Para que os Amados
Irmãos possam analisar e meditar sobre suas ações filantrópicas, transcrevo a seguir os "Oito graus da Caridade", idealizados por Maimónides, filósofo
israelita do século XII:
1. Na
caridade existem oito graus. O primeiro, o mais baixo, é o que consiste em dar,
porém, com má vontade. Esta é a dádiva da mão, nunca do
coração;
2. O
segundo é aquele em que se dá com prazer, não sendo a dádiva proporcional,
entretanto, às necessidades daquele que sofre;
3. O
terceiro, quando se dá de boa vontade e proporcionalmente às necessidades do
pobre, quando se é solicitado para isso;
4. O
quarto, quando se dá espontânea e proporcionalmente às necessidades do que
sofre, entregando-lhe, porém, nas mãos e provocando por esse meio a dolorosa
emoção da vergonha;
5. O
quinto consiste em dar de forma tal que o humilde recebe a esmola e conheça seu
benfeitor, sem que este chegue a conhecê-lo. Essa foi a conduta de nossos
antepassados, que pregavam moedas nas extremidades de suas capas, onde o pobre
"as" recolhia sem ser visto;
6. O
sexto que é da mais alta significação moral, é aquele no qual se conhece a
pessoa que recebe a esmola sem que esta conheça o doador. Esta foi a norma
observada por aqueles que tinham o costume de levar seus donativos aos
necessitados, tendo o cuidado de não se fazer conhecer;
7. O
sétimo grau, ainda mais meritório, consiste em socorrer sem que o benfeitor seja
conhecido do necessitado, sem que este o conheça, tal como ocorria durante a
existência do Templo. Nesse lugar de devoção existia um lugar especial
denominado esmoler. Em seu interior, as almas caritativas depositavam suas
esmolas, indo os pobres recolhê-las com igual segredo;
8.
Finalmente, o oitavo e mais meritório de todos, consiste em antecipar a
caridade, evitando a pobreza, seja ajudando seu semelhante com uma boa concessão
ou uma apreciável quantia, ou ensinando-lhe um ofício, de modo que possa ganhar
a vida de maneira honesta, evitando a terrível necessidade de estender a mão à
caridade pública. Este é o mais alto grau da escada de ouro da
caridade.
Seja como for, do
primeiro ao oitavo grau, o mais importante é praticar a caridade, se possível
passando de um grau ao superior. É obrigação Martinista a pratica da
benemerência, em qualquer grau.
UMA LOJA MISTA É COMPOSTA POR HOMENS E MULHERES
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
FAZER O BEM
O místico que esvaziou o cálice simbólico aceita a vida iniciática com suas inelutáveis durezas. Ele deseja esclarecer-se à vista de agir utilmente no interesse da melhora da sorte dos homens. Qual é, desse ponto de vista, sua tarefa imediata senão que a de socorrer os vencidos pela vida? O infortunado que não pode bastar-se a ele mesmo tem direito ao socorro, e o Iniciado nas leis da vida torna-se seu devedor. A vida é geral em sua essência; existe solidariedade entre todos os vivos, tanto que é impossível viver bem individualmente, sem se importar com os sofrimentos de outrem. O verdadeiro saber-viver considera a vida como uma corrente que não pode ir senão que do positivo ao negativo, logo, do rico ao pobre, do forte ao fraco e do inteligente ao simples de espírito; unicamente as trocas vitais tornam a vida ativa, e, assim, verdadeiramente viva e digna de ser vivida.
A vida não é preciosa se não for sã. Ora, no organismo, as células são solidárias; aquelas que sofrem entravam o vigor das outras. O que é verdade no microcosmo individual não o é menos no macrocosmo humanitário. Se a doença não encontra nenhum obstáculo, ela se difunde, abatendo regiões e povos inteiros. O dever é, pois, lutar contra o mal em toda parte onde a ocasião para isso se apresenta.
O menos difícil é contribuir materialmente para o consolo dos infortunados que possam ser socorridos. As religiões do trabalho têm, desde os tempos mais recuados, imposto aos seus adeptos a obrigação de assegurar a existência das viúvas e dos órfãos da confraria. O velho tornado fraco não estava mais abandonado; ele recebia cuidados convenientes e sabia que funerais honrosos lhe estavam reservados. Os Maçons modernos não quiseram se subtrair a esses tradicionais encargos sagrados; também cada Loja mantém seu tronco de solidariedade, sem prejuízo das contribuições a caixas de socorro e outras obras de caridade: orfanatos, asilos, etc.
O neófito realiza sua primeira ação maçônica associando-se à beneficência coletiva por uma doação proporcional aos seus meios; ele deposita discretamente seu óbolo no tronco cuja circulação fecha obrigatoriamente toda reunião de Franco-Maçons. Assim o ritual parece receber satisfação, quando, na realidade, suas exigências vão muito mais além.
Bebendo da água da vida, o adepto torna-se taumaturgo curandeiro. Ele assimila uma vida exterior a sua e dispõe de um acréscimo de energia vital. Isso pode ser entendido fisiologicamente, porque a transfusão de vida de um indivíduo para outro não é uma quimera. Os antigos sabiam curar pela imposição das mãos, e os discípulos atuais de Mesmer encontraram seu segredo. Mas o agente curativo é um fluido magnético emanando do corpo humano ou uma vibração a serviço da vontade? O grande arcano da arte medicinal não residiria, desde a origem, no fervor com o qual o curandeiro aspira a curar o doente? Curas foram obtidas em todos os tempos através de meios dos quais a ciência médica esclarecida sorri, ainda que reconheça, todavia, que um medicamento sem virtude intrínseca pode tornar-se o ponto de apoio de uma ação psíquica eficaz.
Nessas condições, é suficiente vibrar com um intenso desejo de consolar outrem, para intervir de modo caritativo, às vezes com sucesso manifesto. Nenhum bom sentimento se perde, e nossa compaixão ativa ajuda, ao menos, o doente a melhor suportar o seu mal, quando uma melhora temporária ou definitiva não é obtida. Não se trata de condenar aqui a medicina profana, e impedir-se de a ela recorrer; a Iniciação, porém, ensina a curar, porque a realização da Grande Obra corresponde à prática da Medicina Universal. Esta medicina é miraculosa, pois, procedendo da alma, ela age sobre a alma e sobre o corpo por intermédio da primeira. Ela se aplica, de preferência, à cura do mal moral e não exige, para ser exercida, senão uma sã inteligência acrescida de uma bela riqueza de coração. Amemos com toda nossa alma e desejemos socorrer através todos os meios que a nós se oferecem: a inspiração fará o resto.
Se o místico permanecesse indiferente, desdenhoso de outrem em seu intelectualismo falsamente esclarecido, ele não participaria da vida superior dos Iniciados: suas provas seriam ilusórias e ele se condenaria a uma existência falsa. Entrincheirando-se na solidariedade vital, ele se comportaria no organismo como um abscesso ou um quisto. Tornar-se bom deve ser a preocupação ao mesmo tempo primeira e constante do neófito, porque toda Iniciação se edifica sobre a melhora perpétua de si mesmo.
Ora, podemos nos exercitar na bondade através de atos de generosidade que não devem se limitar a sacrifícios materiais: dar do supérfluo é bom; mas o pobre que recebe é capaz de dar com usura, se sua gratidão efetiva tornar-se psiquicamente operante. Aquele que é rico em vitalidade pode comunicar sua energia aos deprimidos. Ninguém é incapaz de fazer o bem sob uma forma ou outra; não há deserdado que não possa dar, ao menos, um bom exemplo, suportando seu infortúnio. Se um vem em auxílio dos pobres através de doações materiais, outro socorre os indigentes espirituais, instruindo-os. Um bom conselho vindo a propósito torna-se inestimável, mas o maior serviço não nos é prestado por quem nos coloca a caminho da descoberta do verdadeiro?
Iniciar aos iniciáveis é um dever sagrado para quem, saído das trevas profanas, entra na senda da luz. Nada é mais precioso que a sabedoria; também o supremo dever de caridade nos obriga a esclarecer-nos reciprocamente.
Oswald Wirth — Os Mistérios da Arte Real — Ritual do Adepto.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
LA ALEGRIA DE SERVIR
Toda la Naturaleza es un anhelo de SERVICIO.
Sirve la nube, sirve el viento, sirve el surco.
Donde haya un arból que plantar, plántalo tú;
donde haya un error que enmendar, enmiéndalo tú;
donde haya un esfuerzo que todos esquivan,
acéptalo tú.
Sé el que apartó la piedra del camino,
el odio de los corazones y
las dificuldades del problema.
Hay la alegría de ser sano y la de ser justo;
pero hay sobre todo,
la hermosa, la inmensa alegría de servir.
Qué triste sería el mundo si todo en él estiviera hecho,
si no hubiera un rosal que plantar,
una empresa que emprender!
Que no te llamen solamente trabajos fáciles.
Es tan bello hacer lo que otros esquivan!
Pero no caigas en el error de creer
que sólo se hace mérito con los grandes trabajos,
hay pequeños servicios que son buenos servicios:
adornar una mesa, ordenar unos libros,
peinar una niña.
Aquél es el que critica, éste el que destruye,
tú sé el que sirve.
El servir nos es faena sólo de seres inferiores.
Dios que da el fruto y la luz, sirve.
Pudiera llamársele así:
"El Gran Servidor del Universo".
Y tiene sus ojos fijos en nuestras manos,
y nos pregunta cada día: Serviste hoy?
A quien? Al árbol, o a tu amigo o a tu madre?
Gabriela Mistral
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
A SUBLIMAÇÃO
Morrer é passar de um modo de existência a outro, porque nada se perde. A ciência moderna concorda nesse ponto com a intuição primordial da espécie humana. A semente morre como tal, quando sua crosta se rompe e uma planta nasce de sua substância. O recipiendário, ele também, deveu morrer para as fraquezas profanas, nascendo para a vida iniciática. O nascimento é, para ele, o esforço pelo qual se libera daquilo que é inferior, a fim de poder lançar-se em direção ao céu da mais pura idealidade.
É em vista de sua regeneração espiritual que os heróis antigos desceram aos Infernos; mas não eram aí retidos, porque a força ascensional extraída das profundezas não tardava em transportá-los ao céu. O recipiendário, ele também, não se hospeda senão transitoriamente na matriz subterrânea onde se prepara seu renascimento. Ele não pode, todavia, sair de sua cela a não ser “nem nu nem vestido”, ou seja, abandonando uma parte de suas vestes. O uso prescreve, com efeito, colocar a nu o peito e o joelho esquerdo, assim como o braço direito. Convém, além do mais, descalçar o pé direito e colocá-lo numa alpargata, depois, o que é mais importante, vendar os olhos do recipiendário. Este não recebe nenhuma explicação enquanto as provas não forem sofridas; ele permanece desconcertado, entregue intencionalmente às suas conjecturas, aguardando a instrução iniciática que deve merecer.
O leitor adivinha que a região do coração é colocada a descoberto em alusão à absoluta sinceridade do recipiendário, do qual a manga direita da camisa é erguida em sinal de preparação para o trabalho. A nudez do joelho quer que, a isso se submetendo, ele entre diretamente em contado com o solo sagrado, que o pise, por sua vez, com o pé descalço. Mas por que o outro pé conserva-se calçado? É indispensável executar mancando os primeiros passos que conduzem à iniciação?
Paira um mistério sobre o rito do pé descalço. Sem a perda de uma das sandálias, Jasão não teria empreendido a conquista do Tosão de Ouro. O israelita que se recusa a desposar a esposa de seu irmão deve percorrer a cidade com um só dos pés calçado. Eliphas Levi sugere que a preparação física do recipiendário lhe ensina a levar em conta a alternância das ações mágicas. A toda corrente positiva intencionalmente acionada corresponde uma contracorrente negativa oculta; quando o profano se lança na ação, ele negligencia, muito freqüentemente, a reação fatal que prevê o Iniciado. Há muito que meditar sobre essa matéria.
Mas o cerimonial iniciático não comporta pausas, prestando-se ao recolhimento; ele desenrola-se teatralmente, um programa enigmático, desconcertante à primeira vista. O recipiendário deve resignar-se a não compreender imediatamente a significação do cenário que se desenrola em sua honra. Atém-se a se abandonar ao guia invisível que o faz sofrer as provas de olhos vendados.
Conduzido cegamente diante da porta do Templo, ele é convidado a aí bater. Antes de ser admitido, ele deve ser reconhecido como “nascido livre e de bons costumes”, ao mesmo tempo em que sinceramente desejoso de ver a luz.
Para entrar, ele se inclina profundamente, testemunhando seu respeito para com o mistério que ele ignora. Um orgulhoso não saberia penetrar senão como intruso no santuário da procura independente do verdadeiro; ele deve ser humilde para instruir-se: quanto mais consciência temos de nossa ignorância, melhor realizamos as disposições favoráveis à nossa instrução.
O recipiendário não se curva, todavia, senão que para endireitar-se com a legítima altivez do homem livre. Ele nada vê, mas, forte em sua lealdade, é sem temor. Quando uma ponta de aço toca-lhe à altura do coração, ele pode acreditar-se ameaçado pela vingança dos iniciados, no caso de trair sua confiança. Na realidade, o rito faz apelo à sua sensibilidade; é ao coração que se endereça a Iniciação, mesmo intelectualmente: são as verdades intimamente sentidas que nos colocam no caminho da luz.
Antes de o recipiendário prosseguir, questões lhe são propostas. Elas não deveriam visar senão que a dirigir sua atenção sobre o esoterismo do cerimonial iniciático. Os símbolos destinam-se a fazer pensar; eles têm uma significação muito vasta e muito profunda para que possam ser substituídos por palavras. O que caracteriza o Iniciado é que os símbolos não são mudos para ele; ele sente, no mais profundo de si mesmo, aquilo que os símbolos se esforçam por dizer-lhe, primeiro confusamente, depois com uma nitidez crescente. Eles obrigam-no a adivinhar, a tirar de si mesmo um ensinamento que não é mendaz, como o é, muito facilmente, aquilo que traduzem as frases.
Advertido do caráter emblemático dos usos maçônicos, o recipiendário empreende sua primeira viagem em torno do quadrilongo traçado no meio da Loja. O espaço central delimitado em forma de retângulo figura uma espécie de Santo dos Santos da Maçonaria. O pé descalço parece autorizado a aí pousar ao longo da borda, à vista de uma santificação, tornando este pé sensível às influências terrestres, permitindo-lhe orientar-se em direção à região de onde provém a luz.
Esses detalhes merecem ser conhecidos, ainda que, na prática, se faça abstração de minúcias ritualísticas mais chamativas do que imediatamente instrutivas. As simplificações admitidas reduzem as peregrinações simbólicas a rápidas caminhadas, partindo do ocidente para o norte e reconduzindo do oriente para o meio-dia, a rota prescrita sendo aquela do Sol, guia daqueles que procuram a luz.
Quando o iniciado penetra o sentido misterioso dessas provas, lembra-se das florestas tenebrosas dos romances de cavalaria. Os monstros aí ameaçam o temerário que, vacilando a cada passo, deve vencer mil dificuldades para chegar aos campos ensolarados de seus sonhos. Para os maçons, a luz é contida no Ocidente pelos objetos que caem sob nossos sentidos. Partimos daí para nos dirigir ao Oriente, cuja claridade nos ajuda a compreender. Quanto mais o espírito está ávido de compreensão, mais se entrega às suposições casuais, às hipóteses falaciosas, caminhando assim através das trevas brumosas do setentrião. Chegado ao Oriente, vangloria-se de haver percebido a razão dos fenômenos ocidentais. Orgulhoso de sua filosofia, ele retorna ao Ocidente pelo caminho do meio-dia, que o conduz sobre uma planície queimada, onde o raciocínio se exerce sem piedade, ambicioso de tudo explicar. Não escutando senão sua lógica, o raciocinador elabora um sistema que o satisfaz: isso equivale à ascensão simbólica a uma montanha, no cume da qual a vida espiritual estende-se sobre todo domínio terrestre... Satã não intervém senão que para tentar o filósofo, prometendo-lhe o império do mundo, mas o orgulho espiritual chama uma catástrofe. O vento da crítica eleva-se; ele não tarda em soprar como tempestade: o granizo se abate, a torrente ronca e turbilhões furiosos arrancam do solo o audacioso ascensionista. Projetado através do Ar, ele cai na planície das constatações objetivas, onde o recebem braços que amortizam sua queda.
Visto a rapidez da iniciação cerimonial, o ritual em uso nas Lojas renuncia sabiamente a toda instrução esotérica; tudo se limita a interpretações indicativas elementares relacionadas ao alcance moral das provas. Muitos maçons se atêm infelizmente às migalhas verbais que puderam recolher e, não refletindo mais adiante, param no texto que lhes foi lido:
Essa primeira viagem é o emblema da vida humana; o tumulto das paixões, o choque dos diversos interesses, a dificuldade dos empreendimentos, os obstáculos que multiplicam sob vossos passos as correntes que se empenham em vos prejudicar e sempre dispostas a vos desencorajar, tudo isso está figurado pela desigualdade do caminho que haveis de percorrer, assim como pelo ruído que se faz em torno de vós.
Vós entrastes numa senda difícil e eriçada de asperezas; vós escalastes com esforço uma montanha do cume da qual seríeis precipitados num abismo, se um braço protetor não vos houvesse sustentado.
Isso significa que, no mundo, se nos damos freqüentemente muito trabalho para atingir uma posição que, finalmente, não reserva senão ruína e decepção.
Para o iniciável que retorna das profundezas onde o espírito se encontrou em presença dele mesmo, não está aí senão um início de perseverantes meditações. Por reação equilibrante, a descida concentradora levada ao extremo suscita uma equivalente expansão ascendente. Aquele que desceu aos infernos obterá escalar o céu; ao sair de si, ele vai distender-se até a contemplação do Todo exterior, mas a vertigem mental provoca então a queda sobre o terreno da objetividade.
Oswald Wirth — Os Mistérios da Arte Real — Ritual do Adepto.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
A DOAÇÃO
"E há os que muito têm e dão-no inteiramente".
Com o poema abaixo, vai nosso agradecimento à Irmã YOLANDA MARCELA JEREZ CASTILLO, membra ativa da Grande Fraternidade Universal, pela palestra proferida em nossa Loja neste dia 27-11-2013.
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Então um homem opulento disse:
"Fala-nos da Dádiva."
E ele respondeu:
"Vós pouco dais quando dais de vossas posses.
É quando derdes de vós próprios, que realmente dais.
Pois, o que são vossas posses, senão coisas que guardais por medo de
precisardes delas amanhã?
E amanhã, que trará o amanhã ao cão ultra prudente que enterra ossos nas
areias movediças, enquanto segue os peregrinos para a cidade santa?
E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade?
Não é vosso medo da sede, quando vosso poço está cheio, a sede
insaciável?
Há os que dão pouco do muito que possuem, e fazem-no para serem
elogiados, e seu desejo secreto desvaloriza seus presentes.
E há os que pouco têm e dão-no inteiramente.
Esses confiam na vida e na generosidade da vida, e seus cofres nunca se
esvaziam.
E há os que dão com alegria, e essa alegria é sua recompensa.
E há os que dão com pena, e essa pena é seu batismo.
E há os que dão sem sentir pena nem buscar alegria e sem pensar na
virtude:
Dão como, no vale, o mirto espalha sua fragrância no espaço.
Pelas mãos de tais pessoas. Deus fala, e, através de seus olhos, Ele
sorri para o mundo.
É belo dar, quando solicitado; é mais belo, porém, dar sem ser
solicitado, por haver apenas compreendido;
E, para os generosos, procurar quem receberá é uma alegria maior ainda
que a de dar.
E existe alguma coisa que possais conservar?
Tudo que possuís será um dia dado.
Dai, portanto, agora para que a época da dádiva seja vossa e não de
vossos herdeiros.
Dizeis muitas vezes: "Eu daria, mas somente a quem merece."
As árvores de vossos pomares não falam assim, nem os rebanhos de vossos
pastos.
Dão para continuar a viver, pois reter é perecer.
Certamente, quem é digno de receber seus dias e suas noites é digno de
receber de vós tudo o mais.
E quem mereceu beber do oceano da vida, merece encher sua taça em vosso
pequeno córrego.
E que mérito maior haverá do que aquele que reside na coragem e na
confiança, mais ainda, na caridade de receber?
E quem sois vós para que os homens devam expor seu íntimo e desnudar
seu orgulho a fim de que possais ver seu mérito despido e seu orgulho
rebaixado?
Procurai ver, primeiro, se vós próprios mereceis ser doadores e
instrumentos do dom.
Pois, na verdade, é a Vida que dá à Vida — enquanto vós, que vos julgais
doadores, sois simples testemunhas.
E vós que recebeis — e vós todos recebeis — não assumais nenhum encargo
de gratidão, a fim de não pordes um jugo sobre vós e vossos benfeitores.
Antes, erguei-vos juntos com eles, sobre asas feitas de suas dádivas;
Pois se ficardes demasiadamente preocupados com vossas dívidas, estareis
duvidando da generosidade daquele que tem a terra liberal por mãe e Deus por
pai."
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GIBRAN KHALIL GIBRAN - O PROFETA
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segunda-feira, 25 de novembro de 2013
LOJA ABERTA DE ENCERRAMENTO DAS ATIVIDADES DO ANO DE 2013
Nesta quarta-feira, dia 27-11-2013, encerraremos nossas atividades do ano de 2013 com uma Loja Aberta. Na oportunidade teremos uma palestra sobre iniciação com YOLANDA MARCELA JEREZ CASTILLO, membra ativa da Grande Fraternidade Universal.
O acesso será franqueado aos visitantes a partir das 20:00 horas, no templo situado à rua Barão de Tramandaí, 23, Passo D'Areia, Porto Alegre, RS.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
OS RITOS DE ABERTURA E FECHAMENTO DOS TRABALHOS
Depois de haver tomado lugar em Loja, o neófito inicia-se no funcionamento da oficina, assim como nas formalidades de fechamento dos trabalhos que o preparam para a compreensão dos ritos de abertura, nos quais ele se instruirá ulteriormente.
Quando a ordem do dia está esgotada, o Venerável Mestre pergunta aos assistentes se eles têm propostas a fazer no interesse da Maçonaria em geral ou da Loja em particular. Se as propostas feitas não comportam discussão, elas são colocadas sob malhete durante a sessão, ou seja, submetidas ao voto da assistência; elas são, ao contrário, enviadas ao estudo de um Irmão competente ou de uma comissão, se seu exame se anuncia laborioso, reservando-se a Loja, então, o direito de decidir com pleno conhecimento de causa.
Quando ninguém mais pede a palavra, diz-se que as colunas estão mudas. Esse mutismo, — que se relaciona aos Irmãos colocados nas colunas do meio-dia e do setentrião, — determina ao Experto e ao Hospitaleiro o cumprimento de seu ofício. Munidos, — um, do saco de propostas e informações, e outro, do tronco de solidariedade, — eles contornam a Loja, para recolher as propostas escritas e as ofertas destinadas aos infortunados.
O Venerável Mestre lê as proposições escritas sob reserva de assinatura, porque a Loja deve poder se pronunciar a seu respeito com toda independência, sem levar em conta o autor.
Depois de decidir sumariamente sobre eventuais propostas, um golpe de malhete anuncia que os trabalhos vão ser fechados. É preciso, para esse efeito, que os obreiros estejam satisfeitos, o que é respondido pelo 1º Vigilante. Este oficial declara, além disso, que os Maçons têm o costume de encerrar seus trabalhos à meia-noite. Seu colega, interrogado, afirma então que é meia-noite. Logo, todos os Irmãos se levantam ao sinal do Venerável Mestre e tomam a atitude ritualística de Aprendiz Maçom. Convidado a fechar os trabalhos, o 1º Vigilante pronuncia a fórmula de fechamento que sancionam três golpes de malhete seguidos da execução, por todos os assistentes, do sinal e da bateria do grau.
O ruído, nada tendo de iniciático, pode-se perguntar se o costume de bater três vezes nas mãos não seria de inspiração profana. Quanto à aclamação Liberdade, Igualdade, Fraternidade, nós sabemos que ela data do século XVIII e que caracteriza unicamente a Maçonaria latina. Antes de se separarem, os Maçons anglo-saxões levam três vezes a mão direita ao coração, pronunciando, a cada vez, a palavra fidelity; em seguida, o fechamento da Bíblia sanciona para eles o fechamento da Loja.
A essa extinção simbólica da Grande Luz dos Maçons protestantes corresponde, mais tradicionalmente, a extinção efetiva das três chamas que figuram Sabedoria, Força e Beleza, acompanhada do apagar do quadrilongo. Com o auxílio de uma esponja úmida, o Irmão Experto fazia desaparecer outrora todo traço dessa misteriosa figura, restituindo assim ao local seu caráter profano.
Seria penoso aos Maçons dispersarem-se sem haver simbolizado sua indissolúvel união através da formação de uma cadeia fraternal viva, a cadeia de união. Arrumados em círculo fechado, seguram-se pelas mãos, os braços cruzados, enquanto um deles lembra, com algumas frases, suas aspirações comuns e, sobretudo, seus sentimentos de mútua afeição que se estendem a todos os Maçons e a todos os homens.
Esses ritos dão a refletir ao novo iniciado que deve gradualmente descobrir-lhes o alcance. Ele ficará surpreso com a importância que os Maçons dão às horas convencionais e, de modo geral, à observância de tradições misteriosas. A abertura dos trabalhos, a propósito, acabará de surpreendê-lo.
Antes da hora indicada pela prancha de convocação que recebem, os membros da Loja reúnem-se no local dos trabalhos. Entretêm-se amigavelmente e acolhem com polidez todo recém-chegado. O último iniciado, o Benjamim da Loja, é imediatamente colocado à vontade; cada um não deseja senão instruí-lo, para guiar seus primeiros passos em Maçonaria.
Quando chega a hora, o Venerável Mestre toma lugar no Oriente, decora-se com o esquadro e segura nas mãos o malhete. Em seguida, os oficiais da Loja ocupam seus postos, e os outros Irmãos colocam-se nas as colunas. Três golpes de malhete batidos sucessivamente pelo Venerável Mestre e pelos dois Vigilantes comandam então um silêncio absoluto, em meio ao qual são colocadas questões que provocam instrutivas respostas.
A primeira pergunta do Venerável Mestre endereça-se ao 1º Vigilante que, por sua resposta, é chamado a fazer-se conhecer como Maçom. Interrogado a seguir sobre seu dever primordial em Loja, esse oficial se reconhece como responsável pela cobertura da oficina e assegura, por intermédio do 2º Vigilante, a vigilância do Irmão Cobridor, postado como guarda à porta da Loja. Desde que tal controle esteja efetuado, o 1º Vigilante dá um golpe de malhete; depois, anuncia que a Loja está coberta.
Os Vigilantes têm por segundo dever o de assegurar-se da qualificação maçônica dos assistentes. Ao sinal do Venerável Mestre, todos tomam a atitude prescrita, e os Vigilantes percorrem logo as colunas, nas quais eles fazem a inspeção. Se surpreenderem quem quer que seja como suspeito, encarregarão o Irmão Experto de cumprir seu dever; mas, — o mais freqüentemente, — eles retornam a seus respectivos lugares, para declarar que a assistência não está composta senão que por bons e legítimos Maçons.
Doravante é possível abrir os trabalhos. Mas a que horas devem eles ser abertos? Ao meio-dia, declara o 1º Vigilante; ora, de acordo com o 2º Vigilante, é meio-dia.
Em razão da hora, o Venerável Mestre abre então os trabalhos por três golpes de malhete, aos quais os assistentes respondem, executando o sinal de Aprendiz seguido da bateria do grau e da aclamação. Eles são, a seguir, convidados a tomar lugar para trabalharem com a ajuda e sob a proteção do Grande Arquiteto do Universo.
As precauções tomadas à vista da segurança não têm por que surpreender o novo Iniciado, que não ficará intrigado senão que com as horas convencionais nas quais se abrem e se fecham os trabalhos maçônicos. Que significa trabalhar do meio-dia à meia-noite? Os construtores ordinários têm o hábito de começar a trabalhar nas horas matinais, repousar ao meio-dia e,depois, retomar o trabalho até o final da tarde. Por que os Maçons especulativos reservam ao trabalho as doze horas durante as quais o Sol declina? Eis aí um dos numerosos enigmas que a Maçonaria propõe à sagacidade de seus adeptos.
A procura da verdade, — que é o objetivo primordial do trabalho iniciático, — não saberia ser inaugurada com fruto desde a manhã de nossa vida intelectual. Nós não discernimos judiciosamente senão que em nosso meio-dia vital, quando, controlando nossas faculdades, chegamos à maturidade viril do pensador. É, pois, atingindo a metade do caminho de nossa vida que abordamos, com Dante, a obscura floresta das provas iniciáticas. Uma vez consagrados à Grande Obra, não cessaremos de trabalhar até nossa meia-noite individual, termo de nosso grande dia terrestre; até nossa última hora, podemos pensar e manter bons sentimentos.
A Loja não se abre efetivamente senão quando é meio-dia no espírito dos obreiros espirituais. Ora, o 2º Vigilante, que deve conhecer a instrução iniciática de cada um, é chamado pelo Ritual a pronunciar-se sobre a hora esperada. Declarando que é meio-dia, ele se torna garante da maturidade mental dos assistentes.
Pode parecer estranho que esta maturidade seja atingida desde a idade de três anos, que é aquela dos Aprendizes. Esta idade da infância iniciática marca uma fase muito avançada em relação à vida profana; o Iniciado de três anos deve ter penetrado os mistérios do Ternário: ele compreende que tudo é triplo em nossa concepção, mas um em sua essência metafísica.
O Aprendiz afirma-se esclarecido sobre o Ternário iniciático, quando ele participa da tripla bateria que sanciona a abertura e o fechamento dos trabalhos.
A Loja, sendo proclamada aberta, pertencia outrora ao Irmão Experto santificá-la, traçando o quadrilongo que delimita, no centro do Templo, uma espécie de Santo dos Santos, onde ninguém deve colocar o pé, salvo o recipiendário quando, descalço intencionalmente, é admitido a pisar a borda do solo sagrado. Esse rito parece remontar ao culto da Terra-Mãe, iniciadora muda com a qual o homem se comunica pelos pés; mas, — para que, do fundo das coisas, os pensamentos remontem até o cérebro, — o contato deve estabelecer uma corrente. A sensibilização dos pés relaciona-se, pois, a uma percepção misteriosa oposta àquela que toma a via dos sentidos ordinários. Os astrólogos fazem a cabeça corresponder ao Carneiro, signo do fogo, de iniciativa e discernimento consciente; eles, ao contrário, atribuem os pés a Peixes, que nadam no oceano de Água, dispensadora da pré-Sabedoria difusa, anterior à percepção de noções distintas.
Não se deve esquecer jamais que aquilo que é facilmente cognoscível é de ordem profana. A Iniciação relaciona-se ao que é misterioso e demanda ser sentido antes de traduzir-se em noções nitidamente inteligíveis. Para aprender a pensar ativamente, por si mesmo, e não assimilando passivamente o pensamento de outrem, é preciso evocar no silêncio um pensamento que nós atraímos das profundezas da terra, como se ele nos viesse pelos pés.
Os mistérios do quadrilongo, em torno do qual vigiam Sabedoria, Força e Beleza, não são profanados em Lojas que se limitam ao jogo infantil do ritual. O Irmão Experto está aí isento de seu ofício capital; nada mais se risca com giz sobre o assoalho da oficina, mas o predecessor do Venerável Mestre em exercício abre a Bíblia, que santifica de modo judaico-cristão a Loja.
Que nos seja permitido lembrar com saudade o antigo modo de santificação que, puramente maçônico, conformava-se ao gênio universalista da Iniciação; será preciso que a Maçonaria retorne a si mesma, se quiser cumprir sua missão que é a de ensinar e a de praticar a Arte Real.
Oswald Wirth — Os Mistérios da Arte Real — Ritual do Adepto.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
A INICIAÇÃO MAÇÔNICA
A Franco-Maçonaria é uma instituição moderna quanto à
sua organização que não vai além de 1717, data da constituição, em Londres, da
Grande Loja mãe da qual derivam mais ou menos diretamente todas as federações
maçônicas do mundo.
O que nasceu então foi uma confraternidade que se
afirmava como universal e que deveria permanecer aberta a todos os homens de
reconhecida moralidade, sem distinção de religião, de opiniões políticas, de
nacionalidade, de raça nem de posição social. Essa associação tinha por
finalidade conseguir que seus adeptos se unissem, apesar de tudo quanto os
poderia separar. Era seu dever a mútua estima e o esforço pela compreensão
recíproca, em que pese o distanciamento em sua maneira de pensar ou de
expressar-se.
Alegoricamente, a Franco-Maçonaria aspirava a remediar
a confusão das línguas que dispersara os construtores da Torre de Babel. Seu
objetivo era formar Maçons capazes de compreenderem-se de um pólo a
outro, para juntos edificarem um templo único aonde viriam a se confraternizar
os sábios de todas as nações. Este edifício não se inspirava, de modo algum, no
capricho humano: não é uma Torre destinada a desafiar o céu com seu orgulho,
mas um santuário cujo plano concebeu o Grande Arquiteto do Universo.
A Franco-Maçonaria tem grande cuidado em não definir o
Grande Arquiteto, deixando toda liberdade aos seus adeptos para que façam do
mesmo uma idéia de acordo com sua fé ou com sua filosofia. Os Franco-Maçons
deixam a teologia aos teólogos, cujos dogmas levantam discussões apaixonadas,
quando não conduzem a guerras ou a perseguições iníquas. Ao dogmatismo rígido e
intransigente, a tradição maçônica opõe um conjunto de símbolos coordenados
logicamente, de maneira a explicarem-se uns aos outros. Os espíritos reflexivos
encontram-se, de tal sorte, convidados a descobrir por si mesmos os mistérios
aos quais alude o simbolismo. Algumas sumárias indicações marcarão o caminho a
percorrer, mas não se comunica ao neófito mais que a primeira letra da palavra
sagrada: ele deverá saber por si mesmo adivinhar a segunda. Seu instrutor
revela-lhe, a seguir, a terceira, a fim de que possa encontrar a quarta e assim
sucessivamente.
Esse método é muito antigo. Seu propósito é formar
pensadores independentes, desejosos de chegar, por seu próprio esforço, a
discernir a verdade. Nada se lhes inculca nem se lhes pede algum ato de fé a
propósito de qualquer revelação sobrenatural; do longínquo passado, onde tem
fixadas as suas raízes espirituais, a Franco-Maçonaria não herdou crenças
determinadas nem doutrinas concretas, mas, sim, apenas seus procedimentos de sã
e leal investigação da Verdade.
Portanto, pedir a admissão na Franco-Maçonaria não
pode ser questão de esperar a comunicação destes fatos misteriosos que tanto
intrigam os aficionados em ciência oculta. Os Franco-Maçons interessam-se
individualmente por todos os conhecimentos humanos, e podem ser, se for o caso
e segundo lhes apraz, ocultistas, teósofos, metapsiquistas, etc., mas a
Franco-Maçonaria abstém-se, em absoluto, de ensinar algo em qualquer ordem de
idéias. Não tem por missão resolver os enigmas que se apresentam à mente humana
e não se declara a favor de nenhuma das teorias explicativas dos fatos
sensoriais. Indiferente a toda suposição arriscada, coloca-se acima dos
sistemas cosmogônicos formulados, ora por religiões, ora por escolas de
filosofia.
O que preconiza é este prudente positivismo que toma
por ponto de partida em todas as coisas o comprovável. No decorrer de suas
viagens simbólicas, o neófito parte sempre do Ocidente, onde se ergue a fachada
da objetividade, ou seja, a fantasmagoria das aparências que perturbam nossos
órgãos. Tudo termina aí para o materialista que acredita inútil buscar algo
mais. Todavia, muito distinta é a convicção dos espíritos propensos à
meditação. Estes últimos se recusam a ficar no aspecto superficial das coisas,
e sua ambição é aprofundar tudo. Para esses aspirantes à iniciação, tudo quanto
afeta nossos sentidos constitui um enigma que podemos decifrar. Buscam o
significado do espetáculo que lhes oferece o mundo e lançam-se a suposições por
demais arriscadas. Ao penetrarem desse modo na tenebrosa selva das quimeras,
com tanta complacência quanto a descrita nas novelas cavalheirescas, o pensador
vê-se obrigado a combater todos os monstros de sua própria imaginação. Deve
abrir passo através do inextrincável emaranhado das concepções mal vindas, para
alcançar penosamente o Oriente, de onde brota a luz. De outra parte, ao sair
das trevas da noite, a luz da manhã deixa-o discernir somente o absurdo das
teorias preconizadas para explicar o inexplicável; convencido de sua impotência
para penetrar o mistério das coisas, empreende o regresso ao Ocidente, seguindo
agora a rota do Meio-Dia.
Já não é mais um caminho semeado de obstáculos,
marcado apenas pela densidade da obscura selva do Norte: cheia de rochas e na
absoluta falta de vegetação, a região sul não oferece o menor abrigo ao
peregrino que avança sob os ardentes raio de um sol implacável. Uma luz cruel
ilumina os objetos que encontra a sua passagem e aos quais enxerga tais como
são, sem que possa formar qualquer ilusão a respeito dos mesmos.
Chegado outra vez ao Ocidente, julga então de
diferente maneira o que afeta os seus sentidos. O eterno enigma parece-lhe
menos indecifrável, porém mais penetrante ainda. Irritado, não pode permanecer
por muito tempo em estado contemplativo; seu espírito trabalha outra vez, e temo-lo
entregue a conjecturas, porém já em meio a uma prudente desconfiança, e as
extravagâncias do início transformaram-se em hipóteses mais sólidas.
Recomeça a viagem que prossegue indefinidamente sempre
no mesmo sentido, partindo do Ocidente em direção ao Norte, para regressar a
seguir do Oriente pela rota do Meio-Dia. Cada vez resulta menos áspero o
caminho, por mais que abundem os obstáculos: deve escalar montanhas, transitar
por planícies repletas de perigos, atravessar rios de impetuosa corrente, explorar
desertos abrasadores e sondar abismos vulcânicos. Tais são as provas que deve
suportar, — não simbolicamente nem na imaginação, — mas em seu verdadeiro
significado, ou seja, em espírito e verdade, para que a venda de nossa
ignorância se vá atenuando até cair, por fim, de nossos olhos, ao cabo de nossa
purificação mental.
Logo, tratar-se-á de encontrar a luz entrevista, e
viajar com tal propósito, imitando o sol em sua aparente revolução diária.
Eis o processo tradicional da iniciação maçônica. É o
ensinamento através do silêncio. Nada de palavras que possam faltar à verdade,
mas apenas ações, cuja finalidade é nos convidar à investigação. Aqui, não
encontramos uma doutrina explícita, mas unicamente um ritual por meio do qual
vivenciamos aquilo que devemos aprender. Nenhum dogma. Apenas alguns símbolos.
Não é um método ao alcance das multidões que pedem
soluções prontas e seguem felizes àqueles que as enganam, por certo, de boa-fé
na maioria dos casos.
A característica da iniciação, — da verdadeira, — é
sua absoluta sinceridade: não enganar ninguém, eis aí sua constante e principal
preocupação. Por isso mesmo, resulta amarga e decepcionante. Quem a possui,
compreende que não sabe nada; o sábio observa um modesto silêncio e guarda-se
de erigir-se em pontífice. Se o iniciado pede a luz, é apenas para poder melhor
cumprir a tarefa que lhe incumbe e, rechaçando toda curiosidade indiscreta, não
perde tempo em querer aprofundar mistérios insondáveis por sua própria
natureza. Começando sempre pelo que é conhecido (Ocidente), vai se instruindo
sem precipitação e não teme examinar de novo o que lhe parecia certo. Resiste a
perder-se em estéreis especulações e aceita apenas aquelas que têm como
finalidade a ação. O trabalho é, em sua maneira de ver, a justificativa de sua
própria existência. A função cria o órgão, e não somos mais que instrumentos
constituídos à vista de uma tarefa que devemos cumprir.
Apliquemos, pois, toda nossa inteligência em discernir
o que de nós se espera e esforcemo-nos por trabalhar bem. Trabalhar bem é
viver bem, e viver bem é, sem dúvida alguma, o ideal que nos propõe a vida.
Trata-se de aprender a teoria para logo exercitar a prática da Arte de
Viver. Eis aí o objetivo essencial da iniciação maçônica.
Ideal Iniciático tal como se Depreende dos Ritos e Símbolos - Oswald Wirth
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
SOLIDARIEDADE MAÇÔNICA
Ven - Por que a Maçonaria combate a ignorância, em todas as suas formas?
1º Vig - Porque a ignorância é a mãe de todos os vícios e seu princípio é nada saber; saber mal o que sabe e saber
coisas outras além do que deve saber. Assim, o ignorante não pode se medir
como o sábio, cujos princípios são a Tolerância, o Amor Fraternal e o Respeito
a si mesmo. Eis porque os ignorantes são grosseiros, irascíveis e perigosos;
perturbam e desmoralizam a sociedade, evitando que os homens conheçam seus
direitos e saibam, no cumprimento de seus deveres, que, mesmo com
constituições liberais, um povo ignorante é escravo. São os inimigos do
progresso, que para dominar, afugentam as luzes, intensificam as trevas e permanecem
em constante combate contra a Verdade, contra o Bem e contra a Perfeição.
Ven - E por que combatemos o fanatismo, Ir 2º Vig?
2º Vig - Porque a exaltação pseudo-religiosa perverte a razão e conduz os
insensatos a, em nome de Deus e para honrá-lo, praticarem ações condenáveis. É
uma moléstia mental, desgraçadamente contagiosa, que se implanta em um País,
toma foros de princípio, em cujo nome, nos execráveis postulados, fizeram
perecer milhares de indivíduos úteis à sociedade. A superstição é um falso
culto mal compreendido, repleto de mentiras, contrário à razão e às idéias que
se deve fazer de Deus; é a religião dos ignorantes, das almas tomoratas.
Fanatismo e superstição são os maiores inimigos da religião e da felicidade dos
povos.
Ven - Para fortalecermo-nos nos combates, que devemos manter contra esses
inimigos, qual o laço sagrado que nos une?
2º Vig - Solidariedade, Ven Mest.
Ven - Será, por isso, que comumente, se diz que a Maçonaria proporciona a
seus adeptos vantagens morais e materiais?
2º Vig - Essa afirmação não corresponde à verdade. O proveito material, com
interesse unicamente individual, não entra nas cogitações dos verdadeiros Maçons e as vantagens
morais resumem-se no adquirir a firmeza de caráter, como conseqüência natural
da nítida compreensão dos deveres sociais e dos altos ideais da Ordem.
Ven - Como podeis fazer tal afirmação, se todos dizem que a solidariedade
maçônica consiste no amparo incondicional de uns aos outros Maçons, quaisquer que
sejam as circunstâncias?
2º Vig - É a mais funesta interpretação que se tem dado a esse sentimento
nobre, que fortalece os laços da fraternidade maçônica. O amparo moral e
material que, individual e coletivamente, devemos aos nossos Irmãos, não vai até o
dever de proteger aos que, fugindo de suas responsabilidades sociais, se
desviam do caminho da moral e da honra.
Ven - Que solidariedade, então, é a que deve existir entre nós, Ir 1º Vig?
1º Vig - É a solidariedade mais pura e fraternal, mas somente, para com os que
praticam o bem e sofrem os espinhos da vida; para os que nos trabalhos lícitos
e honrados, são infelizes; para os que, embora rodeados de fortuna, sentem na
alma os amargores da desgraça, enfim, a solidariedade maçônica está onde
estiver uma causa justa.
Ven - Não jurastes, então, defender e socorrer vossos Irmãos?
1º Vig - Jurei, sim, Ven Mest, e, sempre que posso, correspondo a esse juramento. Quando porém, um Irmão esquecido dos
princípios e dos ensinamentos maçônicos, se desvia da moral que nos fortifica
para se tornar um mau cidadão, mau cônjuge, mau pai ou mãe, mau filho, mau
irmão, mau amigo; quando cego pela ambição ou pelo ódio, pratica atos que
consideramos indignos de um Maçom, ele, e não nós, rompeu a solidariedade que nos unia e que não mais
poderá existir; porque, se assim a praticássemos, seria pactuarmos com ações de
que a simples convivência moral nos degradaria. Por isso que o Maçom, que assim
procede, deixou de ser Irmão, perdeu todos os direitos ao nosso auxílio material e principalmente,
ao nosso amparo moral.
Ven - Não deveis porém, dar preferência, na vida pública, a um Irmão da Ordem, sobre um profano?
1º Vig - Em igualdade de circunstâncias, é meu dever preferir um Irmão, sempre que,
para fazê-lo, não cometa uma injustiça, que fira a minha consciência. Os
ensinamentos de nossa Ordem nos obrigam a proteger um Irmão em tudo que for justo
e honesto. Não será justo nem
honesto proteger o menos digno, mesmo que seja Irmão, preterindo os
mais sagrados direitos do mérito e do valor moral e intelectual.
Ven - Então, sistematicamente, não favoreceis a um Irmão?
1º Vig - Sem boas e justas razões, não. Nossa Ordem nos ensina a
amar a Pátria e, portanto, a sermos bons cidadãos. Não o seríamos, nem nos
poderíamos julgar merecedores desse nobre título e da confiança de nossos Irmãos, se, ao bem
público, antepuséssemos os interesses de uma pessoa menos apta ou menos digna
de trabalhar pelos interesses da sociedade e da Pátria.
Ven - Como, então, a voz pública acusa os Maçons de progredirem
no mundo profano, graças ao nosso sistema de recíproca proteção?
1º Vig - São afirmações dos que, não conhecendo as razões das coisas, julgam
incondicional nossa solidariedade. Se há Maçons que galgam
posições elevadas e de grandes responsabilidades sociais, a razão se oculta,
evidentemente no seguinte: nossa Ordem não acolhe o profano, sem antes examinar-lhe a inteligência, o caráter e a probidade. Daí, é natural que de nossa Ordem,
cuidadosamente selecionados, surjam cidadãos que se destaquem por suas
qualidades pessoais, tornando-se assim, dignos de serem aproveitados na
conquista do progresso e da felicidade do povo.
Ven - Concluís, então, que em nossa Ordem, não surjam,
às vezes, desonestos?
1º Vig - Nada é perfeito. Não deixo de reconhecer que, nos temos enganado na
escolha de alguns elementos, apesar do rigor de nossas sindicâncias. Assim,
infelizmente, profanos, com o fito de tirar proveito pessoal de nossa
associação, têm-se infiltrado em seu seio. Alguns, pela natural influência da
vida e das práticas maçônicas, regeneram-se e
transformam-se em bons e proveitosos Obreiros. Para os que são
insensíveis à ação de nossa Moral e de nossos Princípios, nossa Lei nos fornece
meios seguros e prontos de separarmos o joio do trigo, o que devemos fazer sem
temor nem vacilação É, portanto, pela exclusão dos elementos refratários aos
ensinamentos austeros e elevados dos Princípios maçônicos, que poderemos
fortificar nossas Colunas.
Ven - Em que consiste, então, nossa fraternidade?
1º Vig - Em educarmo-nos, corrigindo nossos defeitos e sermos tolerantes para
com as crenças religiosas e políticas de
cada um. Nossa Fraternidade nos ensina a dar e não pedir, sem justa necessidade.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
A SERPENTE DO GÊNESE
Quando crianças recitam fábulas, não são mais ingênuas frente à linguagem que o fabulista emprestou aos animais; da ficção, elas não retêm como verdadeiro senão a moral que daí se destaca. Por que seríamos nós mais ingênuos que elas em presença do mito da queda de nossos primeiros pais?
Essa narrativa é fundamental para a doutrina cristã, pois a catástrofe provocada pela serpente bíblica torna necessária a intervenção do Salvador. Não há nada aí senão que de muito verídico, para que se compreendam as alusões às quais se relacionam as imagens sagradas.
Interpretemos primeiramente os símbolos, inspirando-nos naquilo que eles sugerem mais espontaneamente. Considerado desse ponto de vista, o casal adâmico personifica a humanidade primitiva, ainda animal, no sentido de que ignora o uso do fogo e não sonha nem com vestir-se nem com construir abrigos para si. Nossos primeiros pais nutriam-se de frutos que não se davam ao trabalho de cultivar e, ainda que não fossem macacos, viviam, ao menos, à maneira destes. Sua inteligência não estava ainda desenvolvida; eram impulsivos e obedeciam ao instinto que os guiava infalivelmente em tudo aquilo que tocasse à realização de suas funções fisiológicas. Sem noção do que lhes faltava, eles viviam satisfeitos com sua sorte, felizes e relativamente oniscientes, pois que um infalível instinto os tornava lúcidos quanto à satisfação de suas necessidades.
Tal é o estado paradisíaco que beneficia a animalidade dócil conforme à lei de sua espécie. Uma providência a protege, mas interdita-lhe aspirar o discernimento, porque o discernir é praticar ato de autodomínio intelectual, é querer fiar-se de outra luz que não a do instinto. Renunciar a deixar-se guiar passivamente por este último equivale a uma insubordinação culpável aos olhos do gênio protetor da espécie animal, logo, a um pecado contra as divindades agrestes, tais como o Pan helênico o Enkitou babilônico.
É importante insistir sobre esse ponto, porque, se a Bíblia monoteísta está, às vezes, em contradição com ela mesma, é porque as tradições que ela recolheu remontam freqüentemente a muito antigas mitologias. O deus antropológico do paraíso que deita vistas à brisa da noite é um antigo gênio tutelar confundido com o Ser Supremo. Não é senão a esse título primitivo que sua atitude se explica, porque um criador infinitamente sábio nos desconcertaria, se aquilo que se realizasse não estivesse dentro de seus planos. Como conceber que plantasse uma árvore fatídica e se desse ao trabalho de dotar a serpente de sua sutil sedução, sem contar com a queda? Apenas a mitologia comparada esclarece o significado de certos textos que emolduram mal a teologia judaica.
Que um deus pagão preposto ao governo da animalidade se ofenda com a emancipação humana, nada de mais escusável; mas respeitemos suficientemente a inteligência suprema, para não lhe atribuir sentimentos mesquinhos. Não é ela que forma os atores do drama da eterna evolução cujo espetáculo ela dirige?
Entre esses atores figura a serpente que, longe de ser maldita por nossos longínquos ancestrais, aparece-lhes, ao contrário, como digna de veneração. Adornando as fontes que fazem jorrar a água vivificante do seio da terra divinizada, os lígures estabeleceram uma analogia entre o riacho serpeante através da pradaria e a serpente deslizando entre as ervas, tanto que fizeram do réptil um animal sagrado diretamente relacionado com a vida. Partindo de uma concepção idêntica, os gregos atribuíram mais tarde à serpente um poder curativo. Eles mantinham, nos templos de Esculápio, ofídios cujo contado deveria curar os doentes. O Ouroboros, — a imensa serpente que morde a própria cauda, — simbolizava, de outra parte, a vida geral, indestrutível, em seu eterno recomeço.
Mas a serpente bíblica faz alusão ainda a outro aspecto do símbolo. Se ela persuadiu Eva a provar do fruto proibido, é porque era da família da serpente python, inspiradora das pitonisas. Essas adivinhadoras liam naquilo que os ocultistas, a exemplo de Paracelso, chamavam de a luz astral. É permitido comparar esse agente da iluminação imaginativa à obscura claridade que emana das estrelas, mas mais vale figurá-la como um brilho fosforescente envolvendo o globo terrestre. Essa atmosfera de difusa luminosidade influencia as imaginações receptivas que se comportam, em relação a ela, como um meio refringente condensador. Assim se explica a iluminação dos videntes que favorece a impressionabilidade passiva dos contemplativos abandonados ao sonho desperto.
É certo que, antes de pensar de uma maneira consciente, a humanidade longamente sonhou, a imaginação entrando em atividade antes da razão que não despertou senão tardiamente. Tal fato justifica a lenda, quando ela nos mostra a serpente se dirigindo a Eva, personificando as faculdades imaginativas, de preferência a Adão, o futuro racional, nascido pesado de espírito e espontaneamente pouco compreensivo.
Eva adivinha, ela concebe femininamente aquilo que lhe sugere uma influência misteriosa, porque se desenvolve nela um dom de vidência que se relaciona diretamente ao instinto. Deste último até a inteligência controlada, há uma etapa que consiste na adivinhação. Eva aí é elevada; depois faz subir Adão, porque a intelectualidade feminina não pode realizar um progresso sem que a mentalidade masculina disso se beneficie em contrapartida. Eva não pode provar o fruto da árvore do discernimento sem partilhar com Adão o novo alimento que ela considera excelente.
Tomando ao pé da letra a narrativa Bíblia, a desobediência de nossos primeiros pais teria instantaneamente produzido seu efeito: de instintivos, eles ter-se-iam tornado inteligentes por milagre. Dando-se conta de sua nudez, teriam inventado as vestes, sob a influência de um sentimento de pudor que lhes surgira subitamente. É crível que a evolução fosse lenta. Eva pôde escutar a serpente durante séculos antes de tocar o fruto proibido: os mitos se esquematizam com a supressão do tempo.
Na realidade o que corresponde no ser humano à inteligência feminina, logo, às faculdades sensitivas e divinatórias, desenvolveu-se anteriormente ao poder de raciocinar, concebendo idéias nítidas, susceptíveis de encadeamento lógico. A Eva simbólica foi, pois, a primeira a resgatar-se da animalidade pura e simples. Ela teve o pressentimento do amanhã intelectual humano e, inspirada pela serpente, concebeu a ambição de tornar-se semelhante aos deuses, conhecendo o bem e o mal.
Culpada de orgulho aos olhos do gênio tutelar da instintividade que pôde maldizer a serpente, ela não foi certamente culpada de um ponto de vista superior, porque a emancipação humana não poderia faltar em entrar no plano da Suprema Sabedoria.
Que enfoque reclama a teoria da queda? Se existiu aí degradação para a humanidade que se distancia do estado instintivo original, foi em relação à perda da felicidade inconsciente. Nós estimamos feliz a criança que brinca com inocência, preservada das preocupações da vida, mas lamentamos o inocente no qual a fase da infância se prolonga indevidamente, ou o velho tornado inconsciente pelo enfraquecimento de suas faculdades. Cada coisa tem seu tempo, tudo como cada estado comporta suas vantagens e seus inconvenientes. O macaco é mais ágil que o homem, sobre o qual suas quatro patas lhe conferem uma esmagadora superioridade, quando se pendura nas árvores, apoderando-se de seus frutos. O homem sentiu-se, primitivamente, inferior aos animais e teve por eles uma admiração que se traduziu em culto. Mas a espécie deserdada fisicamente desenvolve-se cerebralmente, na razão mesma da inferioridade de sua organização natural. Foi necessário passar por uma longa escola de privações e de sofrimentos, para adquirir artificialmente aquilo que uma sorte cruel parecia lhe recusar. O paraíso perdido corresponde a uma realidade, não menos que a condenação ao labor ingrato; mas é falso erigir em ideal humano a preguiça e a indolente inatividade.
Onde está nossa nobreza? Nós que, orgulhosamente vestidos, não somos mais chamados a curvar a cabeça à maneira dos quadrúpedes? Criaturas cujo orgulho nada tem de ímpio, nós somos da raça dos Titãs, nascidos para conquistar o céu. Mas, desejando o fim, é preciso que aceitemos os meios. O trabalho se impõe a nós: é inelutável, porque apenas ele conduz ao objetivo.
Então, terminemos por compreender e mostremo-nos inteligentes até a penetração do sentido profundo da vida. Constataremos que viver e trabalhar são sinônimos. Os seres não existem senão em vista da tarefa que lhes incumbe. Emancipados da tutela indispensável da infância, não nos revoltemos contra a necessidade de ganhar penosamente nossa vida. Não será gemendo contra o pretenso pecado cometido aos olhos da providência animal, que nos mostraremos homens, dignos filhos daquela Eva que teve o mérito de desejar a inteligência. Bendigamo-la, sem esquecer a serpente, besta feita maldita pela incompreensão.
Observemos. Antes de ser condenada a rastejar na lama, ela não teria sido um desses lagartos tidos por amigos do homem? Símbolo da luz astral, corresponde à divindade caldéia que se eleva até Samas, o deus solar, para chorar diante dele as infelicidades dos vivos, subtraídos à influência de Isthar depois que a deusa foi detida nos Infernos. Essa claridade difusa que ajuda a adivinhar instintivamente traz consigo o risco de errar facilmente, e está longe de oferecer as garantias da razão consciente; também Python sucumbiu traspassada por Apolo. A adivinhação incerta é suplantada por métodos de informação menos equívocos: um saber positivo substitui, pouco a pouco, as quimeras de uma visionariedade primitiva.
Goethe rende-lhe homenagem no conto dito da Serpente Verde. Ele mostra a grande cobra luminosa que se sacrifica para salvar o mundo, transformando-se em ponto de ligação entre as duas margens do rio da vida.
E a serpente de bronze não foi uma imagem antecipada do Salvador?
Oswald Wirth — Os Mistérios da Arte Real — Ritual do Adepto.
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