domingo, 5 de abril de 2015

A SABEDORIA DO TAO


Pense no que vai dizer antes de abrir a boca. Seja breve e preciso, já que cada vez que deixa sair uma palavra, deixa sair uma parte do seu Chi (energia). Assim, aprenderá a desenvolver a arte de falar sem perder energia.
Nunca faça promessas  que não possa cumprir. Não se queixe, nem utilize palavras que projetem imagens negativas, porque se reproduzirá ao seu redor  tudo o que tenha fabricado com as suas palavras carregadas de Chi.
Se não tem nada de bom, verdadeiro e útil a dizer, é melhor  não dizer nada. Aprenda a ser como um espelho:  observe e reflita a energia. O Universo é o melhor exemplo de um espelho  que a natureza nos deu, porque aceita, sem condições,  os nossos pensamentos, emoções, palavras e ações, e envia-nos  o reflexo da nossa própria energia  através das diferentes circunstâncias  que se apresentam nas nossas vidas. Se se identifica com o êxito, terá êxito. Se se identifica com o fracasso, terá fracasso.
Assim, podemos observar que as circunstâncias que vivemos são simplesmente manifestações externas do conteúdo da nossa conversa interna.
Aprenda a ser como o universo, escutando e refletindo a energia  sem emoções densas e sem preconceitos. Porque, sendo como um espelho, com o poder mental tranquilo e em silêncio, sem lhe dar oportunidade de se impor com as suas opiniões pessoais, e evitando reações emocionais excessivas, tem oportunidade de uma comunicação sincera e fluida.
Não se dê demasiada importância, e seja humilde, pois quanto mais se mostra superior, inteligente e prepotente, mais se torna prisioneiro da sua própria imagem e vive num mundo de tensão e ilusões. Seja discreto, preserve a sua vida íntima. Desta forma libertar-se-á da opinião dos outros e terá uma vida tranquila e benevolente invisível, misteriosa, indefinível, insondável como o TAO.
Não entre em competição com os demais, a terra que nos nutre dá-nos o necessário. Ajude o próximo a perceber as suas  próprias virtudes  e qualidades , a brilhar. O espírito competitivo faz com que o ego cresça e, inevitavelmente, crie conflitos. Tenha confiança em si mesmo. Preserve a sua paz interior, evitando entrar na provação e nas trapaças dos outros.
Não se comprometa facilmente, agindo de maneira precipitada, sem ter consciência profunda da situação. Tenha um momento de silêncio interno para considerar tudo que se apresenta e só então tome uma decisão. Assim desenvolverá a confiança em si mesmo e a Sabedoria.
Se realmente há algo que não sabe, ou para que não tenha resposta, aceite o fato. Não saber é muito incomodo para o ego, porque ele gosta de saber tudo, ter sempre razão e dar a sua opinião muito pessoal. Mas, na realidade, o ego nada sabe, simplesmente faz acreditar que sabe.
Evite julgar ou criticar. O TAO é imparcial nos seus juízos: não critica ninguém, tem uma compaixão infinita e não conhece a dualidade. Cada vez que julga  alguém, a única coisa que faz  é expressar a sua opinião pessoal, e isso é uma perda de energia, é puro ruído. Julgar é uma maneira de esconder as nossas próprias fraquezas. O Sábio tolera tudo sem dizer uma palavra.
Tudo o que o incomoda nos outros é uma projeção do que não venceu em si mesmo. Deixe que cada um resolva os seus problemas e concentre a sua energia na sua própria vida. Ocupe-se de si mesmo, não se defenda.
Quando tenta defender-se,  está a dar demasiada importância às palavras dos outros, a dar mais força à agressão deles. Se aceita não se defender, mostra que as opiniões dos demais não o afetam, que são simplesmente opiniões, e que não necessita de convencê-los para ser feliz.
O seu silêncio interno torna-o impassível. Faça uso regular do silêncio para educar o seu ego, que tem o mau costume de falar o tempo todo. Pratique a arte de não falar. Tome algumas horas para  abster-se  de falar. Este é um exercício excelente para conhecer e aprender o universo do TAO ilimitado, em vez de tentar explicar o que é o TAO.
Progressivamente desenvolverá a arte de falar sem falar, e a sua verdadeira natureza interna substituirá  a sua personalidade artificial, deixando aparecer a luz do seu coração e o poder da sabedoria do silêncio. Graças a essa força, atrairá para si tudo o que necessita para a sua própria realização e completa  libertação.
Porém, tem que ter cuidado  para que o ego não se infiltre… O Poder permanece quando  o ego se mantém tranquilo e em silêncio. Se o ego se impõe e abusa desse Poder, este converter-se-á num veneno, que o envenenará rapidamente.
Fique em silêncio,  cultive o seu próprio poder interno. Respeite a vida de tudo o que existe no mundo. Não force, manipule ou controle o próximo.
Converta-se no seu próprio Mestre e deixe os demais serem o que têm a capacidade de ser. 

sábado, 4 de abril de 2015

NÃO RIA....SE PUDER


Ir.'. Inocencio de Jesus Viégas 

         O Presidente do Conselho de Kadosch de Brasília, Irmão Etelvino, encomendo-me um trabalho para ser apresentado no dia da elevação ao Grau 30. No dia determinado, estava eu cumprindo com a solene obrigação. O Delegado Litúrgico, Irmão Jacobina, solicitou a peça de arquitetura para possível publicação no Boletim do Supremo Conselho.

         O prestimoso secretário da Delegacia, Irmão Artur de Moura enviou prancha ao Supremo remetendo o trabalho e, na mesma correspondência comunicou o falecimento do Irmão Nicolas, o grego. Para surpresa de todos, o Boletim n.º 191 de Julho e Agosto de 1994 do Supremo Conselho do Brasil não publicou o “trabalho”, mas trazia na sua página 8, “Coluna Fúnebre”, a relação dos Irmãos falecidos e, entre eles, estava o meu nome completo – INOCÊNCIO DE JESUS VIÉGAS. A notícia através do Boletim espalhou-se pelo Brasil e não demorou muito, os velhos amigos e conhecidos passaram a expressar suas condolências à suposta viúva.

Telegramas e cartas de vários Estados e de lugares por onde morei quando era militar do Exército. Entre essas demonstrações de solidariedade, umas curiosas, merecem destaque. Um velho Irmão demonstrava o seu pesar e ao mesmo tempo desejava comprar alguns livros de minha biblioteca.

Outro, também viúvo, oferecia seus préstimos à “viúva” e deixava transparecer nas entrelinhas, o desejo de continuar o meu trabalho ao lado dela, não por questão de sexo, mas pela convivência, pois a solidão é muito dolorosa. Mais outro Irmão de uma cidade do interior, velho companheiro de farda, comunicou em carta o meu comparecimento a uma sessão espírita, onde havia deixado psicografada uma linda mensagem encorajadora, a todos os Irmão.

A Delegacia Litúrgica de Brasília, ao descobrir o grande erro, escreveu ao Supremo Conselho, pedindo providências no sentido de retificar a referida publicação, o que de pronto foi atendida com pedido de mil desculpas. Até aí tudo bem, levamos o caso em brincadeira.

Um dia, um Irmão do Oriente de Boa Vista (RR), o Raimundo, de passagem por Brasília, vem visitar a minha Loja, a Jeremias Pinheiro Moreira, e em conversa, declinou ser filho da Loja 20 de Agosto, daquela cidade. Logo me lembrei de dois velhos Irmãos, O Rocha e o Norberto, que por sinal é o Delegado do Grão-Mestre naquele Estado e, como estava devendo um grande favor ao Norberto, aproveitei o Irmão Raimundo para levar-lhe um presente. Autografei um livro e mandei ao Norberto. Isso era Outubro de 1994.

O Norberto recebeu o presente, ficou feliz e logo em seguida, recebeu o Boletim do Supremo, referente aos meses Julho e Agosto de 1994 e lá encontrou o meu nome como tendo falecido em Agosto. O Norberto, entre arrepios, não entendia como um morto em Agosto oferecia e assinava um livro em Outubro. Ligou imediatamente para o Irmão Fagundes, Grande Secretário da Guarda dos Selos, pedindo informações sobre meu falecimento. O Fagundes logo informou ser um mal entendido. O Norberto não conformado, pediu o meu telefone e ligou para a “viúva” que lhe confirmou que eu estava vivo.

Mas o pior ainda estava por acontecer. Um belo dia, de passagem por uma cidade do interior, a mando da empresa à qual presto serviços, e lá, desejei visitar à noite a Loja onde eu sabia ter um velho companheiro de caserna. Fui, e ao chegar à Loja, notei que era tarde e já estavam trabalhando.

Mesmo assim, bati como de costume e recebi como resposta a ordem para esperar. Logo veio o Primeiro Experto com o Livro para colher a assinatura e levar a Identidade Civil e a Maçônica para o Orador conferir.

 Vou relatar aqui, o que ocorreu lá dentro e que me foi contado pelo laborioso Secretário, que a tudo viu e gravou em sua longa ata.

Chega o Experto com o Livro e as Identidades. Entrega ao Orador. O velho Guardião da Lei lê atentamente. Logo empalideceu ao descobrir um grande acontecimento e quase sem poder falar, olhou para o Venerável e balbuciou algumas palavras imperceptíveis. O Venerável pediu gentilmente ao Orador repetir um pouco mais alto. O Orador recobrando as forças disse:
__Venerável Mestre, algo anormal esta acontecendo”. Esse Irmão que bate à porta do nosso Templo, é o falecido Inocêncio, a quem na última sessão, prestei solene homenagem pelo seu passamento, agora, diante de seus documentos, não sei o que fazer. Quero a ajuda de algum Irmão entendido em coisas do outro mundo, para clarear essa fantasmagórica situação.

O Mestre de Harmonia diante do caso, querendo colaborar com a ocasião, colocou em surdina a Marcha Fúnebre de Mozart. Aprendizes e Companheiros admirados e congelados esperavam o desfecho. Todos os Irmãos passaram a ter arrepios e o medo era geral.

Um dos Irmãos se dizendo entendido nesse assunto, ofereceu-se para assumir o comando da situação e passou a pedir calma a todos os Irmãos. Fechou os olhos, respirou ofegante, estendeu os trêmulos braços na horizontal e falou com voz rouca:
__O Irmão Inocêncio veio pedir luzes. Você Irmão Orador, o elogiou bastante na sessão passada e ele quer agradecer. Pensa que está materialmente entre nós. Deixai que entre.

         Eu lá fora inquieto com tanta demora, resolvi ir ao banheiro. Nisso a porta se abre e o Cobridor não me vê na sala. Morrendo de medo, imediatamente fechou-a e anunciou:
__Irmão Primeiro Vigilante, o fantasma foi embora!

Com o abrir da porta, parei o que estava fazendo e voltei imediatamente pensando em entrar e logo vi a porta fechada. Esperei um pouco, fiquei de costas para a dita porta, olhando as fotografias dos futuros irmãos que estavam coladas nos Editais.

Abre-se a porta outra vez, era o Mestre de Cerimônias que espiava só com um olho. Voltei a cabeça e esbocei um sorriso e a porta foi fechada incontinente. Bom, já que não vou entrar –pensei – vou terminar o serviço que bruscamente havia interrompido e fui para o banheiro outra vez.

 Dentro do Templo o Mestre de Cerimônias informava que eu estava lá fora. O Cobridor sem acreditar, imediatamente abra a porta e mais uma vez nada vê. Aí pirou de vez.

         A O suposto médium passa a consolar o Cobridor dizendo-lhe que ele não era vidente e por isso não conseguia ver o espírito do Irmão, mas que fizesse um esforço concentrado que logo conseguiria. Nisso um Irmão pede a palavra pela ordem e solicita ao Venerável, retirar do Templo os Aprendizes e Companheiros, que ainda não se achavam em condições de assistir esse encontro de um morto, com os vivos em Loja. Aprovada a solicitação, o Venerável pede ao Mestre de Cerimônias retirar os Aprendizes e Companheiros.

Logo, um nervoso Companheiro pede a palavra antes de cumprir a ordem do Venerável e questiona que não era justo sair e ter que ficar na sala dos p. p. com o defunto. Todos concordaram com a ponderação e o Venerável revogou a ordem. Contornada a situação, o Venerável pede ao Mestre de Harmonia a execução da música mais suave para receber o Irmão.

Finalmente abre-se a porta, a música suave da Ave Maria me deixa emocionado. Entrei, fiz o que normalmente se faz e esperei a ordem do Venerável para tomar assento. O silêncio dominava a cena. O Venerável disse:
__Vinde saudoso Irmão ao encontro dos seus Irmãos que emocionados, lamentam a vossa desencarnação”. Acomodai-vos no Oriente onde é o vosso lugar.

Saí, passo a passo, meditando aquelas palavras. Logo reconheci o velho Irmão que era o Orador e olhei para ele com ar de riso. Ele fechou os olhos e abaixou a cabeça tristemente. O Venerável olhando-me bem firme disse:
__O pranteado Irmão vem deixar a sua mensagem, estamos prontos, podeis fazer uso da palavra se esse for o vosso desejo.

Lá fora chovia bastante e podíamos ouvir vez por outra, o ribombar dos trovões e ver o clarão dos relâmpagos. Coincidência ou não,quando levantei para fazer uso da palavra, uma enorme claridade iluminou tudo e um ensurdecedor barulho de trovão nos deixou estarrecidos.

A luz elétrica imediatamente se apagou , ficando apenas as luzes tímidas das velas a iluminar o recinto ao mesmo tempo em que a gritaria na Loja foi desesperadora. Todos querendo sair ao mesmo tempo, uns caindo sobre os outros, pisotearam o Cobridor que jazia inerte todo amarfanhado e foi imediatamente arrastado para fora por um irmão mais corajoso.

         A Fiquei só, dentro da Loja. Em vista disso, também com as pernas trêmulas depois de tanto susto, aproveitei para sair da Oficina e nisso ouvi um grito vindo lá de fora:
__Lá vem a alma penadaaaaa!

E a correria rumo ao portão da frente foi geral e só alguns “sem pernas” ficaram na Sala dos P.P. Só aí, depois de ter sido chamado de alma penada, pude entender todo aquele desespero dos irmãos e imediatamente tratei de esclarecer o que realmente acontecera que eu estava vivo, e que foi um erro de publicação do Boletim e que já estava sendo retificado.

         A maioria tinha ido embora para casa não sei como. Inclusive o Orador, o meu velho amigo. Nisso volta o falso médium e ainda ressabiado, olha para dentro e sem entender aquele silêncio, brada com a voz enérgica dos doutrinadores:
__Irmão do além”! Já passa da meia noite! A vossa hora terminou. Ide em paz e o Senhor vos acompanhe!

O Venerável, um nordestino bem bravo, olha para o falso médium e diz:
__Deixa de ser mole, cabra da peste”! Olha a tua calça como está toda molhada, e pelo visto não é água chuva não! Não está vendo que o Irmão esta vivo!

A gargalhada foi geral. O Venerável pediu mil desculpas e como um bom apreciador das boas coisas, convidou a todos para comemorar a minha “ressurreição”. E disse mais:
__Quem correu, perdeu o gostoso vinho e rir a vontade dos “corajosos Irmãos” que jamais esquecerão o defunto visitante”.

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

UMA LOJA REGULAR

Segue abaixo um manifesto da GLADA, que é esclarecedor sobre a questão da pretensa irregularidade da maçonaria mista e feminina, embora já 10 anos tenham se passado desde sua redação sem que a realidade tenha se alterado.

MANIFESTO DA GLADA: GRANDE LOJA ARQUITETOS DE AQUÁRIO

Redigido ao Oriente de São Paulo, em 20 de novembro de 2005

Às Potências Maçônicas Brasileiras,

Às Potências amigas,

À C:.I:.M:.A:.S:. Confederação Interamericana de Maçonaria Simbólica;

À CATENA, Instituição Internacional de Potências Mistas;

Ao C:.L:.I:.P:.S:.A:.S:. – Centro de Ligação e Informação das Potências signatárias do apelo de Strasburgo e à

Ao C:.L:.I:.M:.A:.F:. - Centro de Ligação Internacional das Maçonarias Femininas Aos Irmãos e Irmãs da GLADA e do Brasil em geral:

Vimos assistindo nestes últimos dias, através da internet, uma verdadeira enxurrada de denúncias caluniosas envolvendo maçons do sexo feminino, a Grande Loja Feminina da Maçonaria Brasileira, com sede em Mato Grosso, sua Grã-Mestra (Gassy Botelho) e seus representantes.

São ataques visivelmente destinados a enxovalhar, baseados em argumentos absurdos, cheios de sofismas, que mais parecem uma perseguição orquestrada por inimigos pessoais ou “plantados” para servirem de “munição”.

Vejamos os lamentáveis fatos:
Começam “acusando” um parente da Grã Mestra (Alexandre Botelho), de fabricar alfaias e vendê-las para as irmãs... Estarão, neste caso, cometendo algum crime ou contravenção todas as oficinas de alfaias maçônicas do Brasil, uma vez que todas são propriedade de maçons de potências masculinas?

Em seguida, “acusam” a Potência Feminina de cobrar Taxa de Iniciação. Talvez devessem os acusadores processar, então, o Grande Oriente do Brasil, as Grandes Lojas Estaduais, assim como todas as potências independentes do Brasil – e de todo o mundo -- pois todas, sem exceção, cobram taxas de Iniciação, uma tradição que remonta ao Egito, para uma cerimônia onerosa que envolve os obreiros de toda uma Loja ! Todos nós maçons sabemos que existem Lojas que cobram taxas elevadíssimas.

A próxima acusação – a mais absurda, a mais revoltante, a que mais demonstra a ignorância, a falta de cultura maçônica e a falta de cidadania – é a de que NÃO EXISTE MAÇONARIA FEMININA -- e portanto as Lojas femininas estão cometendo estelionato (SIC) ao iniciarem Irmãs !

Uma afirmação como esta, quando vem de um não-iniciado, ainda podemos entender, pois velhos inimigos da Maçonaria sempre espalharam as mais pitorescas mentiras sobre a Instituição, e o povo não instruído se deixa levar. Mas é simplesmente inadmissível que um maçom, vivendo no século 21, ainda ignore um fato onipresente no mundo atual, e tão intensamente divulgado, seja na mídia comum, seja na literatura maçônica. Se esta é a cultura maçônica que se ensina nas Lojas masculinas, concluímos, com profunda lástima, que a Maçonaria tradicional está em franca decadência.

O grande “acusador” das Lojas mistas e femininas ignora, com certeza -- como, aliás, o ignoram, infelizmente, numerosíssimos maçons brasileiros -- que o Grande Oriente do Brasil já fundou Lojas Femininas, dando-lhes Carta Constitutiva regular e transmitindo às Irmãs todos os rituais e segredos que são parte de qualquer Loja Maçônica do mundo. E isto aconteceu em 1871 ! Antes, bem antes que sonhassem os maçons brasileiros em fundar Grandes Lojas nas províncias do país. Havia Grãos Mestres de grande visão naquele tempo! Um dos maiores escritores maçônicos da atualidade, José Castellani, reconhecia a existência e o direito das lojas mistas e femininas, tendo inclusive visitado várias reuniões da GLADA, proferindo palestras. Citava com frequência um Juiz Federal de Brasília, que condenava a discriminação à mulher na maçonaria.

Convidamos os céticos a consultarem o Cadastro Geral das Lojas Maçônicas do Brasil, de Kurt Prober. As Atas e documentos relativos a este memorável evento estão guardados na Biblioteca e no Museu Maçônico do GOB, em São Paulo, onde surgiu a primeira dessas Lojas. No site da GLADA, há um Artigo com todos os detalhes deste e de outros fatos semelhantes no mundo. Também conclamamos os senhores acusadores – a ler uma publicação muito especial da Gran Loggia d’Itália, intitulada La Donna, il Sacro, l’Iniziazione (A Mulher, o Sacro, a Iniciação), súmula do 1° Fórum Internacional de Firenze, realizado em junho de 1994. O Herói de Dois Mundos, Giuseppe Garibaldi, foi o Soberano Grande Comendador do Grau 33 do REAA do Supremo Conselho de Palermo do Grande Oriente da Itália, da época, (cuja herdeira atual é a Grande Loja da Itália).

Garibaldi estimulou a iniciação de mulheres, tendo fundado várias lojas femininas, das quais a primeira a 25 de maio de 1864; ele iniciou a filha, Teresita, e muitas outras mulheres; consta que também iniciou sua segunda esposa, a brasileira Anita Garibaldi. Herói, e verdadeiro maçom, ele pertencia a um Supremo Conselho, cuja herdeira e continuadora é a Grande Loja da Itália, da qual fizeram parte o grande maçom Aldo Lavagnini – Magister, o grande físico atômico Enrico Fermi, o famoso comediante Totó, e um grande número de gente famosa da Itália, aliás, a potência que congrega mais lojas (1600 ativas), e mais obreiros naquele país. Maiores detalhes e bibliografia sobre este tema podem ser encontrados no site da GLADA. (www.glada.org.br Há numerosa bibliografia que documenta de maneira rica e ilustrada a presença da mulher nos rituais maçônicos em qualquer época que se queira procurar. Os maçons cultos a estudaram e hoje não caem no ridículo de negar uma realidade que está em toda parte do mundo. É como negar que o homem foi à Lua ou que existam mulheres ocupando alguns dos mais altos postos governamentais, culturais, científicos, esportivos, políticos e até militares.

Considerar “irregular” a loja ou potência que admite mulheres nos leva a outra ordem de considerações, pois se levarmos a sério essa pretensa “regularidade” , somente uma, uma única Potência Maçônica é “regular” em cada país, e no caso do Brasil, é o Grande Oriente do Brasil, sendo todas as outras “irregulares”... São normas ditadas pela senhora Grande Loja da Inglaterra, que se arrogou, não se sabe sob mandato de que arcanjo, o direito de somente ela dizer quem é regular ou não. Portanto, se algum dos senhores acusadores pertence a uma loja que não seja do GOB, é bom saber que vários Irmãos não foram recebidos em lojas inglesas, por serem “irregulares” e “não reconhecidos”! Isso aconteceu com o Irmão Eleazar de Carvalho, nosso famoso Maestro, filiado à loja Mozart, da GLESP, e ao próprio Ir:. Salim Zugaib, ex-Grão Mestre da GLESP, ao baterem na porta de uma das lojas da senhora Grande Loja da Inglaterra, em Londres. Que lindo exemplo de fraternidade!

E tudo isso graças a um preceito, ou Landmark, imutável (sic), inventado em 1717 por um profano de avental chamado Anderson (que confessou haver queimado documentos antigos, históricos e insubstituíveis, entre os quais, sobre participação da mulher nas antigas lojas), autor da frase lapidar, paradigma do ranço medieval de que estava impregnado: ”Não podem ser iniciados nem mulheres, nem aleijados, nem escravos”. A frase dispensa comentários, tão explícita e tão grotesca ela é por si mesma. Afirmar que qualquer coisa no universo seja imutável não é apenas anti-científico, mas contrário à própria idéia que a Maçonaria entende por progresso. Afirmar que nenhuma loja maçônica masculina no Brasil recebe uma irmã em suas reuniões, discriminando unicamente em razão do sexo, é uma confissão muito triste, que atesta o grau de atraso cultural em que se encontra nossa maçonaria tradicional. Típico de países do Terceiro Mundo, onde as conquistas democráticas só acontecem cem ou duzentos anos depois que o resto do mundo já as considera parte do seu quotidiano.

Só para citar um exemplo de como está atrasada a maçonaria brasileira : O Grande Oriente da França, uma das maiores e mais atuantes Potências Maçônicas do mundo e com uma enormidade de serviços prestados à humanidade, inclusive a criação da União Européia, já nos anos 50, propiciou, junto com a Grande Loja da França, a fundação da Grande Loja Feminina da França, que hoje conta com nada menos de dez mil obreiras.

O Direito Humano, potência MISTA fundada em 1893 – portanto mais antiga que todas as Grandes Lojas estaduais brasileiras – congrega mais de dez mil maçons, homens e mulheres. O Grande Oriente da França permite que suas lojas recebam a visita das irmãs em suas reuniões regulares (não só nas reuniões “brancas”, como se faz por aqui), oferecendo-lhes cargos, inclusive. Em muitas cidades francesas, há prédios maçônicos, contendo várias lojas, que são alugados a diferentes potências, sejam masculinas, femininas ou mistas, que se apoiam mutuamente, o mesmo ocorrendo em Nova Iorque.

Há na França cerca de 100 mil maçons, dos quais apenas 10 mil são ligados à única potência reconhecida pela Grande Loja da Inglaterra. Os restantes 90 mil, os pretensos “irregulares ou selvagens”, são independentes. Destes, perto de 50 mil pertencem ao Grande Oriente da França. Os “rebeldes” são hoje 90%. E não é diferente no resto do mundo civilizado, o que deu margem à afirmativa de toda comunidade maçônica liberal da Europa que costuma dizer que “a maçonaria tradicional são os nobres decadentes, e a maçonaria liberal, os selvagens emergentes”..

Passemos a outra “acusação”: a Grã Mestra da Grande Loja Feminina sediada em Mato Grosso recebeu (ou recebe) uma ajuda de custo, por conta de seu cargo.. Talvez os acusadores queiram também processar os demais grãos-mestres de todas as restantes potências brasileiras, pois todos eles recebem subvenções a esse título. Algumas consideravelmente mais gordas, por sinal, do que a ridicula retirada mencionada. Também seria interessante que se lembrasse que muitos Grãos Mestres dispõe de carros fornecidos por suas obediências para o exercício do cargo. . De resto, há uma quantidade desconhecida, mas certamente grande, de lojas maçônicas ditas “regulares”, masculinas, que sequer têm registro em cartório. É claro que tais lojas não possuem CNPJ, e nem conta bancária em seu próprio nome.

Outra: acusam a potência feminina do Mato Grosso de ter-se “apropriado” de rituais maçônicos das potências masculinas. É uma espécie de acusação de plágio. Nunca houve na Maçonaria, porém, qualquer coisa parecida com “direitos autorais”. Nenhum verdadeiro iniciado gravou seu nome num ritual; é um trabalho discreto e anônimo doado à humanidade, preservando textos de valor humanístico, moral e social, escritos por grandes homens. É uma tradição passada de geração a geração, freqüentemente de boca a ouvido, sendo que em certos ritos, é praticada totalmente de memória, sem qualquer ritual escrito. Esta tradição vem desde as Iniciações no antigo Egito.

Todos os rituais que hoje se usam na maçonaria provieram de rituais mais antigos, guardados por herança espiritual, durante séculos. Maçons passam a outros maçons as práticas, os ensinamentos morais e o significado dos símbolos, é assim que funciona e sempre funcionou a Maçonaria. Isto é de conhecimento geral na Ordem, nenhum maçom autêntico ignora este fato, portanto tal acusação deve ter sido levantada por um profano. Então esclarecemos a este profano que os rituais maçônicos podem ser encontrados nas livrarias, em enciclopédias maçônicas, e até em bibliotecas públicas -- todos os graus, até o 33.

Não é a leitura do ritual que faz o maçom. Também não é ser recebido numa loja, nem usar o avental, nem ter carteirinha. É a Iniciação que faz o maçom, e ela é uma experiência pessoal, transcendente, individual e intransferível. Iniciação é uma oportunidade de elevação espiritual, que nem todos aproveitam – e é por isso que há maçons que continuam sendo profanos, como o citado Anderson, mesmo portando os mais elevados graus. Enquanto que muitos profanos são grandes maçons (construtores), por seus nobres atos, embora nunca tenham entrado numa Loja Maçônica Mas já que a acusação foi feita, saibam todos que os rituais do Grande Oriente do Brasil e das Grandes Lojas foram baseados nos rituais franceses e ingleses. Estes, por sua vez, foram copiados de tradições mais antigas, compiladas sob o nome de “old charges”, que foram copiadas de práticas dos construtores romanos desde Numa Pompílio, que foram copiadas de papiros egípcios, os quais provavelmente são cópia de litografias Atlantes, os quais... Anderson, que extrapolava suas crenças religiosas de maneira grotesca, dizia que Adão, o primeiro homem na Terra, já era maçom, portanto, muito cuidado, Adão poderá um dia ressurgir das cinzas e processar todos os maçons do mundo por terem plagiado suas plaquinhas de barro! Uma outra “acusação” menciona que essa potência feminina teve início numa igreja, ou centro de culto. Cremos que é uma origem honrosa, pelo menos. Membros de seitas variadas no Brasil foram fundadores de lojas maçônicas, e isso não os desabona, nem torna irregulares tais lojas. Gostaríamos de lembrar aos inquisidores dessa pitoresca moção que a Grande Loja da Inglaterra – a única regular, a santíssima, a pura e casta grande mãe da maçonaria tradicional em todo o mundo, o modelo de virtude, com seus venerandos e imutáveis Landmarks – teve uma origem muito menos nobre: suas quatro lojas fundadoras nasceram em quatro tabernas londrinas, lugares de péssima reputação.

A acusação seguinte levanta a questão da quase vitaliciedade da atual Grã-Mestra da Grande Loja Feminina em questão (gestão de 40 anos). Este costume tem antecedentes históricos. Nas Corporações de Ofício, das quais a maçonaria moderna teve origem, o Mestre que dirigia a Loja era vitalício e formava aprendizes e companheiros durante vários anos, e quando um companheiro chegava a um grau elevado de formação, recebia autorização para abrir sua própria loja, da qual se tornava o novo Mestre – também vitalício.
Alguém pode argumentar que o costume moderno é de eleições periódicas, com renovação dos nomes nos cargos de direção, e esse é, de fato, o estilo atual das potências pelo mundo, inclusive na GLADA. Mas, certamente, não é crime nem fere qualquer lei civil fazer constar nos Estatutos aprovados por assembléia, que o mandato da Grã-Mestra é de 40 anos. Sendo tais Estatutos devidamente registrados em Cartório, devem ser considerados de domínio público. Assim, a acusação de não exibir às candidatas os Estatutos antes de seu ingresso é bastante esdrúxula.

Não nos consta, aliás, que as potências masculinas tenham o costume de fazer ler aos candidatos, na íntegra, o material extenso de suas Constituições antes de sua Iniciação; não ocorre tal coisa nem mesmo quando se ingressa num clube, sindicato, escola, associação ou condomínio. Já mudar um Estatuto é atribuição das Assembléias da Ordem, onde tudo precisa ser votado. Quem não está de acordo com normas estatutárias aceitas pelas leis do país, deve desistir de pertencer à Ordem Maçônica, ou então, estando nela, lutar honestamente nas Assembléias por suas justas e legais idéias de mudança.

Enfim, tudo o que se vê nessa “denúncia” coloca em evidência que se usam dois pesos e duas medidas – um modo truculento de julgar as potências femininas ou mistas e outro, bem indulgente, para justificar as potências masculinas. Generalizamos a questão das potências mistas e femininas porque a acusação vai além das pretensas irregularidades da potência matogrossense, mas extrapola julgamentos (e condenações prévias!) para toda a maçonaria que admite mulheres. Isto prova que não está sendo questionada uma suposta contravenção naquela potência. O que está realmente em jogo, por trás da “denúncia”, é o preconceito contra as mulheres. A intenção oculta – nem muito oculta, aliás, para quem tem olhos para ver – é discriminatória. E a discriminação da mulher é, pela Constituição Brasileira, prática proibida, contrária à cidadania. É ilegal, passível de punição. Diríamos que também é imoral, principalmente vindo de quem prega a igualdade, a liberdade, a justiça, a tolerância, o direito, a democracia, etc., etc.. Essa discriminação, revoltante pelo seu conteúdo machista, lembra-nos os tempos não muito distantes em que a mulher teve que lutar, em campanhas cruéis, pelo direito de votar, sofrendo perseguições, prisão, não raro tortura e humilhações.

É bom que saibam os adversários da admissão da mulher na maçonaria que o Grande Oriente da Itália (potência masculina) foi processado na Justiça Italiana por recusar o ingresso das mulheres, e perdeu em três instâncias. Ele foi legalmente “condenado” a receber iniciandas. Se a moda pega, acionando o Ministério Público Federal (já que se trata de violação de direitos civís), não só o caso de Mato Grosso pode ter um final inesperado, mas toda a maçonaria masculina pode vir a ser obrigada a mudar aquele anacrônico e repulsivo landmark.

Talvez seja a hora de as brasileiras tomarem uma atitude, a fim de dar uma pequena lição de igualdade a estes hipócritas que dentro dos templos maçônicos exaltam as mais lindas virtudes e fora deles praticam exatamente o contrário. Será uma vergonha para a maçonaria, que sempre representou a vanguarda do pensamento humano, abrindo caminho para as idéias mais progressistas, ser a última instituição na Terra a admitir a igualdade de direitos da mulher, pelo qual, os nossos Irmãos do Século 19 já lutavam. O que fazem os de hoje ? Do jeito que andam as coisas, é provável que até a Igreja Católica mude primeiro, já que hoje em dia ela se tem destacado na defesa de direitos humanos e outros, enquanto a maçonaria tradicional “dorme em berço esplêndido”, cantando glórias do passado (de feitos realizados por outros), e se omitindo na atualidade.

Queremos agora, através deste Manifesto da GLADA, restabelecer a verdade sobre o reconhecimento das potências femininas e mistas ao redor do mundo. Há Organizações Maçônicas que congregam Potências de todos os países, sejam elas masculinas, mistas ou femininas. Algumas são bastante antigas, como a CATENA e o CLIPSAS, fundados em 1961. Outras são mais recentes e regionais, como a CIMAS (2002). O link para informações sobre elas se encontram no site da GLADA (www.glada.org.br) e merece ser consultado. CLIPSAS e CATENA juntos congregam mais de 60 potências maçônicas em 5 continentes. A GLADA, assim como a mencionada potência feminina do Mato Grosso, são signatárias de todas as citadas e mantêm Tratados bilaterais entre si.

Elas se reconhecem mutuamente e seus obreiros podem visitar-se nos respectivos países. Nenhum membro dessas organizações se escandaliza nem mesmo se surpreende ao ver uma mulher trajar um avental maçônico e participar em igualdade de condições dos trabalhos de uma Loja. Somos, portanto, muito bem reconhecidos, sim senhor, e não nos faz falta alguma sermos recebidos por maçons, lojas, potências ou autoridades maçônicas que ainda alimentam preconceitos tão ridículos e condenáveis contra a mulher.

Os trabalhos e estudos maçônicos desenvolvidos nas lojas da GLADA são tão profundos, tão ricos em cultura e de tão elevado nível que deixam embasbacados os visitantes das lojas masculinas. Ouvimos, mais de uma vez, Irmãos portadores dos mais elevados graus confessarem, com a maior sinceridade, ao terminar uma daquelas sessões econômicas, que para nós, não passa do pão-de-cada-dia: “Aprendi mais hoje nesta reunião de duas horas, numa Instrução de Aprendiz, do que em toda a minha vida maçônica de mais de 20 anos”. Não deixa de ser um melancólico atestado das poucas luzes que se recebem nas Lojas por aí.

Quanto à suposição de que a Maçonaria é uma só no mundo, e que se compõe exclusivamente por homens, citamos -- pela identidade com a nossa língua e pelo valor extraordinário desse maçom ilustre, o Dr. Antonio Arnaut – Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano, membro do Conselho Superior da Magistratura e presidente da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem, e ainda presidente da Associação Portuguesa de Escritores juristas, em sua excelente obra: Introdução à Maçonaria – “A Maçonaria não é uma Igreja e, por isso não existe um poder central único e uma autoridade supranacional. As Lojas, Oficinas ou Templos formam grupos que se administram a si mesmos, constituindo em cada país uma federação dirigida por um Grande Oriente ou Grande Loja, chamadas de Potências ou Obediências, inteiramente independentes, embora eventualmente ligadas por tratados”. E segue: “Em meados do Século XVIII Luisa de Kerruel fundava em França uma Loja do Rito Escocês, destinada exclusivamente a mulheres. Outras Lojas femininas se lhe seguiram, incluindo em Portugal. A grande Loja Feminina de Portugal está filiada ao CLIMAF, Centro de Ligação Internacional das Maçonarias Femininas”.

São membros atuais do CLIMAF: www.glfs-masonic.ch/Docs/docuf/CLIMAF-F.htm, a Grande Loge Féminine d'Allemagne; a Grande Loge Féminine de Belgique; a Grande Loge Féminine de France; a Grande Loge Féminine d'Italie; a Grande Loge Féminine du Portugal e a Grande Loge Féminine de Suisse. Ainda sem filiação: Afrique - Phare des Amazones (GLFF) e USA - Aletheia - New York (GLFB).

E isto é somente uma pálida imagem de apoio à maçonaria feminina no mundo, e sem relacionar as 60 Potências masculinas, femininas e mistas filiadas ao CLIPSAS e CATENA. Há inúmeras outras não filiadas. Antes de encerrar este Manifesto, queremos expressar nossa profunda preocupação com a falsa imagem que alguns maçons fazem da Instituição, considerando-a intocável e acima da Lei, facultando a seus filiados praticar atos iníquos, protegidos por algum tipo especial de imunidade.

Para ilustrar este comportamento, vamos expor um fato que ocorreu numa das lojas da GLADA, a Olho de Hórus n° 35, sediada em Picos, Piauí. Seu Venerável, Ir:. Francisco Ferreira da Silva, edificou e decorou, a suas expensas, um templo maçônico para servir de sede à Loja. Vândalos vieram destruir, a marretadas, por dentro e por fora, esse templo, queimando arquivos, móveis, alfaias e documentos. Testemunhas presenciaram o crime e reconheceram nos depredadores vários maçons da localidade, vinculados a potências masculinas, contando, inclusive, com a participação do próprio prefeito da cidade, Sr. José Neri. O caso foi aos tribunais, e finalmente o Ir:. Ferreira venceu a questão, sendo a prefeitura condenada a pagar-lhe uma indenização por perdas e danos materiais e morais (mais de R$ 100 mil). Não bastasse isso, os Irmãos da Loja Olho de Hórus e até seus candidatos vêm sofrendo intimidações e ameaças. Para quem quiser saber maiores detalhes, e mesmo fazer doações, basta dirigir-se à Loja Maçônica Olho de Horus : Rua: Santo Inácio, n° 343 - Bairro Bomba CEP: 64.600-000 – Picos- PI -CNPJ 03.595.326/0001-05. Seu email: lojaolhodehorus@bol.com.br. Movidos por ódio irracional e pelo puro preconceito contra uma Loja que admite mulheres, esses maus maçons chegaram ao extremo de vandalizar a propriedade particular de um Irmão. Ferreira, aliás, foi iniciado numa Loja masculina – dita “regular”, da qual se desligou, junto com outros, após ter presenciado coisas ainda piores que esta. A indenização ainda não foi paga, e ficamos a imaginar as pressões que a justiça local deve estar sofrendo para retardar o pagamento da indenização; enquanto isso, a Loja passa por dificuldades. Haverá em algum lugar, quem sabe entre os bons maçons, uma alma fraterna que reconheça o horror que tal situação representa para a imagem da maçonaria, e se disponha a ajudar nosso Irmão Ferreira a reconstruir sua Loja ? Até quando teremos de suportar e assistir a tais espetáculos de violência e obscurantismo ? Diante desses crimes reais, escandalosos e graves, não seria o caso de acionar o Ministério Público Federal para investigar os fatos acima relatados, e inclusive intervir no caso com a respectiva Corregedoria? Lembrando uma conhecida Escritura, não é o caso de, antes de apontar o argueiro no olho do vizinho, descobrir a trave que está no seu próprio?

Preocupa-nos, assim como ao sábio Kofi Annan, Secretário Geral da ONU, (cujas recentes declarações puseram em evidência este fato lamentável), o recrudescimento da intolerância no mundo. O dever da maçonaria é lutar contra ela, conforme se prega nas Lojas, e não estimular que ela cresça ainda mais.

Vamos finalizar citando a declaração conjunta assinada em dezembro de 1988 por 4 obediências Belgas – Grande Loja Feminina da Bélgica, Grande Loja da Bélgica (masculina), Federação Belga do Direito Humano (mista) e Grande Oriente da Bélgica (masculina) – cujos termos são os seguintes:
"Co-herdeiras de vários séculos de história maçônica, durante os quais tantos maçons ilustraram a história de nossas regiões, as Obediências signatárias declaram participar da mesma ordem inciática, tradicional e universal, que, baseada na Fraternidade, constitui, sob o nome de Franco-Maçonaria, uma comunidade de pessoas probas e livres; embora conservando cada uma sua soberania e sua autonomia de decisão, as Obediências constatam que, para além da sua diversidade e da variedade de suas Lojas, elas têm em comum:

1. A iniciação e a prática do método simbólico;
2. A preocupação de trabalhar pela melhoria da condição humana sob todos os aspectos;
3. A defesa da liberdade de consciência, de pensamento e de expressão;
4. A busca da harmonia entre todos os seres humanos pela conciliação dos opostos; e
5. A rejeição de todo dogma."

É assim que a Maçonaria se vê no mundo moderno; ela evoluíu, deixou de cantar os feitos e as glórias pretéritas (um costume bem brasileiro) e torna a participar dos eventos sociais e políticos do mundo – unida, forte, coesa, sem dogmas, sem preconceitos, e sem grilhões medievais – mas sobretudo preocupada com a melhoria da sociedade humana, e não com as picuinhas, os egos, os machismos e as questiúnculas sobre supostas “regularidades”.

É o progresso, enfim. Para uma Instituição que sempre pregou ser progressista e vanguardeira, ele já vem tarde. Para nós, no Terceiro Mundo, talvez venha tarde demais.

Ao enviar este Manifesto às Potências Maçônicas brasileiras – tradicionalmente masculinas – esperamos que todos tenham a sabedoria de fazer uma avaliação madura dos fatos. Dessa reflexão, nascerá a escolha entre a verdadeira fraternidade maçônica, de um lado, ou de outro, uma possível guerra jurídica desgastante, cujas proporções apenas adivinhamos, mas que certamente deixará um rastro de vergonha que atingirá não apenas todos os maçons, mas a própria Instituição em si. Isto só serviria para dar munição aos inimigos da Maçonaria, e está claro que nenhum de nós deseja isto. Devem, porém, as Potências masculinas vigiar mais atentamente suas lojas, tomando imediatas providências, e até mesmo eliminando-as e aos seus obreiros, quando praticarem atos de violência, prepotência, perseguições, arbitrariedades e ilegalidades.

Vera Facciollo – Grã Mestra da Grande Loja Arquitetos de Aquário (Potência Maçônica Soberana, Mista, que só obedece a Constituição e as Leis justas de nossa pátria - Brasil)

Para maiores informações atualizadas sobre a história e a filosofia maçônicas, visite os seguintes sites:
www.glada.org.br ;
Grande Loja da Itália: http://www.granloggia.it/;
CLIPSAS: http://www.clipsas.com/;
CATENA: http://www.catena.org/;
CIMAS: http://www.cimas.info/;
CLIMAF: www.glfs-masonic.ch/Docs/docuf/CLIMAF-F.htm.
Grande Oriente da França: www.godf.org Especificamente sobre a questão da convivência MISTA: Foire aux questions; Pourquoi la mixité ? http://www.godf.org/faq_autre.html#6.

Às vítimas de violações de direitos (como é o caso do Ir:. Ferreira, no Piauí), recomendamos acionar:
Comissão de Direitos Humanos ... denúncias de violações de direitos sociais, políticos, civis, culturais, econômicos, assim como dos direitos dos idosos: www.camara.gov.br. Para violações de direitos civis e humanos pode-se também acionar a ONU, UNESCO, OEA, etc.
Em nome da GLADA e de suas Lojas Federadas, enviamos a todos o nosso T:.F:.A:.
Vera Facciollo – 33º - Soberana Comendadora Grã Mestra Geral
Fonte:http://blogdamaconaria.blogspot.com.br/2008/09/manifestao-do-internauta.html#.VNAE3GjF-bV

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

SOBRE O INTOLERÁVEL


MARCOS ROLIM
Jornalista e sociólogo
Todo projeto para uma vida que valha a pena ser vivida envolve um limite para o convívio social. Aquilo que, por diferentes razões, nos parece intolerável _ e que, por isso, excluímos do respeito à diferença _ é conformado culturalmente. Nos Estados laicos, o intolerável é fixado pela lei penal. Nas teocracias, entretanto, este limite é definido pela fé. A separação entre Estado e religião _ a laicidade _ é fenômeno moderno que pressupõe a convivência entre crenças e descrenças. Entre nós, o intolerável é matéria terrena, portanto, circunscrita às disputas políticas cuja substância é o debate público. Neste espaço criado pelos humanos, e só por eles, os argumentos devem transitar livremente e até mesmo a recusa ao pensamento tem seus direitos. O que importa reter é que nada é mais estranho às democracias modernas que a ideia de “verdade”. Pela simples razão de que a verdade a que podemos chegar é sempre a expressão de um compromisso que se sabe provisório, porque modificado na história _ não raro, radicalmente. O que define, aliás, não apenas o espaço da pólis, mas o percurso mais importante do conhecimento, aquele construído pela ciência. A verdade científica, afinal, é aquela que existe “na temperatura de sua própria destruição” (Morin).
Nos fundamentalismos (em todos eles, bem entendido), a verdade é concebida como “revelação”. Entre os muçulmanos, o pressuposto aparece em estado puro na “inlibração”, palavra que designa a incorporação de Deus em livro incriado; que existiria desde a eternidade. No Alcorão está a palavra de Deus (em árabe, claro). “Islã”, não casualmente, significa “submissão”. Nessa circunstância, criar é ato imprudente e uma charge pode ser ofensa a tratar com fuzis. Os que “não são Charlie” e pedem “respeito” às religiões não se dão conta de que o respeito em falta é exatamente aquele desconhecido pelos fundamentalistas. Em nossa ordem jurídica, assim como na França, a blasfêmia é um direito. Ainda bem. Não fosse isso, estaríamos queimando bruxas e torturando hereges até hoje. Os jihadistas escolheram o intolerável, mesmo sem vinganças clamando dos céus como na Nigéria. Por isso, não se trata de “politizar” o fenômeno do terrorismo, estigmatizando os muçulmanos (como o faz a extrema-direita europeia), ou apresentando-o como um resultado da opressão (como o repete determinada esquerda). O desafio é o de efetivar o pacto dos direitos fundamentais, para sociedades mais justas, reconhecendo o intolerável como um limite para além do qual as democracias reservam vagas em suas prisões.
Fonte: http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/2015/01/17/artigo-sobre-o-intoleravel/

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O TEMOR E O HUMOR


PERCIVAL PUGGINA
Escritor
O ataque à revista Charlie Hebdo foi mais uma entre milhares de ações violentas praticadas por fanáticos muçulmanos contra “infiéis” de outros credos e, principalmente, por muçulmanos contra muçulmanos. No momento em que escrevo, a contagem de tais atos, iniciada depois do ataque às Torres Gêmeas, registra 24,8 mil eventos. À chacina do Charlie, já se somam outros seis atentados no Paquistão, na Nigéria, no Líbano, no Afeganistão, no Egito e, novamente, na França, no dia 9.
Obviamente, entre 1,5 bilhão de muçulmanos, é pequena a parcela de fanáticos violentos, jihadistas, dispostos a passar o resto do mundo na espada. No entanto, o mundo está apreensivo. A numerosa concentração de chefes de Estado e de governo nas manifestações de Paris mostra que estamos diante de algo alarmante. Por isso, quero lembrar que, antes de ser um problema mundial, o terrorismo e o fanatismo islâmico violentos são, sobretudo, um tema para o islamismo, tanto quanto o nazismo foi tema para os alemães, antes de se tornar problema internacional. Religião alguma deve se prestar a uma cultura de intolerância e violência! Não é de causar surpresa, portanto, diante dos fatos que estão em pleno desenvolvimento e motivando insistentes matérias jornalísticas, que já se possa identificar a existência de um temor ao Islã. Não é inteligente nem sensato negar o óbvio. O mundo sabe. O terrorismo é o mal do século. E o medo cria reações irrefletidas ou insanas. Quem pranteia ou desfila pelos milhares de vítimas silenciosas do Boko Haram?
Reflitamos, agora, sobre a criminosa e repugnante execução dos jornalistas, artistas e humoristas da Charlie Hebdo. Seres humanos foram friamente fuzilados para “vingar a honra do Profeta”. Diante do ocorrido, uniram-se, com razão, as vozes do mundo num coro multilíngue, ecumênico e pluriétnico em favor da vida e da liberdade de imprensa, destacados valores da civilização ocidental. Não esqueçamos, porém, que o humorismo da revista, com frequência, é grosseiro, desrespeitoso e de mau gosto. Comete injúria religiosa, como quando representou graficamente o Pai, o Filho e o Espírito Santo em atos de sodomia. Há diferença entre a blasfêmia privada, para ofender a Deus, e a blasfêmia publicada para ofender a sensibilidade religiosa das pessoas. O ataque à revista tornou oportuno exaltarmos a liberdade de criação e de imprensa como apreciadíssimo valor da nossa cultura. Mas é bom lembrarmos _ sem relação nem proporção entre causa e efeito _ que o respeito aos demais, a seus valores, crenças e etnias é, também, um valor da civilização ocidental.
Fonte: http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/2015/01/17/artigo-o-temor-e-o-humor/

domingo, 18 de janeiro de 2015

SOU CHARLIE TAMBÉM AQUI


FLÁVIO  TAVARES
Jornalista e escritor
A engrenagem do fanatismo mórbido é simples e linear, por isto se propaga como chama em palha seca e chega ao que chegou nas tragédias do Charlie Hebdo e do mercado judaico de Paris. Surge da cegueira deformante do “pensamento único” e mata como se a matança fosse festim divino. É o oposto do humanismo. Em vez de criar ou fazer nascer (para que todos usufruam do novo), destrói, como se o ódio estivesse acima da própria vida. Por isto, os tais “fundamentalistas islâmicos” soterram os fundamentos de todas as filosofias ou religiões, incluído o Islã. Depois de matar, se entregam eles próprios à morte, na ilusão fanática de que serão “mártires” e, no Paraíso, usufruirão do hímen de 70 mil Virgens, como diz o Corão.
O fanatismo esconde, também, a repressão amorosa e erótica do mundo islâmico. Numa sociedade machista, de casamentos arranjados e sem amor, a beleza do erotismo e do desejo fica inconscientemente confinada à “vida após a morte”, numa interpretação cega da metáfora do livro sagrado. E matar leva a ser morto para se tornar “mártir” e, logo, reviver desnudo num motel eterno no céu…
Na França e toda Europa, milhões de muçulmanos imigrados do mundo árabe sofreram um choque cultural profundo. Desconheciam o direito a dissentir e a opinar livremente. Imigraram em busca de trabalho e no trabalho são europeus. Mas na rua, as mulheres usam véu ou escondem o rosto na “burka”. De fato, não se adaptaram à Europa. Ao contrário, a Europa adaptou-se a eles. E, agora, são eles que buscam mudar o estilo de vida da sociedade que os acolheu.
O choque de culturas torna agudos os conflitos, atropela e embrutece ainda mais o fanatismo religioso fundado na “verdade única”. E sair de um labirinto é mil vezes mais difícil do que entrar. Nisto consiste a tragédia e o desafio.

***
No Brasil, nossos fanáticos mórbidos são de outro tipo. Não invocam a Alá, mas continuam a viver na cegueira do “pensamento único”, saudosos dos tempos da ditadura direitista.
Nesta semana, completaram-se 30 anos da escolha de Tancredo Neves à presidência da República, que abriu caminho à retomada da liberdade na sociedade brasileira, esboçada (ou iniciada) no governo do general João Figueiredo. Sabemos o que veio depois, de bem e de mal, e não o repetirei. A verdade, porém, é que o golpe de 1964 nos levou a um labirinto do qual levamos 21 anos para achar a saída. E, ao encontrá-la, estávamos tão desabituados à luz do sol que a claridade do livre debate cegou a muitos. Quando se está no escuro ou de olhos fechados, a luz feérica nos faz cegos e voltamos a ver com dificuldade. Assim, nestes 30 anos nos salvamos da cegueira mas ficamos míopes.
Enxergamos pela metade, por exemplo, ao ver e ouvir aqueles torturadores dos tempos da ditadura contando à Comissão Nacional da Verdade como seviciavam, matavam e, logo, faziam desaparecer os corpos dos opositores em fornos de usinas ou em alto mar. Orgulhosos, diziam “cumprir ordens”, repetindo palavras do nazista Eichmann ao tribunal que o julgou pelo Holocausto.

***
O fanatismo é cego e se nutre da simulação. Os nostálgicos do horror não veem que a ditadura simulava tudo. Num tempo em que os abismos sociais cresciam, o “crescimento do país” era o crescimento do tumor da dívida pública. Lá começou o gigantesco endividamento externo e interno do qual não nos livramos até hoje. Neste 2015, o Orçamento Federal reservará 1 trilhão e 400 milhões de reais tão só para juros e amortizações da dívida pública. A soma corresponde a 47% de tudo o que os escorchantes impostos arrecadarão.
Os grandes bancos tornaram-se novo deus da “verdade única”, decidindo quem pode ou não pode entrar ao Paraíso e lá desfrutar das 70 mil Virgens. Depois, é claro, de matar na Terra todos os infiéis!
Por tudo isto, sou Charlie. Mas sou Charlie também aqui.
Fonte: http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/2015/01/17/artigo-sou-charlie-tambem-aqui/

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

SOBRE O "MÉTODO MAÇÔNICO" II

 (imagem proveniente de Google Images)

Um pouco por todas as correntes do pensamento humano, a “dúvida” sempre esteve presente e como tal foi precursora de Conhecimento. Se nos casos dos Racionalistas e Existencialistas, a dúvida foi a “catalisadora” do ato de pensar, nas correntes Positivistas, Cepticistas e Empiristas da Filosofia foi mesmo a base do próprio pensamento. E se “pensar” é a base do Método Maçónico, a “dúvida” é um dos instrumentos pelos quais este método pode ser aplicado. 
Não apenas duvidando por duvidar, ou questionando apenas por questionar. A dúvida ou a questão, terão sempre um motivo, um“porquê?”. 

Aliás, já o maçom e livre-pensador Voltaire (François Marie Arouet de seu nome e que viveu entre 21/11/1694 a 30/05/1778) afirmou que “a dúvida foi transformada num método de conhecimento”. 
E foi de certa forma, aplicando esta premissa, que o Homem foi impulsionado a evoluir. 
Ao se duvidar (de algo), cria-se a vontade ou necessidade de se agir, de procurar, de pensar. Não bastará aquilo que nos é apresentado, mas pretender-se-á mais qualquer coisa, nem que seja para complementar, cimentar ou até negar aquilo que já existe.

O Homem ao longo da história tendo a dúvida e o desconhecido como ponto de partida, levou-o a que inúmeras vezes fosse obrigado a sair da sua “zona de conforto” para obter o conhecimento ou as respostas que ambicionava ter. Ter este tipo de atitude permitiu aos pensadores do período iluminista da nossa história, questionarem os ideais e dogmas da sua época e fomentarem então o livre-pensamento.

Nesses tempos, o Homem sentia-se refém dos dogmas  que lhe eram apresentados e que os mesmos  quando aplicados ortodoxamente lhe cerceavam a sua liberdade pessoal. E na sequência de um período renascentista, em que floresceram novas ideias que tornavam o Homem no centro de tudo (a figura do “Homem de Vitrúvio” de Leonardo da Vinci é um bom exemplo disso) e também no seguimento de um período inquisitorial que deixou várias baixas nas mentalidades que se consideravam mais avant-garde ou fora do status quo contemporâneo, houve quem sentisse que o mundo necessitava de mudar, e mudar para algo de diferente daquilo que existia.

Já não bastava ao Homem olhar para cima, para Deus, e crer que tudo ocorreria mediante intervenção divina, mas que esse olhar deveria se virar para dentro, para o seu interior
O Homem sentiu que deveria ser ele a base de tudo, a “origem”, o “ponto no meio do círculo”, e essa sensação, essa necessidade de mudar,  criou novas formas de pensamento, novas formas de olhar as coisas, algumas das quais muito diferentes das que existiam nesses tempos, nomeadamente no que toca a direitos e garantias do Ser Humano. 

Hoje em dia, temos a certeza que após os “ventos iluministas” que passaram e que criaram algumas “tempestades” por esse mundo fora, a sociedade como se conhecia mudou e evoluiu bastante e para melhor. Hoje o Homem pode fazer quase tudo aquilo que anteriormente lhe estava vetado, quer fosse por lei quer fosse pelo modus vivendi da época. 
O Homem atualmente é detentor de vários direitos e garantias no que toca à sua liberdade pessoal. Na generalidade dos países (falo assim, porque em pleno século XXI a liberdade ainda é limitada em alguns locais) o Homem pode falar abertamente e expor as suas ideias, pode reunir para debater e também lhe é possível se manifestar pelo que considere válido e que seja mais útil à sociedade em que está inserido. E isso tudo apenas foi possível porque existiu gente que pensasse, que questionasse e principalmente que duvidasse. E no meio dessa gente, encontravam-se os maçons.

E os maçons ao absorverem os ideais renascentistas e posteriormente os ideais iluministas, sentiram também que a “dúvida” poderia ser o ponto de partida para que pudessem evoluir também. Uma vez que se o homem era o “centro” de tudo, o que existiria para lá do seu “corpo”, das suas “fronteiras”, seria de certa maneira, desconhecido ou por descobrir. E foi nesse momento, em que os maçons passaram a especular (duvidar/questionar), que se criaram as condições para serem constituidas as “fundações” da Maçonaria atual, designada por Maçonaria Especulativa.

Desse modo, os maçons deixaram de construir fisicamente para passarem a construir filosoficamente tendo como utensílios principais do seu trabalho o seu pensamento, os seus novos ideais, o debate de ideias, partindo das suas dúvidas e ansiando por mais conhecimento. E isso foi concretizado, porque gradualmente através da incorporação dos pensamentos racionalistas e positivistas na doutrina maçónica, foi possível alcançar aquilo que atualmente ainda é dado a vivenciar nas lojas maçónicas. Refletindo, analisando e debatendo nas sua lojas maçónicas, os maçons de antanho propiciaram - e de que maneira!- o progresso da sociedade de então, não obstante ainda o continuarem a fazer nos dias de hoje.

Tanto que o facto de os maçons estarem entre aqueles que decidiram “pensar” e  que não ficaram retidos a dogmas ou ao receio da possibilidade de poderem perder a sua vida por usufruírem desse direito natural (pensar por si), tornou-os personas non gratas para algumas instituições que existem ainda atualmente, sejam elas corporativistas, religiosas ou políticas. Pensar diferente ou criar um ambiente propício ao livre-pensamento e ao debate de ideias ainda hoje causa alguns “amargos de boca” aos maçons. O livre-pensar tem essas consequências. Uma vez que os defensores de totalitarismos e de ditaduras sejam elas de que tipo forem ou até mesmo os apologistas da anarquia em si, nunca poderão “ver com bons olhos” uma fraternidade constituida por quem assume que pensa e que principalmente duvida daquilo que lhe é apresentado de qualquer forma, sem justificação prévia e sem que tenha interesse para a generalidade dos povos.

Por isso é que nada é pior para o ser humano do que ter uma “atitude de carneiro”, uma atitude seguidista, de agir apenas somente porque sim ou porque os outros assim o fazem, sem se analisar os “porquês?” e os “comos?” deste mundo, assumindo desta forma as consequências de uma atitude que uma grande parte das vezes pouco lhe será a mais favorável ou a que melhor o servirá.
- Não pensar acarreta sempre custos - . 
E por mais “doloroso” ou difícil que esse processo possa aparentar ou por maior prejuízo que se possa assacar ao modo de pensar, será sempre mais relevante para a humanidade o Homem usar a sua “cabecinha” e pensar por si do que deixar que outrem o faça por ele. 
E mesmo que se pense de forma diferente da generalidade, tal não será importante porque por vezes na diferença e/ou valorizando esta diferença, está o caminho para o conhecimento. 
- Quantas vezes não estivemos certos de algo e depois acabámos por constatar que aquilo que era diferente ou que divergia do nosso raciocínio era na realidade o que estaria correto?!-

Assim, é possível considerar-se na prática, que o método maçónico é um método de questionamento que apesar de poder ser usado de um modo muito amplo na Maçonaria, se for aplicado de uma forma mais estrita, será sempre no sentido de uma auto-análise e busca interior que o maçom fará per si e que o levará através de uma senda espiritual que lhe proporcionará em última instância uma redescoberta de si mesmo.

Questionando(-se), debatendo, aprendendo, compreendendo, modificando(-se) e partilhando o que se sabe; em suma, aplicando o método maçónico, será para os maçons mais uma forma de poderem trabalhar no seu auto-aperfeiçoamento. E mesmo que não o consigam executar na sua plenitude, pois pode sempre supor-se tal como utópico, quem viver desta forma sentir-se-á sempre realizado e grato pelas conquistas que vier a alcançar ao longo da sua vida, pois as mesmas foram conseguidas com o seu esforço, com o seu sacrifício, com a sua dedicação, mas que principalmente foram obtidas com ou através do seu “pensamento”!

Autor: Nuno Raimundo
Fonte: http://a-partir-pedra.blogspot.com.br/