segunda-feira, 28 de outubro de 2019

VIRTUDES CARDEAIS

Penso que, como simples amostra, podem-nos ajudar algumas pinceladas sobre as quatro virtudes cardeais. Serão rápidas, impressionistas, e mostrarão apenas umas poucas moedas do tesouro riquíssimo que guarda cada uma delas.
Prudência – Como ajuda e enche de segurança ter um pai que seja alegre, sensato e reflexivo! Que não improvise. Que não dê decepções a toda a hora, mudando de planos sem mais nem menos. Que não dê sustos por ter-se esquecido de controlar as contas bancárias, ou os prazos disto ou daquilo; que não precise ouvir aquelas palavras do Paraíso de Dante: Siate, cristiani, a muovervi più gravi: non siate come pena ad ogni vento… (“Caminhai, cristão, com mais ponderação: não sejais qual pena movida por qualquer vento…”).
Justiça – Como faz bem aos filhos ter um pai e uma mãe que cumprem o que prometem! Que não se desdizem, porque ficou mais difícil aquele passeio com os filhos e estão cansados e são comodistas. Que não tratam os filhos como números, com ordens genéricas, iguais para todos, como se o lar fosse um quartel, mas, como pede a justiça, tratam desigualmente os filhos desiguais (logicamente, não por mimo ou preferências injustas). Que, se fazem uma repreensão justa e prometem um pequeno ou médio castigo (castigo grande quase nunca se justifica), não amolecem, mas cumprem, sem deixar de cercar o filho punido da certeza de que é muito amado e só se quer o seu bem.
E fazem bem aos filhos outras “justiças” menores do cotidiano. Por exemplo, saber que os pais não se aproveitam nunca de um troco errado (devolvem ao caixa a diferença), nem dão jeitos para enganar e deixar de pagar uma entrada, que qualquer pessoa honesta paga.
Fortaleza – Bastaria lembrarmo-nos da mãe que admirávamos há pouco. Mas é também um exemplo maravilhoso viver num clima familiar em que não se ouvem queixas nem reclamações. Em que ninguém se julga mártir ou vítima. Em que o pai, exausto, é capaz de ficar brincando com os filhos, interessando-se pelas suas pequenas problemáticas ou pelos seus sonhos e alegrias, e tudo isso sabendo oferecer a todos um sorriso afável, no meio da pena ou do esgotamento. Pais que sempre projetam a bela luz da paciência e da constância.
Temperança – Que grande exemplo dão os pais que nunca são vistos, nem dentro nem fora de casa, nem nos dias de trabalho nem aos domingos, e feriados, abusando da comida e da bebida! Que não se iludem, achando que vão enganar os filhos dizendo-lhes que se trata só de um “aperitivo” ou uma “cervejinha” de que precisam muito porque andam fatigados e faz bem para a saúde, quando os filhos os veem claramente “altos”, com a voz gosmenta e as pernas bambeando por excesso de álcool. Pelo contrário, como toca o coração ver uma mão que habitualmente “gosta” do pedaço de carne que tem mais nervos e gorduras, ou ver o pai que “gosta” do cinema que a mãe adora…, mesmo em dias em que joga o seu time.
E a temperança na TV e na Internet? Acham que os filhos são tolos? Em matéria de informática, quase sempre dão um solene “chapéu” nos pais, e descobrem muito facilmente – pois ainda não aprenderam a viver a virtude da discrição e a controlar a curiosidade – a quantidade de sites inconvenientes que o pai visitou, como se fosse um adolescente com obsessão sexual neurótica.
E em matéria de humildade, que São Tomás de Aquino situa no âmbito da temperança? Como se nota a falta de humildade e como faz mal! Por isso, é tão formativo que os filhos percebam que os pais não se deixam arrastar por mesquinharias de susceptibilidade, por mágoas persistentes, por rancores e incapacidade de perdoar. Que nunca vejam os pais virando o rosto para ninguém, nem dominados por espírito de revide e vingança, nem com raiva do cunhado que fez isso ou da tia que fez aquilo…
Virtudes humanas! São tantas as que os pais deveriam cultivar, como uma lâmpada que brilha em lugar escuro… (1Pe 1, 19)! Cultivar virtudes e ensiná-las aos filhos, com a autoridade moral que dá o exemplo, é um empreendimento árduo, mas é decisivo, e, por isso, deve ser enfrentado pelos pais (tendo uma intensa vida interior, muita formação cristã, exame de consciência todas as noites, direção espiritual, etc.), e, com a graça de Deus, deve ser levado a termo. Oxalá os filhos, quando crescerem, possam dizer que nunca se apagou deles a imagem do pai, a imagem da mãe, e que até à velhice o pai e a mãe continuaram a iluminar lhes a vida.
Fonte: https://cleofas.com.br/breve-reflexao-sobre-as-virtudes-cardeais/


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

BONS VENTOS DO SUL

Da Coluna do Sul, as impressões de um Companheiro Maçom

Iniciado em março de 2017, estive na Coluna do Norte até fevereiro de 2019 quando para a Coluna do Sul fui elevado. Daqui posso observar minha antiga coluna, os meus Irmãos Aprendizes, que representam na Maçonaria as crianças do mundo profano. Uns mais ativos e atuantes, outros mais observadores; mas todos com potencial.
Ombreados comigo, meus gêmeos companheiros, somos na Maçonaria os adolescentes, e caminhamos para alcançarmos, no tempo do GADU, a maturidade maçônica. Como um adolescente do mundo profano, aqui na Coluna do Sul me deparo com muitas dúvidas e contradições. Não sou mais a criança da Coluna do Norte, e ainda não sou o adulto do Oriente.
Do alto da Coluna do Sul tenho uma visão melhor de toda a Loja, observo os Irmãos de uma maneira mais ampla, e de um ângulo diferente do que quando estava na Coluna do Norte. Assim posso ver que há, como nas famílias profanas, Irmãos diferentes uns dos outros. E sobre ter visão de ângulos diferentes ainda vou falar mais à frente.
Como um adolescente profano, um companheiro maçom é mais observador, é mais crítico e nesse processo de amadurecimento deve ser questionador, na acepção correta da palavra. Nessa miscelânea observo muito a mim mesmo. É importantíssimo praticar a autocrítica.
Que maçom eu sou? Como os outros Irmãos me enxergam? É importante ter um feedback, todo marinheiro sabe da importância de uma bússola para correção das velas e dos rumos durante a navegação até um porto seguro.
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Tenho plena consciência de que em algum momento de minha caminhada na DFP, fui um pouco de cada tipo de maçom: tenho consciência que fui em determinados momentos o Irmão Cigarra, aquele que canta bonito, faz lindos discursos, faz muito barulho, mas trabalha muito pouco; eu fui o Irmão Clima de São Paulo, instável e inconstante na Loja; eu fui o Irmão Quiabo, escorreguei dos serviços em Loja e fora dela; fui o Irmão Canoa, só segui em frente com outro Irmão remando por mim; fui o Irmão Trailler, precisei ser puxado em alguns momentos; fui o Irmão Girafa, estive com o corpo aqui na Loja e a cabeça lá fora; fui o Irmão Bolo, só apareci nas festas; e fui o Irmão Saraiva: a tolerância foi Zero!
Mas, felizmente meus Irmãos, em outros momentos de minha caminhada na DPF fui um pouco também dos Irmãos Espelhos, os exemplos que temos aqui, e que com as bençãos do GADU são muitos. Irmãos Livres e de bons costumes, estudiosos, constantes no trabalho e nas visitas; e sempre presentes de forma muito positiva na Loja e por isso muito respeitados por todos. Esses Irmãos Exemplos é que mantém a nossa Loja pujante! E eu fui em alguns momentos um pouco desses Irmãos também!
Assim, nessa miscelânea é que me enxergo! E os Irmãos? Como se classificariam na caminhada de cada um? Cigarras, Clima de SP, Quiabos, Traillers, Girafas, Bolos de Festas, Seus Saraivas, Exemplos? Será que concordam que somos, ou que fomos em algum momento, um pouco de todos Irmãos que citei acima?
Penso que somos únicos meus Irmãos, e que devemos sim seguir os bons exemplos, os espelhos, mas não devemos ter como objetivo querer ser cópia de ninguém! De minha parte, pretendo ser Eu, com meus defeitos e minhas qualidades, meus erros e meus acertos, e assim ir construindo a minha própria história aqui, e sempre, como diz um querido Irmão de nossa Loja e com grande sabedoria e simplicidade: “devemos ao menos tentar, a cada dia. ser um Maçom e uma pessoa melhor.”
Adaptando o conceito de um poeta contemporâneo: prefiro ser uma metamorfose ambulante do que ter uma velha, preconceituosa e atrasada opinião formada sobre tudo e sobre todos. Ninguém nunca deve se achar melhor que ninguém, porque ninguém o é! Assim, tenham a certeza que sempre serei Autêntico e não me furtarei nessa caminhada, a externar meus pensamentos, opiniões e posicionamentos, sempre de acordo com nossas Leis, e de maneira respeitosa, com a opinião dos demais Irmãos.
A Nossa Ordem, a nossa Instituição, é justa e perfeita! Nós os Maçons é que não somos, e precisamos ter essa consciência, pois só assim conseguiremos fazer progressos, aqui dentro da Maçonaria e fora dela como construtores sociais que devemos ser no mundo profano.
Não estamos aqui para ser julgados ou para julgar as ideias e pensamentos dos outros Irmãos. Devemos ser livres e de bons costumes, respeitando a liberdade de expressão de todos os Irmãos, inclusive os que tenham opiniões e posicionamentos diferentes dos nossos. Concordar com quem pensa o mesmo que Nós é muito fácil, o desafio é a tolerância ao contraditório. A Empatia é isso, é o ato de se colocar no lugar do outro, e esse o endereço mais difícil do mundo, mas quem descobre essa fórmula se aproxima muito da maturidade.
Exemplo o número 6 e o número 9. Dependendo do ponto de vista ou do ângulo que ele é observado, o mesmo pode ser 9 ou pode ser 6, e das duas formas, quem o observa está certo!
Pré-conceitos, intolerância, censura e radicalização de pensamentos e ações precisam ser banidos, e não fomentados em nossa Ordem e em nossa sociedade. Devemos ser Exemplos, não apenas nas palavras e na oratória, mas nas ações do nosso dia a dia, dentro da Loja e fora dela, em todos as situações de nossa vida profana e maçônica.
De minha parte, volto a frisar, sempre respeitando a nossa Constituição, nossa legislação e nossos Rituais, sempre que achar necessário e oportuno vou me posicionar, pois serei sempre um pouco de cada tipo de Irmão que citei no inicio do trabalho, mas jamais serei um Irmão Gado, ou um Irmão Jarrinho de Mesa, ficar aqui apenas enfeitando e fazendo número na Loja.
Finalizo assim esse trabalho meus Irmãos, conclamando Todos Nós a fazermos uma auto-crítica, e buscarmos lapidar de verdade, e não apenas da boca pra fora, a nossa pedra bruta.
Eu disse Lapidar a Pedra Bruta meus Irmãos, e não atirá-la na cabeça dos Irmãos que pensam ou tem opiniões diferentes das nossas. Vamos tentar praticar a EMPATIA.
Direto do topo da coluna do sul, essas são as impressões de um Irmão Companheiro, com ainda muito a aprender, e muito orgulhoso por fazer parte da Augusta e Respeitável Loja Simbólica Deus, Pátria e Família nº 154 . Um TFA!
Autor: Cristiano de Lima Aguiar
ARLS Deus, Pátria e Família, nº 154 – Oriente de Corinto/MG
Fonte: https://opontodentrocirculo.com/2019/10/25/da-coluna-do-sul-as-impressoes-de-um-companheiro-macom/

 



sexta-feira, 24 de maio de 2019

INICIAÇÃO NA PRÁTICA


Os teóricos falam por si mesmos. Nenhuma ocorrência em suas vidas revela uma experiência que possa comprovar a pregação vociferante com que alardeiam sua inscrição nas supostas castas superiores da existência.
Imaginem um ser da magnitude de Buda recitando as sublimes sutras com o coração repleto de ilusões e desejos. Imaginem São Francisco de Assis vestindo sofisticados paramentos e pompas, bebendo e comendo como um desenfreado. A distância que existe entre a prática e a teoria é a mesma que separa o homem do animal. Com uma diferença em favor dos animais: eles não dissimulam, não premeditam, não alteram as leis nem dão tampinhas no ombro. Por isso eram chamados de irmãos por São Francisco: irmão lobo, irmão pombo, irmão gato, irmão peixe. Para o santo, tudo respira fraternidade: irmão Sol, irmã Lua…
Quando São Francisco dizia “Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa Paz” é porque ele punha em prática a Paz. Ninguém presenciou o Poverello de Assis incitando as pessoas à revolta. Nem fuxico, nem fofocas. Quando ele dizia “onde houver ódio, que eu leve o amor” é porque sua vida consistia em perdoar, fazia isso o tempo todo. Quando ofendido, ele levava o perdão, onde houvesse discórdia, levava a união. (Imagino que São Francisco não tivesse dedo, pois nunca se ouviu dizer que ele apontara o dedo para outra pessoa.) Mesmo imaginando um absurdo: que Francisco de Assis não fosse um Cristão – ele agiria exatamente dessa forma porque ESTA ERA A SUA NATUREZA ÍNTIMA, sua verdade e sua experiência de vida. Onde havia dúvida, ele levava a fé, onde percebesse o erro, a verdade – sem qualquer estardalhaço ou discurso tonitruante. Era prático e não teórico, era um discípulo dos ensinamentos de Jesus e também como um Buda: conhecia as raízes do sofrimento, sua natureza, sua origem, e o meio que conduz à beatitude. Desejoso de bem empregar sua vida, Francisco foi um homem feliz apesar de sempre pensar na morte e estar preparado para ela. Onde presenciou o desespero, levou a esperança, onde percebia a tristeza, levou alegria. Foi pela experiência pessoal, pela REFLEXÃO e pelo exemplo de vida que as palavras de Francisco de Assis escaparam da letra morta (teoria) e pulsam, ainda hoje, no âmago de cada homem e mulher. Levou a Luz onde havia trevas; ensinou a VIRTUDE pelo exemplo, combatendo os VÍCIOS através de uma vida comedida e pura.
Buda, Jesus e São Francisco optaram pela modéstia ao invés da humildade. A modéstia é melhor porque vem do coração. A humildade muitas vezes procede da razão como vestimenta ou capa de proteção. Já ouvi dizer que a maior das vaidades está sob essa capa de humildade e pode irromper, como uma fera, a qualquer instante e à menor provocação. Por outro lado, a modéstia é decência, compostura, moderação e sobriedade, especialmente no falar.
Quando a capa da humildade reveste os pusilânimes, eles “dão seu show particular e jogam para a platéia”. Pensam que não são observados e se esquecem de que apenas a curiosidade os conduziu aos portais sagrados da Iniciação e ao lugar que ocupam; que, no íntimo, têm receio de serem descobertos. Inconscientemente, ainda buscam mais auferir lucros materiais e distinções humanas do que servir aos semelhantes. Alerta! quanto mais dissimulados são, mais estão descobertos.
Os fatos estão bem aqui, debaixo dos nossos narizes.
Engana-se quem supõe permanecerem invisíveis suas intenções. Nada escapa à visão criteriosa dos que nos cercam. (Sou testemunha disso: não foram poucas as vezes que meus verdadeiros amigos e irmão me alertaram nesse particular.) Aprendi que a “massa” sorri e nos presta reverência em público. Curvar a coluna e aplaudir é fácil, mera questão de treino e o hábito de agachar-se. Presenciamos isso a todo instante. Mas, nos pequenos grupos e na solidão de nossas meditações sabemos separar o joio do trigo. Esta é a grande força invisível que, sem pressa, pela evolução e não pela revolução – está mudando o mundo.
Você acha difícil? Eu também acho.
Acha impossível? Então…
Autor: José Maurício Guimarães
https://opontodentrocirculo.com/2015/04/09/iniciacao-na-pratica/

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O ABISMO DA IGNORÂNCIA

Os acontecimentos recentes em nosso país nos mostram que ainda estamos a anos-luz de termos a capacidade de conviver com as diferenças.
Mas ainda há tempo de reverter essa situação que está quase insustentável! Afinal, se eu não acreditasse nisso não teria sentido algum fazer parte da nossa Sublime Ordem.
Não é de hoje que o cidadão para defender o seu ponto de vista, algo em que acredita, seja esse algo um partido político, um time de futebol, uma emissora de tv, uma personalidade pública, etc, tem como ferramenta exclusiva de argumentação o ataque (verbal, físico, virtual ou psicológico) àquele que discorda de suas crenças, o que recentemente foi absurdamente intensificado. Muitas vezes, por não aceitar um pensamento divergente, cria apelidos para seus “oponentes” (coxinha, mortadela, bolsominion, maria, franga, bambi, etc). Mesmo que não tenha conhecimento das diretrizes defendidas por determinadas ideologias políticas e sociais, e sem conhecimento histórico, não demora em taxar seus “inimigos” de fascistas, comunistas, nazistas, socialistas, vendidos, bolivarianos, esquerdistas, direitistas, liberais, conservadores, e por aí vai…
Com sua mente deturpada pelo ódio e pela incompreensão, o desejo de ser detentor do que é certo lhe cega a razão, e até mesmo aqueles que lhe são mais próximos passam a ser vítimas de sua bestialidade.
Não existe paz em uma ambiente marcado pela odiosidade. Palavras, escritas ou faladas, são como flechas, e devem ser bem analisadas antes de serem lançadas. No mundo moderno o que você posta na internet não pode ser apagado pois o print é eterno.
Nesse mundo de enganos, de disfarces, de quimeras, de máscaras, somos todos induzidos ao erro e iludidos pelas aparências. Devemos, meus irmãos, ir em busca da Verdade para que sua luz possa iluminar nosso percurso, evitando assim que sejamos surpreendidos com uma queda sem fim no abismo da ignorância e da selvageria.
Estou constantemente em busca da Verdade. Procuro respostas às minhas perguntas. Encontrei algumas.
Morri algumas vezes, e renasci sempre melhor do que eu era. Conheço minhas fraquezas, mas conheço também as virtudes que tenho e as uso para deixar meus vícios presos em uma masmorra.
Vigio minhas atitudes e tento ser um exemplo virtuoso para aqueles com que convivo, respeitando as dissimilitudes, sem criar apelidos para me referir àqueles que não compartilham das minhas posições.
Será que um mundo onde cada um de nós possa respeitar o direito de pensar diferente do outro é uma utopia? Talvez. Mas se você continuar sentado no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar, o fim que nos aguarda será muito mais tenebroso do que as distopias já produzidas pelos estúdios de Hollywood.
Nós somos os responsáveis pela mudança do atual cenário. Nós devemos ser o exemplo de convivência, mesmo que meu irmão, meu amigo (no mundo real e no virtual), meu vizinho, não tenha posicionamento ideológico, partidário ou futebolístico idêntico ao meu. Devemos defender os valores filosóficos pregados por nossa instituição. Não basta apenas ser maçom! Devemos ser reconhecidos como tal por nossas atitudes!
Autor: Luiz Marcelo Viegas
ARLS Pioneiros de Ibirité, 273 – GLMMG

Fonte:https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2018/10/25/o-abismo-da-ignorancia/


segunda-feira, 13 de agosto de 2018

CORAGEM


À GL.’. do G.’. A.’. D.’. U.’.
Augusta e Respeitável Loja Maçônica Simbólica Mista Triângulo da Fraternidade
S.’. F.’. U.’.
Primeira peça de arquitetura do grau de Aprendiz Maçom.
Tema solicitado pelo Ir.’. 2° Vig.’.:
Impressões sobre a iniciação - Coragem.
 
Segundo o Dicionário Hauaiss da Língua Portuguesa: verbete coragem (do latim coraticum, do francês cor-age(1-s.f).
A coragem é a capacidade (muitas vezes tida como virtude) de agir apesar do medo, temor e da intimidação. Deve-se notar que coragem não significa ausência de medo, e sim a ação apesar deste.
O contrário de coragem é tida normalmente como covardia.
O homem sem temor motiva-se a ir mais além. Enfrenta os desafios com confiança e não se preocupa com o pior. O medo pode ser constante, mas o impulso o leva a adiante. Coragem é a confiança que o homem tem em momentos de temor ou situações difíceis, é o que o faz viver lutando e enfrentando os problemas e as barreiras que colocam medo, é a força positiva para combater momentos tenebrosos da vida.
Platão correlaciona coragem, razão e dor. A coragem é o uso da razão a despeito do prazer. Coragem é ser coerente com seus princípios a despeito do prazer e da dor.
Os animais (mesmos os irracionais) demonstram coragem principalmente devido aos seus instintos primitivos e pelas necessidades de sobrevivência. Por exemplo, um pássaro que sai de seu ninho sabe que pode morrer, mas a necessidade de sobrevivência fala mais alto nele e assim surge a coragem.
Os seres humanos (diferentemente dos animais irracionais) tem uma psiquê muito influente em suas atitudes, portanto, seus medos e coragem variam muito de uns para os outros, dependendo do ambiente no qual vivem (e no qual viveram quando mais jovens), da educação que receberam, de suas crenças, de com quem eles convivem socialmente e etc.
Isto posto, externo minha percepção: ao adentrar no Templo apoderou-se de mim uma coragem que permitiu entregar-me ao rito sem medo, com coragem e determinação, desejosa de participar e estudar os princípios da maçonaria, que será meu guia e norteará minha existência, neste plano, preparando-me para o enfrentamento dos obstáculos que se apresentarão no decorrer da nova caminhada, trilhando os caminhos da virtude e do bem universal.
 
Or.’. de Porto Alegre, 09 de julho de 2018 da E.’. V.’. 
                                                       Neiva Rasbold
                                                          Apr.’. M.’.
Bibliografia:
(1) Dicionário Hauaiss da Língua Portuguesa: verbete coragem.
(2) Fonte: Wikipédia: enciclopédia livre - 26 de junho de 2018

sexta-feira, 25 de maio de 2018

PRECE E MEDITAÇÃO



PRECE E MEDITAÇÃO 2 
Swami Satprakashananda


A prece é evidentemente uma relação verbal com Deus. Oramos a Deus e Ele responderá a nossa prece se a mesma for profunda e sincera. Podemos rezar a Deus por qualquer coisa que quisermos. As pessoas mundanas oram a Deus por objetivos mundanos, como: poder, posição, beleza, juventude, longevidade, posses, para se livrar de calamidades, enfim, por inúmeros interesses seculares. Se as preces forem sinceras, então elas serão atendidas. No entanto, as pessoas que tem inclinação espiritual rezam a Deus por valores espirituais.

Uma pessoa não pode ser mentalmente espiritual enquanto não se conscientizar da futilidade dos desejos mundanos. A pessoa que segue o caminho da virtude fica desiludida de todas as dualidades. Ela entende então que ter prosperidade e posses de bens não irá resolver os seus problemas existenciais. A vida consiste num drama de nascimento, crescimento, decadência e morte. A pessoa está inevitavelmente sujeita à experiência dual de sofrimento e prazer, de amor e ódio, de esperança e medo, de sucesso e fracasso. A experiência dual não é gratificante, mesmo que se viva numa sociedade civilizada ou numa comunidade bárbara, mesmo que se viva num palácio real ou numa cabana. Qualquer experiência obtida nesta vida sempre será dual. A vida neste mundo consiste em constante mudança.
Apesar de todas as invenções tecnológicas, apesar das variadas descobertas científicas, apesar de todas as estratégias políticas, apesar de todos dispositivos utilitários, a experiência básica do homem, a base comum da humanidade não muda. Então, no que consiste a base comum da humanidade? Consiste no drama de nascimento, crescimento, decadência e morte. Esse drama de sorrisos e lágrimas, esperança e medo, subir e cair nunca irá mudar. Todas as mudanças encontram-se na superfície. Assim, nós é que teremos de mudar se quisermos resolver efetivamente o nosso problema existencial. Frequentemente mais problemas são criados do que solucionados quando se criam coisas para promover o prazer e conforto. Os problemas continuam porque vivemos num mundo de dualidades, de pares de opostos.
Quando uma pessoa fica desiludida com as dualidades da vida, ela busca ir além de toda relatividade; procura alcançar aquela Realidade que é absoluta. Só Deus é bom no sentido absoluto. Não existe o bem no sentido relativo. Só Ele é o Supremo Bem. Só quando uma pessoa estiver convencida disso, é que sua mente se voltará na direção de Deus. Somente, então, é que se tornará um verdadeiro aspirante espiritual - um buscador de Deus.
Quando a pessoa compreende essa verdade e reconhece a limitação de todos os valores seculares, desenvolve a percepção de que o único e supremo propósito da vida é realizar Deus, é ver Deus. Então é que a pessoa busca a Deus como um ideal, como uma meta. Então ela não ora a Deus por interesses seculares; ora a Deus por valores espirituais. Compreende que são somente os tesouros espirituais que não são destruídos, que não enferrujam e que nenhum ladrão pode roubar.
A pessoa então não ora mais por interesses seculares. Se por acaso ora a Deus por interesses seculares é por causa do seu desenvolvimento espiritual. Por exemplo, ela pode orar a Deus por boa saúde e por uma posição segura e por benefício espiritual. Ela entende que orar a Deus por valores seculares, tais como: poder, riqueza, beleza, posição e outras coisas semelhantes, é como colher bijuterias após ter descoberto uma mina de diamantes. É como aplacar a sede bebendo água de poço, após conhecer uma fonte perene de ambrósia. Quem senão uma criança irá ao imperador dos imperadores em busca de brinquedos e bonecas.
É para ser entendido que esta vida sempre continuará a ser o drama de sorrisos e lágrimas, de esperanças e medos, de êxitos e fracassos, onde quer que a pessoa possa estar. Assim foi no passado, assim é no presente, e assim na direção de todos os pontos cardinais. Você não pode sair desse labirinto. Aqueles que reconhecem a limitação da experiência dual, as limitações do mundo relativo, buscam a Deus como um ideal, como uma meta. Sem o reto entendimento isso não é possível.
Os videntes védicos reconheceram a importância do reto entendimento. No Svetasvatara Upanishad encontramos as seguintes preces:
"Possa Ele, o Senhor do Universo, o grande Vidente que é a origem dos deuses e o seu sustentador, que trouxe à existência a Alma Cósmica no início da criação, possa Ele conceder-nos reto entendimento". (III:4)
"Possa aquele Ser radiante de luz, que embora Uno e não diversificado, pelos Seus múltiplos poderes, e sem nenhum motivo próprio, dá origem às diversidades e no final (do ciclo) reabsorve em Si mesmo o universo. Possa Ele dotar-nos de reto entendimento". (IV:I)
O reto entendimento é muito mais valioso do que todas as nossas riquezas externas. Você não pode utilizar os seus recursos externos ou internos para o seu próprio beneficio a não ser que tenha o reto entendimento, a não ser que tenha sabedoria. Os sábios vedânticos entenderam que, mais do que qualquer outra coisa, o homem precisa é de reto entendimento. Sem o reto entendimento não será capaz de utilizar a sua riqueza corretamente. Não será capaz de conviver adequadamente com seus amigos; não será capaz de utilizar apropriadamente a sua posição; não será capaz de usar corretamente de seus pertences; poderá até usá-los erradamente para o seu próprio mal. Sem o reto entendimento não será capaz até mesmo de usar corretamente a sua inteligência e habilidades estéticas.
Assim, a primeira coisa que necessitamos é o verdadeiro entendimento, a verdadeira sabedoria. Então, qualquer coisa que nos seja disponibilizada podemos usar para o nosso próprio benefício. Caso contrário, a aquisição de poder e posição não irá nos ajudar. Desta forma, poderá haver muitas e diferentes formas de preces que uma pessoa poderá adotar por falta de verdadeiro entendimento. 

(Extraído do Livro “Meditation: Its Process, Practice, And Culmination” de Swami Satprakashananda)
PAZ INTERIOR - Swami Satprakashananda

quarta-feira, 9 de maio de 2018

O DRAMA DE EROS


O verdadeiro e mais profundo sentido de Eros não é a satisfação individual do homem e da mulher, nem tão pouco a procriação da prole. Eros tem um back-ground, um fundo ou substrato de natureza metafísica, cósmica, universal, que não é conscientemente percebido pelos sexos. Por detrás da conhecida profanidade da libido canta ignota sacralidade de Eros...
Esse substrato cósmico de Eros é o anseio pelo retorno à fonte universal de todas as coisas individuais. Os indivíduos orgânicos, resultantes da união dos sexos, representam um processo centrífugo, dispersivo, rumo à periferia. Por que é que Eros tem o poder de individualizar novas ondas de vida? Unicamente porque, no ato sexual, retorna ao oceano imenso da vida cósmica experimentado, geralmente, na estranha embriaguez do orgasmo voluptuoso.
A eterna Realidade não tem sexo. O Absoluto é essencialmente assexual. O homem – isto é, o ser humano como tal, o homo, o ânthropos, o Mensch; não o vir, o anér, o Mann – desconhece o sexo. A ramificação em dois sexos é o primeiro passo para a individualização do homem universal.
Entretanto, o homem assim individualizado em macho e fêmea conserva nas incônscias profundezas da sua natureza humana as reminiscências do que foi na sua fase pré-sexual e o que continua a ser, mesmo agora, na intima essência do seu ser humano. Essa silenciosa nostalgia do seu estado puramente humano, pré-masculino e pré-feminino, ecoa perenemente em cada uma das células do varão e da mulher. A união sexual é uma tentativa de retorno dos dois ramos da árvore humana, macho-fêmea, ao tronco único da natureza humana como tal; o vir e a fêmina anseiam pelo homo; o anér e a gyné suspiram pelo anthropos; o Mann e a Weib tentam reconstruir o Mensch.
A locução popular "minha cara metade" oculta, por detrás da sua corriqueira banalidade, uma verdade profunda: o sentimento obscuro do "incompleto" de cada sexo e do "completo" daquilo que precedeu a bifurcação dos sexos. Certos ascetas entendem que o retorno ao estado de "completo" se encontre na abstenção sexual, uma vez que o uso do sexo representa o estado de "incompleto". Mas essa lógica consciente do asceta não coincide com a lógica inconsciente da humanidade, que, em virtude uma lógica de razões ignoradas, continua a usar o sexo como um fator de integração humana, ainda que esse mesmo sexo pareça ter sido o resultado duma desintegração. A humanidade professa a lógica obscura e inconsciente de que o sexo, embora pareça representar a decadência ou deterioração de um primitivo estado de inteireza e integridade, é, não obstante, o meio ou veículo para um estado de mais completa inteireza do que o da integridade inicial, pré-sexual.
Se as palavras "integralista" e "totalitário" não tivessem, nos últimos decênios, adquirido determinado sentido de cor política, usá-las-íamos neste contexto para significar a eterna tendência de todo o ser, e do homem em particular, para vir a ser explicita e totalmente o que já é implícita e parcialmente. O homem quer ser atualmente o que já é potencialmente. E este processo milenar de auto-realização (self-realization, Selbstverwirklichung) vai através de Eros. O Eros da mitologia é uma divindade criadora, não no sentido primário de procriar novos indivíduos, mas no sentido profundo de criar, através de muitas individualizações parciais, o homem universal, total. Eros é, de fato, o Amor que cria o homo, o Anthropos, o Mensch, na sua completa, última e absoluta inteireza e perfeição.
Só assim se explica a elementar veemência com que os sexos se atraem um ao outro, sem que eles mesmos conheçam nitidamente a verdadeira razão dessa potência abismal; no zênite da intensidade sexual descemos dois atores praticamente ao nadir da inconsciência, deixando de ser atores do drama para se tornarem sofredores, ou vítimas passivas de uma potência cósmica que os empolga com irresistível veemência. "Paixão" (passio) é passiva, algo que se padece, algo de que se é objeto sofredor, e não sujeito ator.
Em última análise, Eros é o brado cósmico pela plenitude.
É sumamente notável que os grandes místicos e gênios espirituais da humanidade se sirvam de uma linguagem visceralmente sexual ou erótica quando se referem ao retorno do homem à suprema Realidade, Deus. Os profetas de Israel representam as relações entre Javé e o povo eleito sob a forma de matrimônio, razão porque a idolatria é constantemente comparada ao adultério. Jesus Cristo descreve o consórcio do divino Lógos com a natureza humana como uma festa nupcial. Paulo de Tarso traça o genial paralelo entre Cristo e a igreja sob a base das relações entre homem e mulher.
Verdade é que o homem animal não compreende o sentido profundo de Eros, limitando-o à esfera da libido, das satisfações meramente carnais. Na realidade, porém, o verdadeiro casamento não se consuma na união física dos corpos, como acontece no acasalamento dos brutos, mas na integração dos espíritos, ou seja, na fusão metafísico-mística do verdadeiro Eu humano com outro Eu. "O que Deus uniu não o desuna o homem" – esta frase mística de Jesus tem um sentido profundo, uma vez que só a união dos espíritos é que é uma união real e, por isto, indissolúvel.
Os verdadeiros "casados" encontram sua "casa".
Eros integra os espíritos, reunificando em um só tronco os dois galhos diversificados pelos sexos. O veemente brado pela unidade cósmica – é este o mistério último que vibra por detrás da atração dos sexos. Eros a serviço do Cosmos.
É atestado de incompreensão fazer consistir o fim principal do matrimônio na procriação de novos indivíduos humanos, como certos autores e sociedades eclesiásticas proclamam em nossos dias. Quando Deus resolveu criar Eva foi com o propósito explicito, como diz o gênesis, de dar ao homem uma "auxiliar semelhante a ele"; só mais tarde aparece, qual corolário, a função de Eva como mãe.
As palavras "uma auxiliar semelhante a ele" revelam o dedo do gigante, mostram a presença do gênio na redação do texto sacro. A mulher é, antes de tudo, uma "auxiliar", colocada no mesmo plano com o homem, não acima dele, como rainha, nem abaixo dele, como escrava, ideia essa também simbolizada na frase de que Eva foi tirada do lado de Adão (A conhecida expressão "costela de Adão" é simples errata do tradutor ignorante. O texto original não diz "costela", mas "lado"), quer dizer que ela se acha no mesmo nível da humanidade com ele – mas nem por isto é "igual ao homem", e, sim, "semelhante a ele". A identidade da natureza vem expressa pela palavra "auxiliar", e a diversidade do sexo pelo termo "semelhante". Unidade sem diversidade seria monotonia, estagnação, inércia, morte. Diversidade sem unidade seria caos, desintegração, desordem. Mas, unidade na diversidade, ou diversidade na unidade é harmonia, e, sendo o ser humano "imagem e semelhança de Deus", não pode deixar de ser personificação da harmonia. Homem e mulher são idênticos pela unidade da natureza, e não idênticos pela diversidade dos sexos. Idênticos no plano da humanidade como homo e homo, são Adão e Eva dissemelhantes como sexos, como vir e fêmina, a fim de se poderem completar no plano duma humanidade superior, apenas vislumbrada pela humanidade do presente século.
Tese, antítese e síntese...
No princípio, temos a tese, isto é, o estado neutro, não diferenciado, pré-sexual, a humanidade amorfa, incolor, embrionária.
Depois vem a antítese dos sexos, a bifurcação Adão-Eva, a polaridade nitidamente diferenciada entre macho e fêmea, externamente diferentes, internamente idênticos.
Por fim, aparecerá a síntese dos sexos processada pelo Eros superior, a re-união dos dois polos adversos numa só natureza humana, incomparavelmente superior e mais gloriosa que a da tese primitiva.
Os que condenam incondicionalmente o Eros não lhe compreendem a função metafísica. Devido aos inegáveis abusos que o homem animal tem cometido e comete sem cessar nesse plano, rejeitam esses doutrinadores ascéticos o próprio substrato eterno dos sexos.
Compreende-se assim por que o Cristo não era inimigo de Eros. Se o fora, não teria sido o maior gênio cósmico da humanidade. A sublimação de Eros pela compreensão da sua verdadeira função, no drama multimilenar da humanidade em marcha – é esta a tarefa gloriosa dos verdadeiros luminares do Cristianismo e guias espirituais do gênero humano.
(Huberto Rohden – Livro: Profanos e Iniciados)

domingo, 1 de abril de 2018

MÃOS MARCADAS


Senhor!
Quando me deres
O privilégio do renascimento
No berçário do mundo,
Ante as necessidades que apresento
E aquelas que não vejo,
Eis, Senhor, o desejo
Em que dia por dia me aprofundo:

Deixa-me renascer em qualquer parte,
Entretanto, que eu possa acompanhar-te
Onde constantemente continuas
Trabalhando e servindo em todas as estradas
Para que eu também tenha as mãos marcadas
Como trazes as tuas...

Quanta ilusão me debatia
Crendo que o desespero fosse prece,
A rogar-te alegria e segurança
Sem que eu nada fizesse!

Imitava na terra o lavrador
A temer pedra e lama, vento e bruma,
Aguardando milhares de colheita
Sem plantar coisa alguma.

Entretanto, Senhor, agora sei
Que o trabalho é divino compromisso,
Estímulo do Céu guiando-nos os passos
E que, atendendo à semelhante lei
Puseste ambas as mãos em nossos braços
Por estrelas de amor e de serviço.

Assim, quando efetues
As esperanças em que me agasalho
E estiver entre os homens, meus irmãos,
Que eu me esqueça em trabalho
E me lembre das mãos...
Não me dês tempo para lastimar-me,
Que eu busque tão-somente a luz que me acenas...

No anseio de seguir-te
Quero o trabalho apenas.

Dá que eu seja contigo, onde estiveres,
Uma réstea de paz... Que eu seja alguém
Sem destaque e sem nome
Que se olvide no bem.

E se um dia uma cruz de provas e de agravos
Reclamar-me a tarefa e o coração,
Não me largues ao susto a que me enleie,
Ajuda a entregar as próprias mãos aos cravos
Da incompreensão que me rodeie,
Entre bênçãos de fé e preces de perdão!

Não consintas que eu volte ao tempo morto
Da ilusão convertida em desconforto,
Dá-me os calos da paz nas tarefas do bem...
A servir e servir sem perguntar a quem...

Ouve, Celeste Amigo,
Aspiro a estar contigo,
Longe de minhas horas desregradas,
Onde sempre estiveste e sempre continuas
Plantando o amor em todas as estradas,
Para que eu também tenha as mãos marcadas
Como trazes as tuas...

Maria Dolores