferramentas de trabalho do aprendiz estão o maço e o inseparável cinzel que desbastam a pedra bruta, ele mesmo. O cinzel representa o intelecto e ambos concorrem para o mesmo objetivo. É exemplo de dualismo construtivo, eficaz e positivo.
O cinzel é o símbolo do trabalho inteligente. Seguro pela mão esquerda corresponde ao aspecto passivo da consciência, à penetração, à receptividade intelectual, ao discernimento especulativo, indispensável para descobrir as protuberâncias ou falhas da personalidade. Serve de intermediário entre o homem e a natureza. Sozinho seu uso é quase nulo. Sem a ajuda do maço ele não produz muita coisa, exige participação da outra ferramenta. Assemelhado com a razão humana que, isolada, nada constrói. O cinzel carece da parte operativa, ação, força e trabalho do maço.
A lógica representada pelo cinzel torna o aprendiz independente, sem torná-lo mesquinho. Sem sua intervenção, o resultado do trabalho seria inútil, senão perigoso. A sua falta representa as soluções aprisionadas no espírito. Além de ser emblema da escultura, arquitetura e belas artes, é também a imagem da causticidade dos argumentos que permite destruir os sofismas do erro.
O cinzel é usado para o trabalho mais bruto, no alicerce de uma construção. Um trabalho básico. É o aço aplicado sobre a pedra, ambos duros, mas, a dureza do cinzel é maior, ademais, está afiado, daí sua capacidade de penetração, de corte das asperezas. Com ele corta-se fora o que o homem tem de feroz, levando-o a uma condição mais elevada diante da natureza e aproximando-o do conceito de Grande Arquiteto do Universo.
A Terra seria um deserto se os seres humanos deixassem de fazer por polidez o que são incapazes de fazer por amor, e seria quase perfeito, se cada um conseguisse fazer por amor o que só faz por polidez; isto porque, ela faz a pessoa parecer por fora, como deveria ser por dentro.
Quem não for bastante delicado e cortês não pode ser muito bom.
Cerimônias são diferentes em cada país, mas a verdadeira cortesia é igual em todos os lugares.
Assim como a cera, naturalmente dura e rígida, torna-se, com um pouco de calor, tão moldável que se pode levá-la a tomar a forma que se desejar. Também se pode, com um pouco de cortesia e amabilidade, conquistar os obstinados e os hostis.
Partindo do princípio de que uma virtude não é natural, mas uma qualidade desenvolvida ao longo do crescimento individual, do ponto de vista moral, a polidez é uma virtude. Como exemplo: o que acorreria com as quatro virtudes cardeais: justiça, prudência, temperança e coragem, se o indivíduo não é polido ou destituído de qualquer educação ou cortesia? Seriam inúteis!
Sem a educação e o respeito não há como desenvolver virtudes. E como a polidez é algo de aparente pouca importância, é neste "quase nada" que reside seu mérito. Ela pode ser definida como o caráter ou a qualidade do que é polido, da fina educação, da gentileza.
É também uma forma do discurso que indica cortesia e civilidade daquele que fala. Ao que se esforça no uso de expressões que atenuem o tom autoritário, do imperativo e outras fórmulas de etiqueta linguística.
Adicionalmente, designa o indivíduo que possui grandes virtudes e elevada cultura e conhecimento em determinadas áreas do saber.
Na luta para obter maior controle do espírito sobre a matéria, a polidez lustra o coração, de modo que revele o não visto. Sua transparência é proporcional ao quanto foi polido.
Para quem mais poliu sua sensibilidade manifestam-se mais formas invisíveis e revelam-se verdades para as quais a mais sofisticada racionalidade é impotente.
E o cinzel deve ser afiado continuamente, permanentemente, exigindo constante aporte de novos conhecimentos, para não embotar. É a Polidez, o conhecimento aprofundado de temas da vida que o afia. Afiar o cinzel significa receber fina educação, ser cortês e atencioso. E estas são atividades nas quais denodadamente deve-se investir com força, com a ação do maço, e gradativamente ir galgando a escada que leva à perfeição que pertence ao Grande Arquiteto do Universo.
Autor: Charles Evaldo Boller
Bibliografia
CAMINO, Rizzardo da, Dicionário Maçônico, ISBN 85-7374-251-8, primeira edição, Madras Editora limitada., 413 páginas, São Paulo, 2001;
Paraná, Grande Loja do, Ritual do Grau de Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito, terceira edição, Grande Loja do Paraná, 98 páginas, Curitiba, 2001.
Fonte: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2017/02/08/o-abrasivo-que-afia-o-cinzel/

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A DESCOBERTA DA ESPIRITUALIDADE


Você já se perguntou o que é espiritualidade? Para muitas pessoas, a espiritualidade é aquilo que é vivenciado por quem professa uma religião. De fato, dentro do universo das religiões, com seus ensinamentos e cultos, pode-se entrar numa atmosfera de profunda elevação espiritual. Além disso, nossa cultura religiosa ocidental ensina que não há espiritualidade fora da religião, e diferentes religiões disputam o privilégio de ser o único caminho para Deus.
No entanto, Gordon Allport, um dos mais importantes psicólogos do século XX, em um estudo sobre preconceito observou que, paradoxalmente, no meio religioso encontram-se tanto os mais importantes exemplos de compaixão e tolerância, como os mais perturbadores exemplos de preconceito, violência ideológica e intolerância. Isso significa que professorar uma religião não está necessariamente associado a uma genuína vivência espiritual. E, portanto, a pergunta continua: o que é espiritualidade?
Analisada do ponto de vista subjetivo, ou seja, naquela dimensão que se passa no interior de nossa mente, a espiritualidade surge como uma qualidade especial da consciência da ordem do amor, da sabedoria e da paz interior. Ela pode ser inspirada e estimulada pela prática religiosa ou, como percebeu Allport, pode ser suprimida por uma prática inadequada e imatura, tanto do ponto de vista existencial como ético.
Quando a vivência religiosa atua positivamente na geração da qualidade espiritual da consciência, o faz através de exemplos e ensinamentos libertadores, que geram um entendimento da realidade que é inspirador e induz à ação e ao aprofundamento. A qualidade espiritual da consciência, então. cresce firmemente gerando harmonia à sua volta e distribuindo aos mais próximos a inspiração que a alimenta.
No entanto, quando a prática religiosa suprime a espiritualidade, surgem estados de fanatismo e credulidade, julgamentos arrogantes em relação ao diferente, domínio sobre a consciência ele outros, supressão da autonomia e da liberdade de pensamento, perda da espontaneidade e propensão a representar papéis de superioridade. Nesse caso, a vivência religiosa pode gerar grande pre­juízo nas relações interpessoais e desestabilizar interiormente seus praticantes. Impossibilitados de contar de forma autônoma com seus recursos interiores, jáque sua liberdade mental e discernimento são vistos com desconfiança, tornam-se cada vez mais dependentes de figuras externas de autoridade.
Uma interessante definição de espiritualidade foi dada por Annie Besant, uma ativista social que viveu no final do século XlX e começo do século XX, e que se tornou teosofísta após conhecer a fundadora do movimento teosófico, Helena Blavarsky. Besant afirmou queespiritualidade é a percepção da unidade. O conceito de unidade remete a ensinamentos antigos presentes em muitas tradições. e afirma que existe uma realidade última que está na origem do mundo manifestado, onde todas a coisas estão conectadas e compartilham da mesma natureza e origem.
A noção de interdependência, presente no paradigma sistêmico que surgiu da física de partículas e que rapidamente domina os mais diversos cenários atuais da ciência, confirma esse antigo axioma. Do ponto de vista da consciência, portanto, a espiritualidade implica em ultrapassar o pensar discriminativo. N0 entanto, isso é insuficiente para a compreensão do que Anníe Besant procurou mostrar.
Besant conhecia profundamente o pensamento oriental, pois viveu toda a fase madura de sua vida na Índia, estudando e meditando sobre seus legados espirituais. Profunda conhecedora da filosofia do yoga, ela sabia que a espiritualidade está associada à existência de camadas gradualmente mais profundas de nossa mente. Em outras palavras, a dimensão espiritual é a essência de nós mesmos, sendo a mente como a vivenciamos e todo o funcionamen­to psicológico que nela toma lugar apenas a camada mais externa de nosso ser. Para oyOga, nossa verdadeira natureza espiritual está semiadormecida em suas regiões mais profundas, impedida de se manifestar plenamente em razão da superficialidade de nossa mente e ela falta ele sintonia com os estados interiores.
Um termo sânscrito, buddhi, esclarece a definição proposta por Besant. Buddhi significa inteligência espiritual, ou intuição, a capacidade de compreender de forma direta a essência e a natureza das coisas. Nos sábios, buddhi está desperto, gerando aquela classe de discernimento que honra esse termo, ou seja, ir ao cerne das coisas. Quanto mais presente está buddbi, mais o centro da consciência está próximo da unidade, e mais firme é a noção de interdependência e da consequente capacidade de identificar-se com todos os seres comoparte de si mesmo, ou mais propriamente, sendo todos parte do mesmo ser.
Além ela noção de unidade, outros dois aspectos da filosofia oculta da índia explicam o contexto conceitual das palavras de Besant, O primeiro é o de que tudo está vivo e expressa algum grau de consciência. A noção ocidental de seres animados e inanimados não existe nessa visão. Mesmo os seres considerados inanimados, como os minerais, possuem algum grau de consciência, e na dimensão da vida e da consciência estão todos ligados. Mesmo os objetos construídos são átomos e moléculas que estão vivos e também possuem certo grau de consciência.
O segundo aspecto é que existe uma relação de analogia e simbolismo entre micro e macrocosmo. Portanto, o ser humano guarda na profundidade espiritual de seu ser as mesmas forças e princípios que criaram o universo. A mente humana é expressão da mente cósmica que arquitetou o universo. O poder criador que move todas as coisas também se move em nós, e a força aglutinadora e geradora de vida se expressa em nós como amor nas mais diversas formas.
A questão central da espiritualidade, portanto, é como descobrir em nós o seu poder. Se é verdade que ela é a essência de nosso ser, estarmos privados de sua presença significa estarmos exilados de nós mesmos. Para tal exílio, não há movimento físico de volta possível, porque a cisão ocorre na subjetividade da consciência. Tal exílio equivale a estar condenado a uma constante insatisfação existencial, onde a diversão do momento sempre perde o seu encanto. Buddhi, ao contrário, se expressa como felicidade sem causa, um estado de plenitude e de puro ser que nenhuma busca exige ou necessita.
Talvez a primeira atitude segura associada ao despertar da espiritualidade seja assumir que somos apenas alunos e sempre seremos.Mesmo alguém que está capacitado para ensinar algo sobre espiritualidade a quem está numa fase menos adiantada sempre é uma criança face às crescentes complexidades e aos mistérios que se encontram no cantinho, De fato, abandonar a postura de aprendiz pode ser um grave risco para o caminhante, que pode satisfazer-se por orgulho e arrogância com supostas posições de superioridade, Essa imersão de perspectiva está na origem da derrocada de grandes movimentos espiritualistas.
A postura do aluno (discípulo) implica assumir a ignorância e ser preenchido pela sinceridade do perguntar e do escutar, O caminho passa a ser, então, o deleite de descobrir o impressionante e encantador espetáculo divino, cuja sabedoria vai sendo gradual e parcialmente desvelada. Esse é um processo pleno de beleza e encantos surgidos da comunhão com a grande mente. É ao mesmo tempo pleno de decepção e dor resultantes da nossa ignorância. A superação da ignorância espiritual, sempre lembrada pela dor, faz gra­dualmente aflorar a qualidade da sabedoria, da paz e do amor característicos da espiritualidade real.
Os termos aluno, aprendiz ou discípulo tornam-se ainda mais apropriados quando observados dois aspectos do caminho. O primeiro é que se cria uma relação de aprendizado consciente em que quem ensina é a própria vida. A cada pergunta, consciente ou inconscientemente formulada pelo aprendiz, haverá uma resposta. O que fica em questão, aqui, passa a ser a capacidade do aprendiz identificar e escutar o que a vida traz como resposta. Esse é um exercício encantador que fortalece imensamente a confiança no processo do aprendizado e deixa muito evidente que estamos envoltos num incrível mistério. A pequena mente do aluno e a grande mente cósmica começam a dialogar.
O segundo aspecto é explicado pela filosofia oriental como o estabelecimento de um vínculo do aprendiz com mestres espirituais, vínculoesse que o aprendiz pode desconhecer. O que ocorre é que, quando o pensamento purificado e sincero do buscador atinge níveis vibratóriosmais sutis, inevitavelmente entra nas faixas vibratórias que são o campo de ação dos verdadeiros mestres espirituais. Tal como sabemos quando alguém bate à porta de nossa casa, esses seres iluminados que acompanham secretamente o desabrochar espiritual de todos os seres não deixam de perceber quando alguém atinge ou toca os reinos invisíveis mais sutis da realidade, mesmo tendo o pensar e a aspiraçãoainda incipientes. A criação desse vínculo, mesmo que o aspirante não saiba, será de fundamental importância para seu futuro.
Assim como um copo d'água pode guardar em seu fundo, por decantação, partículas de sujeira, também nós temos nosso psiquismo carregado de toxinas emocionais e mentais. Carregamos um enorme peso psicológico de crenças, condicionamentos, autoimagens negativas, culpa, autocobranças que geram inquietação, egocentrismo e isolamento. Isso nos torna psicologicamente pesados, especialmente pelos nódulos emocionais que geram as defesas que formam nossa personalidade. Por defesa. nos tornamos egocentrados. em constante busca de nossos interesses. Apesar de ser considerado "normal" em nossa sociedade, esse funcionamento é pleno de motivações egoístas que se tornam um impedimento intransponível para quem deseja tocar essas regiões vibratórias mais sutis.
Gerar a motivação correta, desprovida de egoísmo. é uma fase crucial do verdadeiro despertar espiritual. Equivale a colocar água tre­mendamente pura no copo, o que inevitavelmente levanta a sujeira depositada no fundo. Superar o peso psíquico das motivações egoístas éum trabalho alquímico que cabe ao próprio aprendiz. Descartar o que se tornou velho, como conceitos e crenças que não servem mais, buscas obsessivas que só nos prendem, hábitos perniciosos e a capacidade de gerar sofrimento são a desintoxicação necessária ao aprendiz. Ele deve aprender a desaprender. É necessário reconquistar a espontaneidade interior de uma criança tendo a experiência e maturidade de um ancião. Apenas a leveza da motivação inegoísta possibilita isso. O copo, então, estará cheio de água pura.
Se o desaprender é fundamental, há também o aprender fundamental: o de abrir-se para o novo, o desconhecido, e fazê-lo sem ser tomado pela insegurança, confiando apenas no próprio discernimento e na natureza espiritual da realidade. Com a capacidade de olhar de forma nova para tudo, comprometida com a verdade e com a motivação de gerar felicidade para todos os seres, a qualidade amorosa, pacífica e sábia da espiritualidade vai ocupando irreversivelmente o lugar central que lhe está reservado em nossa vida e em nossa consciência.
Autor: Marco Antônio Bilibio Carvalho, psicólogo e membro da Sociedade Teosófica.
Fontehttp://lojateosoficadharma.blogspot.com.br/2016/09/a-descoberta-da-espiritualidade-marco.html