quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A DESCOBERTA DA ESPIRITUALIDADE


Você já se perguntou o que é espiritualidade? Para muitas pessoas, a espiritualidade é aquilo que é vivenciado por quem professa uma religião. De fato, dentro do universo das religiões, com seus ensinamentos e cultos, pode-se entrar numa atmosfera de profunda elevação espiritual. Além disso, nossa cultura religiosa ocidental ensina que não há espiritualidade fora da religião, e diferentes religiões disputam o privilégio de ser o único caminho para Deus.
No entanto, Gordon Allport, um dos mais importantes psicólogos do século XX, em um estudo sobre preconceito observou que, paradoxalmente, no meio religioso encontram-se tanto os mais importantes exemplos de compaixão e tolerância, como os mais perturbadores exemplos de preconceito, violência ideológica e intolerância. Isso significa que professorar uma religião não está necessariamente associado a uma genuína vivência espiritual. E, portanto, a pergunta continua: o que é espiritualidade?
Analisada do ponto de vista subjetivo, ou seja, naquela dimensão que se passa no interior de nossa mente, a espiritualidade surge como uma qualidade especial da consciência da ordem do amor, da sabedoria e da paz interior. Ela pode ser inspirada e estimulada pela prática religiosa ou, como percebeu Allport, pode ser suprimida por uma prática inadequada e imatura, tanto do ponto de vista existencial como ético.
Quando a vivência religiosa atua positivamente na geração da qualidade espiritual da consciência, o faz através de exemplos e ensinamentos libertadores, que geram um entendimento da realidade que é inspirador e induz à ação e ao aprofundamento. A qualidade espiritual da consciência, então. cresce firmemente gerando harmonia à sua volta e distribuindo aos mais próximos a inspiração que a alimenta.
No entanto, quando a prática religiosa suprime a espiritualidade, surgem estados de fanatismo e credulidade, julgamentos arrogantes em relação ao diferente, domínio sobre a consciência ele outros, supressão da autonomia e da liberdade de pensamento, perda da espontaneidade e propensão a representar papéis de superioridade. Nesse caso, a vivência religiosa pode gerar grande pre­juízo nas relações interpessoais e desestabilizar interiormente seus praticantes. Impossibilitados de contar de forma autônoma com seus recursos interiores, jáque sua liberdade mental e discernimento são vistos com desconfiança, tornam-se cada vez mais dependentes de figuras externas de autoridade.
Uma interessante definição de espiritualidade foi dada por Annie Besant, uma ativista social que viveu no final do século XlX e começo do século XX, e que se tornou teosofísta após conhecer a fundadora do movimento teosófico, Helena Blavarsky. Besant afirmou queespiritualidade é a percepção da unidade. O conceito de unidade remete a ensinamentos antigos presentes em muitas tradições. e afirma que existe uma realidade última que está na origem do mundo manifestado, onde todas a coisas estão conectadas e compartilham da mesma natureza e origem.
A noção de interdependência, presente no paradigma sistêmico que surgiu da física de partículas e que rapidamente domina os mais diversos cenários atuais da ciência, confirma esse antigo axioma. Do ponto de vista da consciência, portanto, a espiritualidade implica em ultrapassar o pensar discriminativo. N0 entanto, isso é insuficiente para a compreensão do que Anníe Besant procurou mostrar.
Besant conhecia profundamente o pensamento oriental, pois viveu toda a fase madura de sua vida na Índia, estudando e meditando sobre seus legados espirituais. Profunda conhecedora da filosofia do yoga, ela sabia que a espiritualidade está associada à existência de camadas gradualmente mais profundas de nossa mente. Em outras palavras, a dimensão espiritual é a essência de nós mesmos, sendo a mente como a vivenciamos e todo o funcionamen­to psicológico que nela toma lugar apenas a camada mais externa de nosso ser. Para oyOga, nossa verdadeira natureza espiritual está semiadormecida em suas regiões mais profundas, impedida de se manifestar plenamente em razão da superficialidade de nossa mente e ela falta ele sintonia com os estados interiores.
Um termo sânscrito, buddhi, esclarece a definição proposta por Besant. Buddhi significa inteligência espiritual, ou intuição, a capacidade de compreender de forma direta a essência e a natureza das coisas. Nos sábios, buddhi está desperto, gerando aquela classe de discernimento que honra esse termo, ou seja, ir ao cerne das coisas. Quanto mais presente está buddbi, mais o centro da consciência está próximo da unidade, e mais firme é a noção de interdependência e da consequente capacidade de identificar-se com todos os seres comoparte de si mesmo, ou mais propriamente, sendo todos parte do mesmo ser.
Além ela noção de unidade, outros dois aspectos da filosofia oculta da índia explicam o contexto conceitual das palavras de Besant, O primeiro é o de que tudo está vivo e expressa algum grau de consciência. A noção ocidental de seres animados e inanimados não existe nessa visão. Mesmo os seres considerados inanimados, como os minerais, possuem algum grau de consciência, e na dimensão da vida e da consciência estão todos ligados. Mesmo os objetos construídos são átomos e moléculas que estão vivos e também possuem certo grau de consciência.
O segundo aspecto é que existe uma relação de analogia e simbolismo entre micro e macrocosmo. Portanto, o ser humano guarda na profundidade espiritual de seu ser as mesmas forças e princípios que criaram o universo. A mente humana é expressão da mente cósmica que arquitetou o universo. O poder criador que move todas as coisas também se move em nós, e a força aglutinadora e geradora de vida se expressa em nós como amor nas mais diversas formas.
A questão central da espiritualidade, portanto, é como descobrir em nós o seu poder. Se é verdade que ela é a essência de nosso ser, estarmos privados de sua presença significa estarmos exilados de nós mesmos. Para tal exílio, não há movimento físico de volta possível, porque a cisão ocorre na subjetividade da consciência. Tal exílio equivale a estar condenado a uma constante insatisfação existencial, onde a diversão do momento sempre perde o seu encanto. Buddhi, ao contrário, se expressa como felicidade sem causa, um estado de plenitude e de puro ser que nenhuma busca exige ou necessita.
Talvez a primeira atitude segura associada ao despertar da espiritualidade seja assumir que somos apenas alunos e sempre seremos.Mesmo alguém que está capacitado para ensinar algo sobre espiritualidade a quem está numa fase menos adiantada sempre é uma criança face às crescentes complexidades e aos mistérios que se encontram no cantinho, De fato, abandonar a postura de aprendiz pode ser um grave risco para o caminhante, que pode satisfazer-se por orgulho e arrogância com supostas posições de superioridade, Essa imersão de perspectiva está na origem da derrocada de grandes movimentos espiritualistas.
A postura do aluno (discípulo) implica assumir a ignorância e ser preenchido pela sinceridade do perguntar e do escutar, O caminho passa a ser, então, o deleite de descobrir o impressionante e encantador espetáculo divino, cuja sabedoria vai sendo gradual e parcialmente desvelada. Esse é um processo pleno de beleza e encantos surgidos da comunhão com a grande mente. É ao mesmo tempo pleno de decepção e dor resultantes da nossa ignorância. A superação da ignorância espiritual, sempre lembrada pela dor, faz gra­dualmente aflorar a qualidade da sabedoria, da paz e do amor característicos da espiritualidade real.
Os termos aluno, aprendiz ou discípulo tornam-se ainda mais apropriados quando observados dois aspectos do caminho. O primeiro é que se cria uma relação de aprendizado consciente em que quem ensina é a própria vida. A cada pergunta, consciente ou inconscientemente formulada pelo aprendiz, haverá uma resposta. O que fica em questão, aqui, passa a ser a capacidade do aprendiz identificar e escutar o que a vida traz como resposta. Esse é um exercício encantador que fortalece imensamente a confiança no processo do aprendizado e deixa muito evidente que estamos envoltos num incrível mistério. A pequena mente do aluno e a grande mente cósmica começam a dialogar.
O segundo aspecto é explicado pela filosofia oriental como o estabelecimento de um vínculo do aprendiz com mestres espirituais, vínculoesse que o aprendiz pode desconhecer. O que ocorre é que, quando o pensamento purificado e sincero do buscador atinge níveis vibratóriosmais sutis, inevitavelmente entra nas faixas vibratórias que são o campo de ação dos verdadeiros mestres espirituais. Tal como sabemos quando alguém bate à porta de nossa casa, esses seres iluminados que acompanham secretamente o desabrochar espiritual de todos os seres não deixam de perceber quando alguém atinge ou toca os reinos invisíveis mais sutis da realidade, mesmo tendo o pensar e a aspiraçãoainda incipientes. A criação desse vínculo, mesmo que o aspirante não saiba, será de fundamental importância para seu futuro.
Assim como um copo d'água pode guardar em seu fundo, por decantação, partículas de sujeira, também nós temos nosso psiquismo carregado de toxinas emocionais e mentais. Carregamos um enorme peso psicológico de crenças, condicionamentos, autoimagens negativas, culpa, autocobranças que geram inquietação, egocentrismo e isolamento. Isso nos torna psicologicamente pesados, especialmente pelos nódulos emocionais que geram as defesas que formam nossa personalidade. Por defesa. nos tornamos egocentrados. em constante busca de nossos interesses. Apesar de ser considerado "normal" em nossa sociedade, esse funcionamento é pleno de motivações egoístas que se tornam um impedimento intransponível para quem deseja tocar essas regiões vibratórias mais sutis.
Gerar a motivação correta, desprovida de egoísmo. é uma fase crucial do verdadeiro despertar espiritual. Equivale a colocar água tre­mendamente pura no copo, o que inevitavelmente levanta a sujeira depositada no fundo. Superar o peso psíquico das motivações egoístas éum trabalho alquímico que cabe ao próprio aprendiz. Descartar o que se tornou velho, como conceitos e crenças que não servem mais, buscas obsessivas que só nos prendem, hábitos perniciosos e a capacidade de gerar sofrimento são a desintoxicação necessária ao aprendiz. Ele deve aprender a desaprender. É necessário reconquistar a espontaneidade interior de uma criança tendo a experiência e maturidade de um ancião. Apenas a leveza da motivação inegoísta possibilita isso. O copo, então, estará cheio de água pura.
Se o desaprender é fundamental, há também o aprender fundamental: o de abrir-se para o novo, o desconhecido, e fazê-lo sem ser tomado pela insegurança, confiando apenas no próprio discernimento e na natureza espiritual da realidade. Com a capacidade de olhar de forma nova para tudo, comprometida com a verdade e com a motivação de gerar felicidade para todos os seres, a qualidade amorosa, pacífica e sábia da espiritualidade vai ocupando irreversivelmente o lugar central que lhe está reservado em nossa vida e em nossa consciência.
Autor: Marco Antônio Bilibio Carvalho, psicólogo e membro da Sociedade Teosófica.
Fontehttp://lojateosoficadharma.blogspot.com.br/2016/09/a-descoberta-da-espiritualidade-marco.html

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

EM BUSCA DE UMA TRADIÇÃO INVENTADA


A história é continuamente reescrita. À medida que a realidade presente muda, as interpretações acerca de um fato passado também são alteradas, buscando respostas que correspondam melhor às necessidades do tempo atual. Foi assim com a Inconfidência Mineira (1789). Poucos momentos foram tão debatidos, reescritos e apropriados quanto esse.
Durante boa parte do século XIX, a Inconfidência não assumiu lugar de destaque na historiografia brasileira. Tal situação modificou-se apenas na segunda metade do século, quando o princípio da nacionalidade tornou-se uma questão premente a ser resolvida. Urgia ao Brasil a construção de laços de pertencimento capazes de criar um sentimento nacionalista, e era fundamental encontrar os elementos fundadores da nação, construindo uma identidade que pudesse particularizá-la. Com o golpe militar que inaugurou a República em 1889, essas necessidades foram reforçadas. O regime instaurado de cima para baixo estava longe de apresentar-se como uma demanda da população em geral. Assim, era preciso legitimá-lo perante o povo, apresentando-o não como um elemento estranho à sociedade, mas sim como um desejo histórico presente havia muito tempo.
A solução para essas questões passava pela criação de um mito fundador que estabelecesse uma ideia de continuidade entre o fato presente e o passado brasileiro. Era necessário criar uma tradição republicana para a nação por meio de heróis que já tivessem ansiado pela implantação desse regime. Nessa ocasião, a Inconfidência Mineira e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, assumiram com propriedade o papel de precursores da República.
A escolha de Tiradentes como herói nacional não é difícil de ser explicada. Com a publicação da obra de Joaquim Norberto de Souza e Silva, História da Conjuração Mineira (1873), que ressaltava o fervor religioso do personagem nos últimos momentos de sua vida, inúmeras representações simbólicas tornaram-se possíveis, aproximando-o à figura de Cristo. Outro fator importante para essa opção foi que o movimento não aconteceu efetivamente, o que poupou os inconfidentes do derramamento de sangue e os manteve imaculados. Eles foram apenas vítimas da violência, nunca agentes.
A Inconfidência como objeto passível de ser novamente apropriado permitiu à historiografia refazer as linhas gerais do levante sempre que a conjuntura política brasileira teve necessidade de reavivar o sentimento nacional. Seu legado simbólico foi retomado de tempos em tempos, mais especificamente nos momentos de rupturas históricas no decorrer do século XX. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e até mesmo os militares de 1964, auto-intitulados “os novos inconfidentes”, apropriaram-se do fato histórico em favor de seus interesses políticos. Sob novas roupagens, o mito repetia-se incessantemente.
Contudo, não foram apenas os governos que utilizaram a influência do movimento e de seu herói. Muitas instituições também procuraram um “lugar ao sol” nessa festa de apropriações simbólicas. Foi o caso da maçonaria, que tomou Tiradentes como seu símbolo maior no Brasil ainda no século XIX. A partir de 1870, ocorreu um crescimento acelerado do número de lojas maçônicas no país e muitas delas foram batizadas de “Tiradentes”. Frequentemente, suas bibliotecas tinham o inconfidente por patrono e até mesmo os jornais maçônicos carregavam seu nome. Já no século XX, Tiradentes pareceu ganhar em definitivo um lugar de destaque no panteão maçônico, tornando-se patrono da Academia Maçônica de Letras.
Mas por que esse mineiro poderia representar a maçonaria? Que legitimidade haveria nisso? “Simples”, responderiam os historiadores ligados a essa organização: Tiradentes teria sido maçom, e a Inconfidência Mineira, uma conspiração maçônica em prol da libertação nacional!
Muitos maçons, historiadores ou não, aventuraram-se a escrever sobre o episódio para desvendar sua “verdadeira” história e demonstrar o papel crucial da maçonaria na definição dos acontecimentos de 1789. Em geral, essas narrativas começam demonstrando que a Inconfidência não foi um episódio regional. Tal movimento teria feito parte de um projeto internacional elaborado para tornar livres todos os povos oprimidos. A Inconfidência, a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos seriam expressões de um mesmo fenômeno: o do anseio revolucionário por independência, democracia e liberdade que sacudiu a Europa e a América por meio das atividades maçônicas.
Desse modo, o sentimento nativista não seria suficiente para explicar os anseios dos inconfidentes pela República. Acreditar apenas nisso, segundo os escritores da maçonaria, seria “ingenuidade e romantismo”. Os conspiradores mineiros agiriam inspirados não só pela ideia de nação brasileira, mas, principalmente, pelos sentimentos de sua organização. “Mirando-se no exemplo vitorioso da revolução americana guiada por George Washington, Thomas Jefferson, etc., (...) os líderes inconfidentes questionaram o que a metrópole impunha como sendo inquestionável”, escreve o maçom Raymundo Vargas. Eles não teriam planejado uma revolta se não tivessem certeza de que os “irmãos” americanos prestariam auxílio ao restante do continente. O projeto também incluía a Europa, e a França foi o palco escolhido para os contatos que uniriam o Brasil “a essa corrente universal de liberdade”.
A narrativa maçônica apresenta-se confusa para aqueles que sabem que a instituição foi fundada no Brasil em 1801. A Inconfidência poderia caracterizar-se como um movimento maçônico se ainda não havia lojas no Brasil? De acordo com seus escritores, haveria, sim, centenas de maçons organizados em lojas, mas estas funcionavam clandestinamente, já que a ordem se encontrava proibida pela legislação portuguesa.
O relato que inaugurou a crença em uma Inconfidência de caráter maçônico partiu de Joaquim Felício dos Santos, que, curiosamente, não era maçom. Em sua obra Memórias do distrito diamantino da comarca do Serro Frio (1924), ele escreve que a “Inconfidência de Minas tinha sido dirigida pela maçonaria, Tiradentes e quase todos os conjurados eram pedreiros-livres”. Com base nessa passagem, estudiosos, maçons ou não, começaram a associar automaticamente a Inconfidência à maçonaria. Surgiu a crença de que Tiradentes, que ia muito à Bahia para refazer o sortimento de mercadorias de seu negócio, acabou, numa de suas viagens, tornando-se maçom. Ele seria o responsável pela criação de uma loja maçônica, local onde os conjurados teriam sido iniciados na organização, “introduzida por Tiradentes quando por aqui passava vindo da Bahia para Vila Rica”, escreve Tenório D'Albuquerque.
Prova maior da importância do triângulo como símbolo maçônico teria se dado no momento da execução de Tiradentes, quando o maçom e capitão Luiz Benedito de Castro não distribuiu as tropas em círculo como de costume, e sim formou um triângulo humano em torno do patíbulo. A multidão “não poderia compreender o significado simbólico daquele triângulo, mas Tiradentes, no centro dele, compreendia aquela última e singela homenagem”, descreve Raymundo Vargas.
Finalmente, as narrativas maçônicas encontram explicação também para um instigante mistério: o sumiço da cabeça de Tiradentes. A urna funerária contendo a cabeça do herói da Inconfidência teria sido retirada secretamente às altas horas da noite pelos irmãos maçons remanescentes do movimento. O roubo da cabeça seria, segundo Raymundo Vargas, uma das primeiras afrontas da maçonaria às autoridades repressoras portuguesas, mostrando-lhes que “a luta só começava”. Segundo autores maçons, não teria sido por acaso que, no mesmo local onde a cabeça de Tiradentes fora exposta, o então presidente da província mineira e grão-mestre da maçonaria brasileira em 1874 Joaquim Saldanha Marinho, em 3 de abril de 1867 ergueu uma coluna de pedra em memória do mártir maçom.
Vários outros aspectos da Inconfidência foram trabalhados pelos autores ligados à organização, tais como a personalidade maçônica do Visconde de Barbacena ou as “irrefutáveis” provas da viagem de Tiradentes à Europa para fazer contato com seus irmãos da ordem. Percebe-se que a maçonaria, por meio de seus intelectuais, construiu uma série de argumentos para não deixar dúvida quanto ao papel de destaque dessa instituição no desenrolar de todos os fatos da Conjuração. Recentemente, surgiram alguns trabalhos elaborados por historiadores maçons mais criteriosos que refutam muitas das teses aqui apresentadas. Contudo, estes ainda não foram suficientes para derrubar do imaginário maçônico a figura do herói mineiro.
De fato, existem vestígios de que maçons passaram pelas Minas setecentistas. Analisando os processos inquisitoriais luso-brasileiros de fins do século XVIII e início do XIX, encontram-se denúncias contra mineiros de Vila Rica e do Tijuco, acusados de libertinos, heréticos e maçons. Sabe-se também que muitos estudantes brasileiros em Coimbra e Montpellier iniciaram-se na maçonaria europeia e trouxeram seus valores e ideias para o Brasil. Alguns deles, como José Álvares Maciel e Domingos Vidal, ajudaram nos planos dos inconfidentes.
Para além da discussão da veracidade ou não desses relatos acerca da Inconfidência, é interessante perceber de que maneira a elaboração de tal narrativa histórica favorece a instituição dos pedreiros livres. Em diversos momentos, a presença da maçonaria em território brasileiro foi questionada. Com a proclamação da República, por exemplo, a Igreja Católica perdeu o título de religião oficial do Estado e, para tentar reaver sua influência política, reforçou o combate à organização. O catolicismo oficial passou a apresentar a maçonaria como uma sociedade “estranha” à cultura brasileira, vinda de fora, representante do imperialismo e, logo, uma ameaça à soberania nacional. Mais tarde, com esses argumentos, Getúlio Vargas a colocaria na ilegalidade.
Diante de situações como essas, tornou-se fundamental para a maçonaria apresentar-se à sociedade brasileira como uma instituição que, ao contrário do que dizem seus opositores, mostra se presente há tempos em nosso território e em nossa cultura. Assim, a narrativa da Inconfidência como um movimento maçônico pode ser denominada de “'tradição inventada”, expressão cunhada por Eric Hobsbawm que indica a criação de um passado com o qual se busca estabelecer uma continuidade. Construir por meio de uma historiografia uma tradição na qual os maçons teriam feito parte do momento fundador da nação brasileira é, sem dúvida, uma maneira de assegurar sua presença no Brasil. Ao associar a imagem de Tiradentes à sua, essa ordem passa a ser lembrada como a defensora dos nobres valores carregados pelo herói nacional. Mais do que uma forma de defesa, a apropriação maçônica da simbologia da Inconfidência lhe dá legitimidade perante a sociedade. Por ora, a estratégia teve êxito na medida em que a insurreição de 1789 e a atuação maçônica encontram-se, ainda hoje, intimamente associadas no imaginário popular.
Autora: Françoise Jean de Oliveira Souza
Notas
A bandeira mineira - A origem da bandeira de Minas Gerais é mais uma prova, para os maçons, do envolvimento desta organização na Inconfidência. “Se ainda ao mais incrédulo dos incrédulos restasse um resquício de dúvida quanto à origem maçônica da Inconfidência Mineira, bastaria contemplar-lhe a bandeira”, afirma Tenório D'Albuquerque, em A bandeira maçônica dos inconfidentes. Utilizando como disfarce a ideia da Santíssima Trindade, o triângulo representaria, na verdade, a sagrada trindade da maçonaria: liberdade, igualdade e fraternidade. No interrogatório relatado nos autos da devassa, ao ser perguntado sobre o significado da bandeira, Tiradentes teria respondido “sagrada trindade” e não “santíssima”. Tal detalhe supostamente passou despercebido ao escrivão.
Discordância entre historiadores - A historiografia acadêmica encontra-se longe de um consenso acerca da participação ou não da maçonaria na Inconfidência. As hipóteses vão desde o papel central dos maçons na elaboração dos planos do levante até a negação total de sua influência na Conjuração.
Augusto de Lima Júnior ressalta o papel da maçonaria ao percebê-la como um importante elemento de ligação e comunicação dos inconfidentes com os grupos de apoio no Rio de Janeiro e na Europa. Em posição oposta está Lúcio José dos Santos, alegando que o fato de não haver nenhum vestígio da ação propriamente maçônica nos autos da devassa seria a maior prova da ausência dessa sociedade na Inconfidência. Também argumenta que, se a maçonaria possuísse prestígio suficiente a ponto de ser a idealizadora do movimento, ela teria tido forças para impedir a condenação de seus membros. Finalmente, a meio-termo entre as duas opiniões encontra-se Márcio Jardim, para quem a atuação maçônica teria sido importante, mas secundária: seu papel seria apenas o de aglutinar pessoas e idéias. O autor observa, ainda, como a maçonaria dos dias atuais se apropria da figura de Tiradentes, o que revelaria um desejo de mostrar poder acima do comum, causando lhe surpresa o fato de “boatos sobreviverem ao tempo e à evidência das provas contrárias”.
Fonte: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2017/01/13/em-busca-de-uma-tra=
dicao-inventada/

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

PALAVRAS VAZIAS SOPRADAS AO VENTO


"Uma pessoa cuja força está em suas palavras e não em suas ações, sempre ficará presa no mundo dos extremos.” Diz o Zohar, o texto mais importante da Cabala. Nossas palavras têm poder. Uma energia incrível é revelada cada vez que se faz uma promessa. Se a pessoa faz uma promessa e depois não a cumpre, cria um pequeno vácuo de energia em sua vida. Por causa destes vazios criados pelas palavras que dizemos e depois não realizamos, com frequência, nos sentimos desconfortáveis e insatisfeitos.
Hoje, tome cuidado para que as palavras que você coloca para fora sejam condizentes com a verdade do que você está fazendo. Se houver diferença entre as palavras e as ações, você está perdendo seu tempo. Tem muita gente que fala demais e faz muito pouco. Faça mais e fale menos.

SIMPLICIDADE


 Aos que buscam o extraordinário,
não o encontrarão em mim. 
Ele nunca me fascinou. 
Eu me encanto com as simplicidades dos dias,
quando um pássaro cruza meu caminho
ou o sol se põe como que conversando comigo.
Pequena que sou, 
as coisas grandes da vida pra mim são aquelas que passam despercebidas,
feitas para olhos delicados e corações atenciosos.
O cheiro de chuva molhando o chão, 
o barulho de um sorriso de criança, 
a brisa que nos toca com mãos de seda.
Um amor correspondido,
uma amizade que resiste ao tempo. 
Isso é o que me deslumbra. 
É o que faz a minha alma suspirar. 
Sou espírito de poucas necessidades.
(Rachel Carvalho)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

NATAL


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

O SEGREDO MAÇÓNICO ESOTÉRICO: O VERDADEIRO SEGREDO MAÇÓNICO



Na minha opinião, já hoje aqui o disse, o verdadeiro segredo maçónico vai muito além da discrição sobre identidades, modos de reconhecimento, rituais, cerimónias e trabalhos efetuados. Na minha opinião, o verdadeiro segredo maçónico, o que importa, o que releva, existe, não porque os maçons o queiram preservar, mas porque não o conseguem revelar. Porque é insuscetível de plena transmissão.
O verdadeiro segredo maçónico, aquilo a que muitos chamam de Palavra Sagrada ou, muito simplesmente, de Luz, é aquilo que o maçom aprende através do contacto com seus Irmãos, do convívio e busca de entendimento dos elementos simbólicos que a maçonaria profusamente coloca à disposição dos seus elementos, do método de análise, de trabalho, de esforço, de meditação, de extenuada conquista, passo a passo, degrau a degrau, patamar a patamar, sobre si próprio, a pulso desbastando suas imperfeições, despojando-se do interesse sobre toda a ganga material que obnubila os nossos espíritos, indo-se cada vez mais longe em épica viagem, com começo e fim no fundo de si mesmo e aí descobrindo a resposta que procura.
Esta busca, esta viagem, esta procura, tem um começo e um fim, mas nem um nem outro serão porventura os esperados. O começo será sempre depois do meio dia, a hora a que os maçons iniciam os seus trabalhos, quando cada um está efetivamente apto a começar a trilhar o caminho sem marcos, bordas ou fronteiras, que conduzirá não sabe onde. O fim, esse, tem hora marcada, aquela em que os maçons pousam as suas ferramentas, a meia noite. Como em muito do que tem valor, tão importante é o resultado como o trabalho para o obter, tão atraente é o destino, como o caminho que a ele conduz. E muito raramente o caminho mais curto entre o ponto de partida e o de chegada será uma reta...
Em bom rigor, duvido mesmo que haja apenas um verdadeiro segredo maçónico, um único segredo esotérico. Nesta altura do meu entendimento, propendo a considerar que cada maçom atinge a sua própria Luz - a deste com mais brilho, a daquele mais baça, a daqueloutro, qual bruxuleante chama de longínqua vela, mal se vendo -, cada maçon encontra e resgata a sua própria e individual Palavra Perdida - a de um bela e cristalina, a de outro sonora e estentória, a de um terceiro suave e quase inaudível murmúrio.
Cada um encontra o que procura e o que trabalha e se esforça por encontrar. Cada um encontra Segredos, Luzes, Palavras, diferentes ao longo da sua busca. Porque esta nunca termina. Cada resposta encontrada dá origem a novas perguntas, nascidas de mais lúcida compreensão, em perpétua evolução e aprofundamento de compreensão. É por isso que tenho para mim que eu não posso, não consigo, não sei, partilhar a minha Palavra, com mais ninguém, nem sequer com o meu mais chegado Irmão. Não só porque não consigo descrevê-la em toda a sua extensão e complexidade, como porque o mero enunciar do ponto do caminho em que me encontro me abre novos horizontes de busca, para lá dos quais nem sequer sei se não terei de pôr em causa e de reformular tudo ou parte do que me levou a percorrer esse preciso caminho, quer ainda porque cada viagem, mesmo a do meu mais mais chegado Irmão, seguiu rumos diversos dos meus, levando a linguagens distintas, a conceitos diferentes, a complexas variantes.
Cada um, em cada momento, encontra diferente Palavra, vê diversa Luz, preserva variado Segredo, porque cada um viaja para destinos diferentes: cada um viaja até ao fundo de si mesmo e cada um é todo um Universo diferente do parceiro do lado.
Nessa viagem, nesse trabalho, nessa busca, cada um procura coisa diversa. Eu só posso definir o que neste momento busco. Já me reconciliei - há muito! - com a finitude da vida neste plano de existência, já abandonei, por estulta e estéril, a busca do imenso porquê, a mim nunca me interessou particularmente interrogar-me sobre o cósmico como. Por agora, desde há muito e não sei até quando, concentro-me na busca do sentido da Vida e da Criação. Tenho uma ideia rude e imprecisa desse sentido. Busco o melhor ângulo para obter mais Luz. Espero que consiga obter o Brilho suficiente para, através do sentido da Criação, entrever o Criador... E tudo isto eu - neste momento - busco, em fantástica viagem, sem outro veículo que não eu próprio, não consumindo outro combustível senão tudo aquilo de que me interiormente despojo, sem outro destino e caminho senão o fundo de mim mesmo. Porque é o conhecimento de mim mesmo, em todas as complexas vertentes que condicionam o meu Eu, que me habilitará a conhecer o Outro, o Mundo e quem o criou e porquê e para quê e como. Eu sou a pergunta, a pergunta sem resposta, a pergunta buscando a resposta e, simultaneamente, a resposta contida na própria pergunta, que me levará a nova pergunta, que gerará nova resposta, em contínuo alargar de horizontes, que espero me permita entrever o que está para além do horizonte e contém todos os horizontes...
Confuso, não é? Pois é! Eu bem avisei que o segredo maçónico esotérico é aquele que existe porque não se consegue transmitir...
Rui Bandeira - Mestre Maçom
Excerto de Peça de Arquitetura lida em sessão no grau de Aprendiz da R:. L:. Mestre Affonso Domingues, n.º 5, em 13 de abril de 6011, E:. M:..
Texto completo: http://www.rlmad.net/rlmad-main/mmenu-pranchas/715-segredo-maconico-sp-906612108


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A LUZ DA CONSCIÊNCIA


“As ações liberam energias que criam condições favoráveis ou obstruções. O universo é governado por leis imparciais. Ao contrário das leis dos homens, elas não podem ser quebradas impunemente. Existe um perfeito equilíbrio nas forças do universo. Como tudo obedece às leis universais, não há opção para o aprendiz espiritual a não ser trabalhar para criar condições benéficas em si mesmo. Ninguém mais pode fazer isso por ele.

        Ao contrário dos falsos gurus, os verdadeiros adeptos dizem: ‘Preencha as condições.’ Esses instrutores podem parecer duros, mas na realidade são verdadeiros benfeitores. O guru que disser: ‘enquanto você se dedicar a mim, eu o protegerei’ está apenas enganando os discípulos.

         Um Mestre afirmou: ‘Seja puro e decidido na senda da retidão. Seja honesto e altruísta; esqueça de si e pense no lado bom das pessoas.’ Quem segue esses conselhos atrai atenção de um adepto. Dizem que, quando um Iluminado olha para o nosso mundo, que é escuro e triste, vê aqui e ali a Luz da Consciência dos puros e generosos, que esquecem seus próprios interesses pelos dos outros. Os adeptos repetidamente indicaram que somente a afinidade interna pode levar um aspirante até eles. A retidão e a generosidade são condições necessárias para chegar à porta e bater.”

Autoria: Rhada Burnier
Fonte: http://lojateosoficadharma.blogspot.com.br/2016/07/a-luz-da-consciencia-radha-burnier.html

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

TODO PRECONCEITO É ODIOSO

"Meu nome é Reverendo Joel Mbongi Kuvuna. Sou natural da República Democrática do Congo, estudante de doutorado na Universidade de KwaZulu-Natal na África do Sul e pastor da Igreja Protestante.
Lhe escrevo para expor o tratamento desumano que fui exposto em 21 de outubro de 2016, ao término do Seminário Internacional ocorrido em São Leopoldo, no Brasil. O encontro, intitulado “On becoming human-impacting communities: Gender-Race-Politics”, recebeu participantes das Faculdades EST (Brasil), Union Theological Seminary (EUA), University of Oslo, (Noruega) e University of KwaZulu-Natal (UKZN – África do Sul).
Quando retornávamos às nossas cidades de origem através do aeroporto Salgado Filho, de Porto Alegre, por volta de 17h, fui cruelmente humilhado pelo Departamento da Polícia Federal de Porto Alegre. Quatro policiais sem uniforme militar, mas fortemente armados, vieram na nossa direção extremamente furiosos e nos retiraram do setor de embarque: dois professores e dois alunos norte-americanos e eu, logo após o check-in. Nesse instante nos retiraram os passaportes violentamente, sem qualquer explicação, ordenando que os seguisse; nos instalaram em seu gabinete, onde insistiram que meus colegas norte-americanos me deixassem sozinho em uma sala separada. Neste momento finalmente entendi que eu era o alvo do episódio. Mas o que eu havia feito de errado? Minha única falha seria a de ser negro e portar um passaporte africano.
Quando meus colegas saíram da sala, os agentes abriram minhas bagagens e espalharam meus pertences, sem que eu pudesse perguntar o que havia de errado, dizendo apenas que eu ficasse calado. Fiquei traumatizado pelo ocorrido, pois eles demonstraram claramente seu desdém por mim enquanto verificavam minha bagagens. Quando um dos agentes encontraram minha loção, disse com desdém: “African lotion!”.
Então chamaram seu cachorro para me farejar. Ao não encontrar nada, me obrigaram a tirar toda a minha roupa e o forçaram a me farejar mais três vezes. Quanto mais os agentes não confirmavam sua expectativa, mais furiosos ficavam. Finalmente, após confirmar a inexistência de qualquer irregularidade, nada foi explicado a respeito do que estava sendo procurado e qualquer pedido de desculpas foi feito. Eles apenas disseram para que eu recolhesse as minhas coisas e saísse. Eu chorei como nunca antes, desde que me tornei adulto.
Por que fui tratado de modo desumano, como um animal, mantido em custódia, enquanto meus colegas me aguardavam do lado de fora? Ao perguntarmos que lei havíamos desrespeitado, um dos agentes respondeu “se vocês resistirem, nós queremos mostrar que estamos no Brasil”.
Eu tenho apenas uma hipótese para isso: quando os agentes viram os passaportes dos meus colegas, os retiraram imediatamente para que me esperassem do lado de fora. Meu tratamento foi em função da minha cor e minha origem. Sou africano e negro e espero uma explicação sobre o que fizeram comigo, pois mereço respeito como ser humano. A cor da minha pele não pode ser a razão para me denegrir. Foi uma conduta vergonhosa do Departamento da Polícia Federal de Porto Alegre.
Espero então uma explicação pelo que foi feito, pois as pessoas precisam ser tratadas com respeito. Todos os seres humanos precisam ser tratados dignamente. Os agentes sabiam que eu sou um aluno de doutorado e um reverendo.
Eu estava nu diante dos policiais, mas eles não estavam preocupados com isso. Fui farejado pelo seu cachorro, e tudo isso por causa da minha cor e minha origem.
Se queremos um mundo melhor, precisamos banir a violência e a opressão, tratarmos as pessoas com respeito, considerando que têm direito à dignidade, grande valor e potencial de fazer deste mundo um lugar melhor.
Minha razão de escrevê-lo foi para informá-lo acerca desse evento, e reside na esperança que o senhor acolha minha reclamação e leve até a polícia que me tratou dessa forma, para que tenham consciência da dor que provocaram em seu vergonhoso tratamento. Confio que a minha demanda será considerada e minha voz ouvida.
Peço ainda atenção às cartas das Instituições parceiras, que organizaram o presente evento (Union Theological Seminary, dos Estados Unidos e Faculdades EST, no Brasil), anexadas ao presente relato.
Saudações
Reverendo Joel Kuvuna
.oOo.
Com cópia para:
Vice-Reitor das Faculdades EST, Brasil
Universidade de KwaZulu-Natal, África do Sul
Union Theological Seminary, Estados Unidos
Universidade de Oslo, Noruega
Embaixada da República Democrática do Congo no Brasil
Embaixada do Brasil na República Democrática do Congo
Secretaria de Direitos Humanos no Brasil
Departamento da Polícia Federal do Brasil de Porto Alegre"
.oOo.
O Reverendo Joel Mbongi Kuvuna é Estudante de Doutorado da Universidade de KwaZulu-Natal, Pietermaritzburg, África do Sul.
Fonte: http://www.sul21.com.br/jornal/episodio-de-racismo-ocorrido-em-porto-alegre-por-joel-mbongi-kuvuna/

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Descenso al Interior de la Terra


Al comienzo mismo del rito de nuestra iniciación somos conducidos por el Hermano Experto a una pequeña y oscura estancia llamada la Cámara, o Gabinete, de Reflexión, dentro de la cual permanecemos encerrados durante un período de tiempo indeterminado, y antes de entrar por primera vez en el Templo. Al introducirnos en ella dicho Hermano nos dirige las siguientes palabras:
"Caballero, aquí es donde Vd. va a sufrir la primera prueba, que los antiguos iniciados llamaban la "prueba de la Tierra". A tal fin, es indispensable que se deshaga de toda ilusión y, para hacerse sensible materialmente a lo que debe ejecutar dentro de Vd. espiritualmente, le ruego me dé lo que lleva de valioso y, particularmente, todos los objetos de metal, que simbolizan lo que reluce con brillo engañoso... Ahora, Caballero, vais a ser abandonados a Vd. mismo, en la soledad, el silencio, y con esta débil luz. Los objetos y las imágenes que se ofrecen a su vista tienen un sentido simbólico y deben incitaros a la meditación."
Estas palabras son sumamente reveladoras acerca del significado de ese momento solemne de nuestra recepción. Ellas nos advierten de la necesidad de purificarnos de todas las ilusiones, egos y vicios que conforman nuestra errónea «personalidad», y que hemos ido adquiriendo en nuestro contacto con las «tinieblas exteriores» del mundo profano. Sin ese previo «despojamiento de los metales» –que crean una dura y gruesa costra alrededor de nuestro verdadero ser impidiendo que se manifieste– jamás podríamos recibir la influencia espiritual vehiculada por el rito y los símbolos de la iniciación, impidiendo así la posibilidad salvífica del renacimiento, de volver a nacer en un mundo nuevo bañado por una luz mucho más transparente y sutil: el mundo de las ideas y arquetipos emanados del Gran Arquitecto del Universo.
Pero, lógicamente, nadie podrá hacer ese trabajo por nosotros, razón por la cual somos abandonados a nuestra suerte, recogidos en la soledad y el silencio, encerrados en fin, en nuestra particular Cámara de Reflexión, y una vez allí morir a la condición profana. Ese acto o gesto interno de negación y muerte a un mundo y a una personalidad ficticia se vive simbólicamente (lo que por cierto hace válida y real esa experiencia) como un «regreso al útero» materno, o a la matriz de la tierra nutricia, es decir a un plano de concentración extrema donde «reflexionamos» sobre el sentido de nuestra existencia, sobre quién somos en verdad.
En realidad, la Cámara de Reflexión es lo mismo que el athanor, «huevo filosófico» u horno alquímico, símbolos todos ellos de la conciencia herméticamente cerrada a las influencias externas, y en donde, amparados en la íntima y generativa oscuridad, se lleva a cabo un proceso de cocción, fermentación, destilación, sublimación y finalmente transmutación de lo espeso en lo sutil, de lo terrestre en lo celeste. Este proceso, como sabemos, es el vivido por la semilla en su eclosión vertical hacia los espacios aéreos, o por el gusano de seda, que después de un tiempo encerrado en el capullo sale de él transmutado en mariposa, en un ser completamente otro, pasando de lo que repta a lo que vuela.
Esto que decimos está claramente ejemplificado por los diversos objetos, inscripciones e imágenes simbólicas presentes en la Cámara. Allí, depositados sobre una mesa, encontramos tres pequeños recipientes conteniendo azufre, mercurio y sal, los tres principios herméticos que simbolizan el espíritu, el alma y el cuerpo, respectivamente, lo cual nos sugiere la idea de que la Gran Obra iniciática incumbe al ser humano considerado en su totalidad, y no tan sólo en un aspecto o modalidad de ésta; una jarra con agua y al lado un trozo de pan, símbolos del agua de vida y del alimento espiritual que restituyen el «recuerdo» y fortalecen al candidato después de sufrir la primera muerte iniciática, expresada a su vez por el cráneo y las tibias cruzadas. Este es el estado que la Alquimia denomina nigredo, o «negro más negro que el negro» que señala la descomposición de la personalidad egótica. Pero esa descomposición o putrefacción contiene ya el germen del nuevo nacimiento, anunciado por el gallo, ave emblemática del dios Hermes, y cuyo canto proferido en lo más profundo de la noche avisa sin embargo de la proximidad del día y de la luz del Sol nacida en el Oriente. En este sentido, nos dice la Tradición que «cuando todo parece perdido, es cuando todo será salvado», pues después de descender, como Dante, a las profundidades del Infierno, no queda más remedio que ascender por el eje que une la Tierra y el Cielo. Y precisamente ese descenso y ese ascenso están sugeridos por las siglas V.I.T.R.I.O.L. que aparecen grabadas en una de las negras paredes de la Cámara. El significado de estas siglas alquímicas es bastante elocuente al respecto: «Visita el Interior de la Tierra y Rectificando Encontrarás la Piedra Oculta». La rectificación de que se trata tiene que ver con el cambio de «orientación» que se va produciendo en nosotros conforme progresamos «...por las vías que nos han sido trazadas», es decir, por la vía sagrada de la iniciación, lo que es simultáneo al despertar de nuestras potencialidades internas que nos conducirán a la obtención del Conocimiento, simbolizado por la Piedra Oculta (Filosofal) o Piedra Cúbica en punta del maestro masón.
Así, pues, sólo cuando el postulante sepa comprender – o asimilar en sí mismo – el mensaje de todos estos símbolos que se ofrecen a su meditación, habrá «superado satisfactoriamente la prueba de la Tierra, a la Gloria del Gran Arquitecto del Universo», y estará, por tanto, preparado para llamar a las «puertas del Templo», lo que hace una vez ha sido reducido a pura posibilidad de ser presta a recibir los efluvios emanados del resto de los elementos purificadores que determinarán su desarrollo y crecimiento interior: el Aire, el Agua y el Fuego.
Autores: Sete Mestres Maçons
NOTA
Este texto pertence ao livro Símbolo, Rito, Iniciación, publicado por Ed. Obelisco, Barcelona 1992, e posteriormente por Kier, Buenos Aires 2003 com o título Cosmogonía Masónica: Símbolo, Rito, Iniciación.
Fonte: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2016/11/20/descenso-al-interior-de-la-terra/

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

CONHECIMENTO E SABEDORIA


Dois discípulos procuraram um mestre para saber a diferença entre Conhecimento e Sabedoria.
O mestre disse-lhes:
Amanhã, bem cedo, coloquem dentro dos sapatos vinte grãos de feijão, dez em cada pé.
Subam, em seguida, a montanha que se encontra junto a esta aldeia, até o ponto mais elevado, com os grãos dentro dos sapatos.
No dia seguinte os jovens discípulos começaram a subir o monte.
Lá pela metade um deles estava padecendo de grande sofrimento: seus pés estavam doloridos e ele reclamava muito.
O outro subia naturalmente a montanha.
Quando chegaram ao topo, um estava com o semblante marcado pela dor; o outro, sorridente.
Então, o que mais sofreu durante a subida perguntou ao colega:
- Como você conseguiu realizar a tarefa do mestre com alegria, enquanto para mim foi uma verdadeira tortura?
O companheiro respondeu:
- Meu caro colega: ontem à noite cozinhei os vinte grãos de feijão.
É comum que se confunda Conhecimento com Sabedoria, mas essas são coisas bem diferentes.
Se prestarmos atenção, podemos verificar que a diferença é clara e visível.
O Conhecimento é o somatório das informações que adquirimos, é a base daquilo que chamamos de Cultura.
Podemos adquirir Conhecimento sem sequer vivermos uma experiência fora dos livros e das aulas teóricas.
Podemos nos tornar Cultos sem sairmos da reclusão de uma biblioteca.
Já a Sabedoria, por outro lado, é o reflexo da vivência, na prática, quer pela experimentação, quer pela observação, da utilização dos conhecimentos previamente adquiridos.
Para ser Sábio é preciso viver, experimentar, ousar, ponderar, amar, respeitar, ver e ouvir a própria vida.
É preciso buscar, sim, o conhecimento, a informação.
Deve-se atentar para não se tornar alguém fechado em si mesmo e no próprio processo de aprendizado.
Fazer isso é o mesmo que iniciar uma viagem e se encantar tanto com a estrada a ponto de se esquecer para onde se está indo.
E isso não parece ser uma atitude muito sábia.
Então, sejamos Sábios: vivamos, amemos e compartilhemos o que há em nossos corações!
E que saibamos cozinhar nossos feijões!...
Tenha um bom dia!!!

Autoria e fonte desconhecidas.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A DOUTRINA SECRETA DA MORTE


Ao abordarmos o tema a que nos propomos pode-se argumentar; o que pode falar alguém acerca da morte? Acaso alguém já retornou do que chamamos morte ? 
A essa pergunta responderemos com as palavras do Lama (Sacerdote Tibetano) Anagarika Govinda, que quando inquirido a esse respeito explicou:
Não há uma pessoa, na verdade, nenhum ser vivo, que não tenha retornado da morte. De fato, todos nós morremos várias mortes antes de virmos para esta encarnação. E aquilo a que chamamos nascimento é apenas o lado inverso da morte, como um dos dois lados de uma moeda, ou ainda como uma porta, que chamamos de “entrada” a partir do lado de fora, e de “saída”, a partir do lado de dentro de um quarto. É ainda mais surpreendente que nem todos se lembrem de sua morte anterior. E, devido a esse lapso de memória, a maioria das pessoas não acredita que tenha havido uma morte anterior. Mas também não se lembram de seu mais recente nascimento, embora não duvidem de terem nascido recentemente. Tais pessoas esquecem que a memória ativa é uma pequena parte de nossa consciência normal, e que nossa memória inconsciente registra e preserva cada impressão e experiência passadas de que nossas mentes despertas não conseguem se lembrar.” (Livro Tibetano dos Mortos, pág. XLIX – Edit. Pensamento)
Além do que foi dito acima, podemos acumular conhecimento a respeito da morte analogamente à forma como aprendemos a respeito da existência de um país distante. Poderíamos resumir esse aprendizado como se dando de três modos; primeiro podemos ter o relato da existência desse país, feito pelos seus próprios habitantes, o segundo modo seria ouvir falar a respeito dele por pessoas que viajaram até ele e ao voltarem nos descrevem os seus hábitos e costumes, o terceiro e último modo seria, ler livros, ver fotos, ou assistir a filmes, que podem ser documentários ou reportagens, sobre os acontecimentos nesse longínquo país.
No primeiro caso, poderíamos tomar conhecimento da existência após a morte, pelo contato com os habitantes dos diversos “mundos post-mortem”, que mais adequadamente poderíamos chamar de dimensões ou planos da existência. Aos contatos feitos com os habitantes dessas outras dimensões, costuma-se chamar de aparições, não que eles verdadeiramente apareçam do nada, a realidade é que já estavam ali, só não podíamos percebê-los, pois só somos capazes de perceber determinadas frequências vibratórias, e os habitantes de outras dimensões vibram em frequências que normalmente não podemos captar. O fenômeno da aparição se dá quando o chamado morto consegue alterar sua própria vibração a ponto de se tornar perceptível por nós, ou quando temos, mesmo que momentaneamente, a capacidade de captarmos vibrações acima do nível considerado normal. Durante o período que dura a aparição, ocorrem os relatos da “vida post-mortem”, feitos pelos próprios habitantes dos mundos, normalmente, além de nossas percepções.
No segundo caso de nosso exemplo, poderíamos citar os habitantes de nosso mundo, ou plano de existência, que desenvolveram a capacidade de “viajar”, com sua consciência até outros planos, além desse que habitamos. Nesse segundo caso se encontram a maioria dos médiuns e projeciologistas, que realizam a viagem ou projeção intencionalmente, estando também incluídos nessa categoria, a maioria das pessoas que ao se deitarem para dormir, todas as noites, viajam inconscientemente, pelos vários planos que explicaremos mais adiante. Nesse estado de sonho, é que se dá o contato com os seres do “outro mundo”. Quando essas pessoas retornam do seu sono ou de seu transe, conforme for o caso nos falam do que viram e ouviram.
Vale ressaltar que não ocorre nenhuma viagem, ninguém vai a lugar algum, o que ocorre é um fenômeno de consciência, muito semelhante ao processo de sintonizarmos um rádio numa determinada estação, as ondas que passamos a captar sempre estiveram ali, naquela frequência, apenas ajustamos o nosso aparelho e passamos a captá-las. Alguns médiuns ou parapsicólogos que desconhecem esse mecanismo, poderão afirmar que realmente realizam “viagens astrais”, ou coisas similares, sem levarem em conta que o tempo e o espaço, tal qual conhecemos, são atributos da consciência neste plano em que vivemos. Um exemplo será melhor para esclarecermos o que queremos dizer, quem já não sonhou que passou muito tempo, dias, ou até mesmo anos, no qual ocorreram várias acontecimentos e quando acordou percebeu que apenas algumas horas haviam transcorridos? Outras vezes se dá o contrário, nos deitamos e após o que nos pareceu alguns segundos, despertamos e vemos espantados, que dormimos toda uma noite. O tempo e o espaço são relativos, cada mundo ou dimensão tem suas próprias referências.
No Terceiro e último caso do nosso exemplo de como acumular conhecimento acerca da morte, que é o de uma pessoa que assiste a um filme a respeito de um país longínquo, poderíamos enquadrar as pessoas que são capazes de ver com certa continuidade, fatos e habitantes de outro plano da existência, sem perderem a consciência no plano físico, podendo em alguns casos “ligar” ou “desligar”, esse processo ao seu bel-prazer. Essa capacidade possibilita a essas pessoas por assim dizer “viverem em dois mundos”, nesse último grupo é onde encontram-se os chamados Mestres e Adeptos, que muitas revelações trouxeram a humanidade encarnada. Nesse grupo também existem pessoas que por “acidente”, destrancaram as portas do subconsciente, e passaram a perceber o oculto. Sem a compreensão necessária para isso, muitos desses infelizes enlouquecem, quando não conseguem fechar novamente os portões que a natureza mantinha selados, para serem abertos em uma época em que esses seres, já amadurecidos teriam uma melhor compreensão do oculto. Enfim é das pessoas desse último grupo, que são capazes de perceber múltiplos planos simultaneamente, é que se pode colher alguns relatos mais precisos e esclarecedores, pois eles podem descrever o que percebem, como alguém que tece comentários a respeito de uma peça de teatro, muitas pessoas com essa características escrevem ou falam a seus discípulos sobre a realidade que contemplam. Para a consciência destes seres, a morte simplesmente não existe, enquanto estão conosco, vivenciam a realidade póstuma e quando chega o seu momento, despem-se dos seus corpos como quem troca de roupa.
Baseado no relato desses três grupos, em algumas poucas experiências pessoais e nos ensinamentos da Sabedoria Iniciática das Idades é que nos baseamos para elaborar o presente estudo.
As crenças da humanidade e os mundos post-mortem
Para compreendermos melhor os mistérios dos mundos post-mortem, é imprescindível, entendermos que aquilo em que acreditamos influencia nas camadas do que chamamos inconsciente coletivo e quanto maior o número de pessoas que acreditam em determinada coisa, mais ela tende a ser plasmada, nos planos mentais e astrais, a ponto de em alguns casos objetivar-se no plano físico. Partindo desse conhecimento, poderíamos, dizer que as crenças humanas modificam de certa forma as “paisagens” dos planos mentais e astrais, gerando nestas dimensões sons, cores e formas em harmonia com os nossos sentimentos e pensamentos.
Além disso, as crenças inculcadas em nossa mente desde criança, acabam por dominar por completo nossa consciência, entrando na composição de nossos corpos sutis. Se, por exemplo, acreditamos em deleites e sofrimentos a serem experimentados na existência post-mortem, em céu, inferno, anjos, demônios, etc…, essas crenças provocarão deliciosas fantasias e sofrimentos infernais a serem experimentados por aqueles que verão suas expectativas mais íntimas tornarem-se realidade ao desencarnarem.
De acordo com o exposto, podemos concluir que as experiências póstumas nos mundos interiores de um kardecista, diferem do que será vivenciado por um católico, cada uma sendo composta do conteúdo psíquico com que foi alimentada a consciência do morto.
Devemos levar também em consideração, os ensinamentos milenares quando nos falam que o homem não deixa de ser aquilo que é imediatamente após a morte, ou seja a pessoa não perde imediatamente suas características psicológicas imediatamente, assim, sendo um protestante não deixará de ser protestante, imediatamente após sua morte. O processo de “desidentificação”, dependerá muito do nível de compreensão de cada um a respeito do que está realmente lhe acontecendo.
Cada religião alimenta em seus seguidores determinadas expectativas em relação ao mundo dos mortos, e devido ao fato dos desencarnados continuarem na vida psíquica, a possuir tais crenças e necessidades, é compreensível o caso de uma alma católica que necessita que se reze uma missa em sua memória, para que possa descansar no “purgatório”, como lhe foi ensinada em vida. Sua crença de que só assim poderá ter paz, poderá levá-la. a desencadear fenômenos de aparição, solicitando a realização da missa. Já no caso de uma alma seguidora do hinduísmo, esta exigirá um rito hindu, para que, como lhe foi ensinado em vida, possa ser criado seu novo corpo em substituição ao que foi destruído na pira funerária.
Além de nos depararmos com nossas próprias criações, ao desencarnarmos somos defrontados, de acordo com nossa afinidade, com as criações psíquicas que dominam as mentes da massa da humanidade. Portanto devemos nos esclarecer, acerca das características da existência nos mundos interiores, pois neles conforme forem os nossos pensamentos, temores e expectativas, assim serão os nossos primeiros contatos com os mundos invisíveis.
O processo da morte
Apesar de em nossa civilização a existência além da vida ser considerada ficção, fazendo parte daquilo que os cientistas chamam de fantasia ou superstição, outros povos que desenvolveram grandes civilizações que lograram avanços, não tanto no mundo exterior como faz a civilização ocidental, desenvolveram-se em outro sentido, em direção aos mundos interiores, em busca dos universos contidos dentro do ser humano. Os sábios dessas civilizações, verdadeiros pesquisadores da consciência, apoiados no tríplice suporte formado pela religião, pela ciência e pela arte, tornaram-se verdadeiros cosmonautas de mundos que só podem ser atingidos pela introspeção. Lograram ultrapassar os portões da morte e travar relações com seres, aos quais chamamos deuses, anjos e demônios.
Parte dos segredos dessa ciência verdadeiramente hermética, foi registrado pelos egípcios no Pert em Hru, nome que poderíamos traduzir por “O surgir do dia”, conhecido no mundo acadêmico como “O Livro dos Mortos”. Outros povos também deixaram compilações a respeito desse importante assunto, porém nenhum povo deixou uma codificação mais clara e precisa do que o povo Tibetano, místico por natureza, eles registraram suas experiências nesse campo no livro conhecido como Bardo Thodol, que poderíamos traduzir aproximadamente por, “Libertação pela audição no plano post-mortem”, essa coletânea de conhecimentos passados de boca para ouvido, compilados no século VIII d.C., pelo mestre Padmasambava, seria o livro dos mortos tibetanos.
Segundo os ensinamentos contidos no Bardo Thodol, da mesma forma que existe uma arte de viver, existe uma arte de morrer, e o momento mais importante da existência, é o momento de sua passagem, momento em que o indivíduo precisa de paz e tranqüilidade; tão delicado como no nascimento. Nessa ocasião a pessoa deve estar o mais consciente possível a respeito do que está lhe ocorrendo e não adormecido, sobre o efeito de drogas e sedativos, que faz com que a grande maioria dos moribundos não saiba o que esta lhes ocorrendo. Isso, promoveria a perda da grande oportunidade de saírem do roda de nascimentos e mortes, da Roda de Sansara, a que todos os seres encarnados estão submetidos.
Segundo o livro dos mortos tibetanos, durante a morte a percepção do que acontece no exterior vai sendo substituída pelo aumento da percepção do que acontece em nosso interior. O primeiro dos fenômenos mais marcantes que o indivíduo percebe é uma luz clara, branca, que lhe aparece através de um túnel. Segundo os tibetanos, esse fenômeno se dá, por que a energia vital, conhecida como Kundaline, que encontra-se na base da coluna vertebral, emite sua primeira irradiação, no seu processo de abandono do corpo.
Essa primeira irradiação percorre um dos três canais etéricos localizados na coluna, conhecidos por Nadis, abrindo caminho do Chacra Raiz, situado na região do cóccix, até o centro de força situado no alto da cabeça, por onde deixará o corpo.
Quando essa primeira irradiação da energia vital, passa pelo centro de força situado no peito, conhecido como Chacra Cardíaco, o moribundo percebe uma luz brilhante surgindo no fim de um túnel. Isso acontece por que durante a morte a consciência é transferida para o Chacra Cardíaco, que é onde reside a essência do ser, onde vibra o chamado átomo primordial, por isso quando a energia vital passa por esse chacra, o indivíduo tem a impressão de ver uma luz brilhando através de um túnel (o Nadi da coluna vertebral que está ativado no momento).
A esse primeiro aparecimento da luz brilhante e diáfana os iniciados chamam de primeira apresentação. Se durante essa irradiação o indivíduo for capaz de unir-se a luz, fundindo sua consciência individual à sua vitalidade, no microcosmo de seu corpo, atingirá o estado vibracional do Sol Central macrocósmico, fundindo-se a ele, que em absoluto repouso é o plano da existência eterna, que vibra no centro da roda de nascimentos e mortes.
Se, no entanto, o indivíduo por medo, não conseguir fundir-se a essa luz brilhante, esta desaparecerá, e o ser mergulhará num estado de sonolência, até a chamada segunda apresentação, que ocorre quando mais uma vez, outra parcela da energia vital irradia-se através da coluna vertebral, por um dos dois canais etéricos restantes. Essa segunda parcela de energia liberada pelo Chacra Raiz, desperta as formas pensamento, que foram geradas pela pessoa durante sua vida, e essas formas pensamento “saltam diante deste”. Durante essa experiência, seus pensamentos e sentimentos, bons, assumem formas, bondosas e belas, de santos, parentes desencarnados, etc., que com seus conselhos nos confortam.
Durante esse período toda a câmara cardíaca é permeada pela luz da segunda emanação, que como um perfume sutil pode não ser percebida, em meio aos estímulos gerados pelas formas de pensamento que lhe invadem a consciência, mas se o moribundo for capaz de entender que essas visões não passam de criações psíquicas dele mesmo e não se fixar nessas imagens, o ser consciente poderá tentar perceber a luz brilhante nessa segunda tentativa. Se ele não for capaz de realizar isso, as formas benévolas serão sucedidas pelas formas aterradoras, que representam seus desejos e pensamentos violentos, egoístas, de ódio, de ambição, etc. Mesmo diante dessas imagens ameaçadoras, o iniciado não se abalará, mantendo-se em estado de meditação, de tranqüilidade e harmonia, no estado de consciência chamado pelos místicos de Dhiana, que poderá promover sua integração interna e libertá-lo do ciclo de encarnações. Cabe dizer que, essa libertação só será possível após o indivíduo ter concluído seu aprendizado na terra, tendo reunido valores que o possibilitem atingir o estado de meditação profunda, o estado de Dhiana.
Se, porém, o moribundo não conseguir fundir-se a segunda emanação, reintegrando-se a natureza prístina, a consciência é atraída pelos centros de força inferiores, ligados a sentimentos e pensamentos altamente materialistas, que vão envolvendo o ser com imagens hedonistas normalmente ligadas as suas fraquezas, que o arrastam para uma espécie de pesadelo.
Por fim, o ser mergulha num estado de inconsciência, que é alternado por períodos conscientes, carregados de imagens que pululam no inconsciente coletivo, ligadas a seus condicionamentos. Esse período tem duração relativa, pois como já dissemos, o passar do tempo no plano astral difere do seu transcorrer no plano físico. Alguns dias no plano físico podem parecer eternidades no astral e centenas de anos no físico podem representar segundos no astral. Assim a personalidade vai se dissolvendo em meio as ilusões do plano astral.
Posteriormente, ao penetrar no plano mental, ela é envolvida pelos condicionamentos mentais. O indivíduo fica nesse estado semiconsciente até que a personalidade se desintegre totalmente e a energia vital, numa terceira e última irradiação, seja absorvida pela mônada.
Vale esclarecer, que o que é absorvido pela mônada, é a essência espiritual, o átomo primordial, a verdadeiro Homem: Uno, Trino e Indivisível, pois nesse ponto a personalidade, não mais existe. Esse átomo primordial, a essência que animava a personalidade, é reintegrado à mônada para que seja revitalizado, e novamente “enviado” a face da terra, quando houver uma nova oportunidade de aprendizado, quando serão reconstruídos seus veículos mentais e emocionais, sendo atraída por fim, para dentro de um útero, para reconstruir um corpo físico.
Todo o trabalho da iniciação, todo o trabalho de uma Escola Iniciática, é no sentido de preparar o discípulo para a morte, para o momento em que ele terá a oportunidade de se iluminar, através da integração com sua essência.
É importante ressaltarmos, que durante a vida terrena, isso poderá ocorrer, o indivíduo devidamente preparado poderá iluminar-se, fundindo sua consciência à sua vitalidade, atingindo um nível vibracional que o possibilite integrar-se ao seu verdadeiro Ser, o Sol Central, do qual ele é apenas um dos raios.
Dessa forma existem seres na terra que são verdadeiras expressões da Divindade entre nós e como tal, são reconhecidos pela natureza e pelas pessoas com sensibilidade para tal. Estes são os chamados iluminados, seres que em vida viram a luz brilhante de seu eu interno, e nela estabeleceram o centro de sua existência.
O indivíduo deve durante a sua vida terrena, preparar-se para a morte, sem exageros mórbidos, mas com seriedade, consciente de que assim como nascemos, todos passaremos por ela , entendendo que todo o apego, toda resistência à mudança, só produz sofrimento e decepções, pois a vida é um fluxo e a tentativa de deter esse fluxo por mero capricho, nos coloca em oposição as Leis Universais. O ser tem que ser capaz de desapegar-se de situações e pessoas, tornando-se flexível em seus conceitos, como uma criança, aprendendo, modificando-se, fluindo como um rio. Poderíamos dizer num sentido psicológico, morrendo e nascendo, transformando-se a cada dia.
Somente se pudermos compreender isso, seremos capazes de entender a chave iniciática contida nas palavras de São Francisco de Assis, quando dizia que “…é morrendo que se nasce para a vida eterna” ou a declaração proferida pelo Faraó, no final da quinta etapa da iniciação egípcia, “Sebek Ur Sebek” – “Só a morte pode vencer a morte”.
 Autor: Márcio Homem
Fonte: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2015/06/11/a-doutrina-secreta-da-morte/