quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O MAÇOM E O ‘SUPER-HOMEM’ DE NIETZSCHE


“assim falou Zaratustra”
Irm. Ubyrajara de Souza Filho
A maçonaria não é religião. A crença no Grande Arquiteto do Universo na maçonaria é uma realidade filosófica, e não dogmática, traduz uma ideia de entidade dinâmica, um foco social que evolui enquanto se mescla a moralidade e as necessidades da época, moldando e guiando o maçom em seu processo evolutivo de construção de um novo homem. Para a maçonaria a  ideia de Deus resulta da consciência, e as exteriorizações do seu culto não passam de um sentimento íntimo que se  pode traduzir das mais diversas maneiras. Ao mesmo tempo, a maçonaria não se prende a um determinado sistema filosófico porque isso seria tirar de seus adeptos a liberdade de interpretação de seus símbolos, alegorias e mitos, os obrigando a seguir um determinado caminho, o que seria negar a sua própria pregação de liberdade de pensamento.
Utilizando o pensamento de Nietzsche, em sua obra “Assim falou Zaratustra”, podemos deduzir que objetivando não criar sectarismo, a maçonaria apresenta como verdade provisória, ao seu recém-iniciado, ainda fortemente influenciado por suas convicções religiosas pré-concebidas e mistificadas ao longo dos anos, a crença no Grande Arquiteto do Universo como sinônimo de Deus “das religiões”, crença que ele deverá corrigir aos poucos, à medida que ele sobe os degraus da escada da sabedoria, e deverá, gradativamente, “matar esse Deus”, convertendo-o para o Deus “nas religiões”, até chegar, no último grau, ao descobrimento de seu “deus interior” - o conhecimento de si mesmo e de sua Essência – transmutando-o em um ‘homem superior’, perfeitamente identificável com o “Übermensch”, o “super-homem”.
A “morte de Deus”, segundo Nietzsche, representa a desconstrução do padrão de Deus que a metafísica clássica ocidental construiu: o de ser absoluto e supremo. Esse conceito de Deus deveria morrer na consciência do ser humano enquanto mantenedor do sistema tradicional de valores morais e éticos. Como resultado disso, alguém deveria ocupar o seu lugar – o próprio homem, pelo seu autoconhecimento. Entretanto, Nietzsche, entendia que a proclamação da “morte de Deus”, desestabilizaria emocionalmente o homem arraigado em suas crenças metafísicas, pois ela acentua a natureza do medo e da dramaticidade existencial, uma vez que pensar na ausência de Deus assinalaria o declínio da esperança e o estabelecimento da incerteza. O anúncio da “morte de Deus”, portanto, não se trata de propagar ideias anti-teístas. Não pretende ser a disseminação do ateísmo. Mas em erigir um novo conceito sobre o homem e sobre Deus.
Assim, Nietzsche observa que a “morte de Deus” é um acontecimento cultural e existencial. Significa, em outras palavras, matar o “dogma”, o “fanatismo”, o “conformismo”, a “superstição” e o “medo” é desenvolver-se pelo “autoconhecimento” e não aceitar mais a imposição de regras sedimentadas e impostas, que impossibilitam a superação e a auto-afirmação do ser humano que luta incansavelmente para libertar-se desses ‘vícios’ e elevar-se em sua saga existencialista.
Para Nietzsche, o homem deveria ele mesmo conduzir os seus próprios desígnios. Cabe somente a ele fazer as suas escolhas. E, acima de tudo, optar por uma delas, certa ou errada. Os valores arcaicos devem ceder espaço ao surgimento de novos valores. Não mais centrados em afirmações religiosas ou metafísicas, mas em sentenças redigidas pelo próprio homem, transmutado em um Übermensch, (literalmente “homem superior” ou super-homem”). Concretamente existencialista, que não promete a felicidade e gozos na vida futura, transcendental.
Nietzsche em sua obra apresenta um paradigma de humanidade que extingue e supera pelo autoconhecimento o modelo da religião piedosa dos fracos e oprimidos que se encaixa perfeitamente a proposta utópica da maçonaria de criar uma humanidade mais feliz através de “homens superiores”, livres de vícios, superstições e preconceitos. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

EVOLUÇÃO PÉ NO CHÃO


A assistência que frequenta este templo é bem diversa, assim como todos os trabalhadores. Uns buscam um emprego, uma promoção, um aumento de salário, um automóvel, uma casa, inspiração e segurança para a abertura de um negócio próprio. Outros vêm em busca de um amor, da paz para as relações familiares, do perdão de um filho, do carinho do esposo, do sorriso de um irmão. Há também os que estão com depressão, com câncer ou outra doença grave, com algum transtorno psíquico, com dor na coluna, nas pernas. Mas não podemos esquecer daqueles que são médiuns e passam por dificuldades na vida por fugirem ou por não terem consciência deste compromisso cármico, tornando-se pessoas física, emocional e psiquicamente desequilibradas; ou os que ainda não acharam ainda um lugar apropriado para o trabalho, ou, achando-o, a ele não tem acesso. Não podemos esquecer aqueles que encontraram aqui um caminho que lhes ajuda na sua evolução espiritual, na busca do entendimento do que somos, de onde viemos e para onde estamos indo e do nosso papel nesta realidade. Teríamos muito mais motivos a relacionar, pois mui diversa é a humanidade, graças a Deus.
Mas, será que poderíamos dizer que uns são melhores ou mais evoluídos que os outros em função destas diferenças? Será que algum de nós pode dizer quem tem mais ou menos direito a encontrar o que está buscando? Sei que poderíamos responder que sim e que não, todos com suas razões. Mas eu diria sinceramente que não. Ninguém é melhor perante Deus. Todos somos espíritos em evolução, portanto com muita coisa por fazer. Mas a circunstância de convivermos obrigatoriamente com nossas diferenças faz a principal dificuldade de nossas vidas. Como é difícil aceitar estas diferenças. Como é difícil o dia-a-dia, o trânsito, o trabalho, o ônibus, a família, o salário, a doença, a sogra, o colorado ou o gremista. Mesmo entre aqueles intelectualizados que sabem tudo, conhecem as doutrinas, os ritos, os elementos, as fases, os níveis, as definições e conceitos sobre tudo, os símbolos, as magias; que são teósofos, maçons, teólogos, sacerdotes, magos, iniciados, bruxas, xamãs, como é difícil lidar com a vaidade, o orgulho, o preconceito, a intolerância, a empáfia.
Então, já que diferenças não nos faltam e a dificuldade de lidar com elas é tamanha, resolvi falar brevemente sobre algumas coisas simples do cotidiano que podem realmente nos ajudar enquanto espíritos em evolução, evolução pé no chão eu diria.
Em primeiríssimo lugar, vamos falar um pouco sobre o nosso corpo físico. Nós temos a nossa consciência em vigília no plano físico e para este plano temos que voltar primeiramente nossa atenção.
O que estamos comendo? Nós brasileiros estamos comendo muito mal. Importamos a cultura do fast food, da batata frita, do hambúrguer, do refrigerante, da bolachinha recheada, do leite com cacau, da batata palha. Comemos a qualquer hora e em qualquer lugar. E o que estamos recebendo em troca? Obesidade, pressão alta, diabetes, problemas cardiovasculares. Nós gaúchos exageramos na carne, nas gorduras e estamos na dianteira no Brasil em vários tipos de câncer. 2+2=4, eu diria. E daí? Bom, daí que nós sabemos que isto nos faz mal e ainda assim continuamos com este suicídio diário. É preciso dizer o que fazer? Simples: mais frutas, verduras, legumes, grãos, sucos, como era há bem pouco tempo atrás.
E o cuidado com nossa higiene pessoal? Basicamente o básico: corpo limpo, roupas limpas, casa limpa, carro limpo. E a higiene social? Lixo devidamente separado e destinado, ruas limpas, calçadas conservadas, pátio bem cuidado, casa pintada, um jardim florido.
E a saúde? O básico: cuidado com o corpo e com o que nele aparece; sempre que possível, consultar o médico antes de fazer uso de medicamentos; fazer as vacinas; exames preventivos periódicos de praxe conforme a idade: ginecológico, mamografia, próstata, sangue, urina. Infelizmente, não é tão simples quando se depende do SUS, mas quando se age preventivamente, pode-se até ter prazos mais longos de espera. Não esquecendo também que o mínimo de atividade física é excelente.
E o ânimo? Sem essa de trancafiar-se em casa e ver o mundo de longe. Vamos sair por aí. Não interessa se você só pode ir para perto, pra pracinha, pro parque, de ônibus, à pé. Saia e veja o mundo. Aprecie a natureza, o por do sol, a chuva no telhado, o sol amarelo da tarde, o frescor da manhã. Dance, vá ao cinema, ao teatro, à biblioteca, ao museu. Namore, ame, se entregue à sua paixão de adolescente, ande de mãos dadas com sua esposa, beije seus filhos, abrace seus pais, seus amigos. Expresse seu amor. Amor não expresso não se realiza. O carinho dá segurança às pessoas. Não tenha vergonha. Nós somos apenas humanos.
Mas, como diz o gaúcho, tenha tino e razão. Procure sempre atividades sadias. Evite a bagacerice que reina em nossa televisão, nas propagandas, nas músicas. A erotização do nosso cotidiano tornou muitas coisas rasteiras, vulgares, nojentas. E, em função disto, por exemplo, para muitos o sexo deixou de ser algo sadio. Não caia nessa: o sexo é uma das formas de expressão do amor humano, sem exageros, sem excessos.
E a educação de seus filhos? Não é responsabilidade da escola ou do mundo a educação de seus filhos. É sua. Assuma. Tenha certeza que isto exige participação e vai lhe trazer dissabores. Por vezes terá que ser duro e inflexível, para logo depois poder ser meigo e doce. Não tenha medo de estabelecer as margens seguras por onde a água da vida de seus filhos escoa. Isto lhes dá segurança. Seja sempre um exemplo positivo. Seu filho deve saber em qualquer situação como seus pais agiriam. Crie neles desde cedo o hábito da leitura, da boa música, da curiosidade por um instrumento musical, um hobby. Instigue a imaginação e o sonho.
E o seu trabalho? Não é exatamente o que você queria fazer de sua vida? Mude ou mude-se. Se você não pode sair e se dedicar a algo que lhe dê mais prazer e alegria, que tem mais a ver com você, faça então esta atividade ser melhor para você. Dedique-se, faça melhor, dê o melhor, faça com amor. O seu trabalho faz parte do que você deixa para a realidade. Demonstre para a vida que você merece o melhor, pois você faz melhor. Não interessa o que você faz. Seja positivo, interessado, pró-ativo, trabalhador, honesto, pois você na verdade não faz nada para ninguém além de você.
Por fim, o que você acha de dedicar um pouco de si para os outros? Para aqueles que, por incrível que lhe possa parecer, necessitam de uma ajuda, que pode ser sua. Mas o que se pode fazer? Qualquer ajuda serve. Grupos de ajuda a dependentes de qualquer espécie; a escola do seu filho; hospitais; albergues; instituições de ajuda a excepcionais, idosos; creches; a religião com a qual você mais se identifica; grupos filosóficos e de estudo; penitenciárias e instituições que abrigam jovens transgressores. Em fim, não falta o que fazer.
Mas, ao final das contas, o que todas estas coisas têm a ver com evolução? Tudo. Todas estas atividades e cuidados se refletem positivamente nos nossos corpos físico, etérico, astral e mental. Todas estas coisas são capazes de diminuir a carga que trazemos de outras encarnações e que levaremos para outras.
Tá certo: mas então, fazendo tudo isto já podemos nos considerar seres evoluídos? Bem, mas o que é um ser evoluído? A resposta quem dá é Ramatis, por intermédio de Norberto Peixoto, no livro "Aos pés do preto velho", editora do conhecimento, página 22: "A Consciência, quanto mais ascenciona no longo e interminável percurso da evolução, mais vibra amor pela coletividade, "anulando" completamente o seu ego e os resquícios das personalidades que viveu no passado. Os restos egoísticos de antigas personagens humanas não existem mais no espírito plenamente cristificado. Quem alcançou a maestria interior do Cristo, venceu suas paixões e desejos mundanos. Já não mais se pertence e faz parte do Todo Universal, como partícula integrante da Mente do Criador. Assim sendo, quem ouve o chamamento do Cristo interno e o põe em prática é como o sábio que edificou sua casa numa rocha. A diferença entre o ser cristificado e o que ainda galga os degraus da insensatez egoística está em que um ouviu e atendeu ao chamamento do Cristo, praticando o Seu evangelho, e o outro só intelectualiza e nada realiza".
Não sei quanto a vocês, mas penso que a maioria de nós ainda está bem longe disto, principalmente eu.

Palestra realizada em 18-01-2012 no Templo de Umbanda Triângulo da Fraternidade 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

MULHERES


REENCARNAÇÕES - poema de Jenny Londoño
Venho desde ontem, do passado obscuro,
com as mãos atadas pelo tempo,
com a boca selada desde épocas remotas.
Venho carregada de dores antigas
recolhidas por séculos,
arrastando correntes longas e indestrutíveis.
Venho do fundo do poço do esquecimento,
com o silêncio às costas,
com o medo ancestral que tem corroído a minha alma
desde o princípio dos tempos.
Venho de ser escrava por milénios.
Submetida ao desejo do meu raptor na Pérsia,
escravizada na Grécia pelo poder romano,
convertida em vestal nas terras do Egipto,
oferecida aos deuses em ritos milenares,
vendida no deserto
ou avaliada como uma mercadoria.
Venho de ser apedrejada por adúltera
nas ruas de Jerusalém,
por uma turba de hipócritas,
pecadores de todas as espécies
que clamavam aos céus o meu castigo.
Fui mutilada em muitos povos
para privar o meu corpo de prazeres
e convertida em animal de carga,
trabalhadora e parideira da espécie.
Violaram-me sem limites
em todos os cantos do planeta,
sem que conte a minha idade madura ou tenra
ou importe a minha cor ou estatura.
Tive que servir ontem aos senhores,
submeter-me aos seus desejos,
entregar-me, doar-me, destruir-me
esquecer-me de ser uma entre milhares.
Fui barregã de um senhor de Castela,
esposa de um marquês
e concubina de um comerciante grego,
prostituta em Bombaim e nas Filipinas
e sempre foi igual o meu tratamento.
De uns e de outros, sempre escrava,
de uns e de outros, dependente.
Menor de idade em todos os assuntos.
Invisível na história mais longínqua,
esquecida na história mais recente.
Eu não tive a luz do alfabeto
durante muitos séculos.
Adubei com as minhas lágrimas a terra
que devia cultivar desde a infância.
Percorri o mundo em milhares de vidas
que me foram entregues uma a uma
e conheci todos os homens do planeta:
os grandes e pequenos, os bravos e cobardes,
os vis, os honestos, os bons, os terríveis.
Mas quase todos levam a marca dos tempos.
Uns manejam vidas como amos e senhores,
asfixiam, aprisionam, sugam e aniquilam;
outros manejam almas, negoceiam com ideias
assustam ou seduzem, manipulam e oprimem.
Uns contam as horas com o fio da fome
atravessado no meio da angústia.
Outros viajam nus pelo seu próprio deserto
e dormem com a morte metade do dia.
Conheço-os a todos.
Estive perto de uns e de outros,
servindo cada dia, recolhendo migalhas,
baixando a cabeça a cada passo, cumprindo o meu carma.
Percorri todos os caminhos.
Arranhei paredes e ensaiei silêncios,
tratando de cumprir as ordens 
de ser como eles querem,
mas não o consegui.
Jamais se permitiu que eu escolhesse
o rumo da minha vida
e caminhei sempre numa alternativa:
ser santa ou prostituta.
Conheci o ódio dos inquisidores,
que em nome da “santa madre Igreja”
condenaram o meu corpo ao seu serviço
ou às infames chamas da fogueira.
Chamaram-me de múltiplas maneiras:
bruxa, louca, adivinha, pervertida, 
aliada de Satanás,
escrava da carne, 
sedutora, ninfomaníaca,
culpada de todos os males da terra.
Mas continuei vivendo,
arando, colhendo, costurando,
construindo, cozinhando, tecendo, 
curando, protegendo, parindo, 
criando, amamentando, cuidando
e, sobretudo, amando.
Povoei a terra de senhores e de escravos,
de ricos e mendigos, de génios e de idiotas,
mas todos tiveram o calor do meu ventre,
o meu sangue e o seu alimento
e levaram com eles um pouco da minha vida.
Consegui sobreviver à conquista 
brutal e desapiedada de Castela 
nas terras da América,
mas perdi os meus deuses e a minha terra
e o meu ventre pariu gente mestiça
depois do castelhano me tomar à força.
E neste continente manchado 
prossegui a minha existência,
carregada de dores quotidianas.
Negra e escrava no meio da fazenda 
vi-me obrigada a receber o amo
quantas vezes ele quisesse,
sem poder expressar nenhuma queixa.
Depois fui costureira,
camponesa, servente, lavradora,
mãe de muitos filhos miseráveis,
vendedora ambulante, curandeira,
cuidadora de meninos ou anciãos,
artesã de mãos prodigiosas, 
tecelã, bordadeira, operária, 
professora, secretária, enfermeira.
Sempre servindo todos,
convertida em abelha ou sementeira,
cumprindo as tarefas mais ingratas,
moldada como um cântaro por mãos alheias.
E um dia doí-me das minhas angústias,
um dia cansei-me das minhas azáfamas,
abandonei o deserto e o oceano,
desci da montanha,
atravessei as selvas e as fronteiras
e converti a minha voz doce e tranquila
em sopro de vento
em grito universal e enlouquecido.
E convoquei a viúva, a casada,
a mulher do povo, a solteira,
a mãe angustiada,
a feia, a recém-parida,
a violada, a triste, a calada,
a formosa, a pobre, a aflita,
a ignorante, a fiel, a enganada,
a prostituída.
Vieram milhares de mulheres juntas 
escutar a minhas arengas.
Falou-se de dores milenares,
de longos grilhões 
que os séculos nos fizeram carregar às costas.
E formámos com todas as nossas queixas
um caudaloso rio que começou a percorrer o universo,
afogando a injustiça e o esquecimento.
O mundo ficou paralisado
‘Os homens sem mulheres não caminham!’
Pararam as máquinas, os tornos,
os grandes edifícios e as fábricas,
ministérios e hotéis, oficinas e escritórios,
hospitais e lojas, lares e cozinhas.
As mulheres – por fim, descobrimo-lo
‘Somos tão poderosas como eles
e somos muitas mais sobre a terra!
Mais que o silêncio, mais que o sofrimento!
Mais que a infâmia e mais que a miséria!’
Que este cântico ressoe
nas longínquas terras da Indochina,
nas areias cálidas de África,
no Alasca ou na América Latina.
Que o homem e a mulher se apropriem
da noite e do dia,
que se juntem os sonhos e os gozos
e se aniquile o tempo da fome e da seca.
Que se quebrem os dogmas e o amor brote novo.
Homem e mulher, lançando a semente,
mulher e homem de mãos dadas,
dois seres únicos, diferentes, mas iguais.


Tradução do Espanhol: Maria E. Catela

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O Anjo da Misericórdia



Na tarde trágica e tormentosa do Calvário, quando Jesus se encontrava estiolado pelas ulcerações dos cravos e dos espinhos implantados na Sua carne, ocorreu um inesperado acontecimento, que as testemunhas do lutuoso fato não puderam perceber, por transcorrer além das fronteiras objetivas da matéria.
As vozes ululantes da Natureza dominavam a paisagem lúgubre, e os homens, atormentados, pareciam vencidos pelas cruéis expressões do primitivismo animal, em total alucinação diante do Justo crucificado...
Nos momentos finais do horrendo espetáculo 3 vultos luminosos, reverentes, se acercaram do madeiro da agonia e um deles, jovem mulher iluminada, qual se fosse uma tocha de crepitante flama, após contemplar a face do Mestre, falou, comovida:
- Senhor, venho oferecer-Te o testemunho do meu fracasso na tarefa em que fui investida. 
"Segui-Te os passos por toda a parte e procurei guarida nos corações que foram atraídos pela Tua palavra consoladora. 
" Levantei ânimos, impulsionei sentimentos desavisados à razão e convoquei servidores ao trabalho da fraternidade... 
" Não obstante, estive contigo no momento da defecção de Simão Pedro, quando Te negou conhecer, o que fez por três vezes consecutivas, expulsando-me dos seus sentimentos, nos quais estive agasalhada por largos meses. 
" Desiludida dos homens, venho rogar-Te licença para seguir, ao Teu lado, na direcção dos Cimos Esplendorosos da Vida. 
" Tu sabes, eu sou a FÉ!... " 

O Mestre, em agonia, fitou-a, compungido, e sem dizer qualquer palavra, através da cortina de lágrimas sanguinolentas que lhe nublavam a claridade visual, olhou a segunda personagem, que também mais se acercou do instrumento da arbitrária punição e elucidou:
- Vivi todas as Tuas instruções e procurei remodelar os campos moral e emocional dos homens que Te seguiram. 

" Vi muitos deles, que estavam a borda do desespero e da loucura, mas, graças à Tua palavra de libertação, fi-los esperar por melhores dias confiando nos rectos deveres em favor de perspectivas futuras abençoadas. 
" Aqueles outros que se lamentavam sob o luto da saudade e o peso das agonias, consegui soerguer o ânimo e encorajá-los para a luta sem quartel do progresso. 
" Em todo o lugar, encontrei oportunidade de serviço e de acção edificante, que soube aproveitar... 
" Apesar disso, estava seguindo Judas e tentando convocá-lo à lucidez, arrependido como se apresentava, após a infame traição... Percebendo-lhe os pensamentos infelizes e o desespero envolvi-o em ternura chamando-o à ordem dizendo-lhe que sempre há oportunidade para quem deseja regenerar-se... 
" Ele, todavia preferiu o enforcamento covarde numa figueira brava... Ainda retenho na memória a visão do seu corpo oscilante na corda vigorosa em que ceifou a vida carnal... 
" Porque fracassei entre as criaturas venho rogar-Te permissão para acompanhar-Te ao solio do Altíssimo, abandonando a Terra... 
" Conforme Te recordas, eu sou a ESPERANÇA!..." 

Jesus estorcegou nas traves grosseiras, enquanto a mole humana, infrene e enlouquecida, agitava-se no acume do ensombrado morro da Caveira.
E porque Ele tentasse ouvir, já nas últimas contorções do corpo exangue, a terceira visitante uniu-se às duas primeiras e, ainda luminosa, expôs: 

- Por onde o Teu olhar passeou ternura e amor, eu procurei alojamento e serviço. 
" Através das Tuas mãos, abri bocas sem melodia à música da palavra; descerrei ouvidos moucos aos sons da Natureza; conduzi pernas e corpos mortos ao movimento; tomei as doenças dominadoras e consegui mudá-las das pessoas que as padeciam... 
" Jamais vacilei em ajudar, gerando simpatia, sustentando a FÉ e motivando a ESPERANÇA. 
" As multidões esfaimadas, por meu intermédio e sob as Tuas ordens, receberam pães e peixes, o mesmo ocorrendo com a água em Caná, quando eu lhe facultei especial sabor na festa das bodas felizes... 
" Mesmo assim em face do abandono a que todos Te relegaram, e porque acabo de presenciar o legionário Longinus, no cúmulo da frieza moral de que é portador e sem qualquer compaixão lancetar-Te o peito, para apressar-Te a morte, não suporto mais tanta ingratidão. 
" Recorro, deste modo, à Tua aquiescência para sair do mundo e voar na direcção das estrelas, para onde seguirás... 
" Bem recordas, eu sou a CARIDADE!... " 
Em face do silêncio pesado, que se fez natural, nauqela esfera transcendental, o Mestre, para surpresa geral, na noite que havia tombado sobre a tarde cruel, suplicou: 
- Perdoa-os (aos homens), meu Pai, porque eles não sabem o que fazem! 
Houve uma estranha movimentação no povo e nos milicianos, que não sabiam o que se passava. 

Naquele instante, porém, rasgou-se nas sombras espessas uma estrada luminosa e um ser, de esplêndida beleza, aproximou-se do Crucificado, e, respeitoso, falou, emocionado: 

- Eu sou o Anjo da MISERICÓRDIA, enviado pelo Pai, que Te atende o apelo. 

" Dize, Senhor, o que desejas de mim pois que eu o farei." 

Com a voz inaudível para os ouvidos humanos, no entanto, inteligível para o emissário de Deus, Jesus determinou, comovido: 

- Fica no mundo, levando contigo a FÉ, a ESPERANÇA e a CARIDADE, em meu nome, para que os homens, que me conheçam ou não, possam ter minoradas as suas dores e penas, evitando, quanto possível, as desventuras, sob o pálio do meu Amor. 

" Que permaneçam sem cansaço, nem desânimo até à consomação dos séculos, como luzes acesas apontando rumos felizes! " 

Automaticamente, as três Entidades - Virtudes abraçaram o Anjo da MISERICÓRDIA e partiram, para recolher, de início, o espírito Judas, em perturbação, prosseguindo na direcção de Pedro, a fim de que este não enlouquecesse de remorso, de imediato colocando nos olhos apagados de Longinus a claridade da visão... 

Foi então, que Jesus inteiriçou-se na cruz e bradou: 

- Pai, nas Tuas Mãos entrego o meu espírito. Tudo está consumado!
A partir daquela hora, quando as dores atingem o máximo de intensidade nos corações humanos; quando a hidra da guerra ceifa milhões de vidas indefesas; quando a amargura domina,esmagando os sentimentos; quando a vida parece sucumbir e todos os acontecimentos se apresentam com funestas perspectivas, o Anjo da MISERICÓRDIA envolve as criaturas, deixando aqui e ali, neste e naquele coração a chama da FÉ que reanima ou a pulsação da ESPERANÇA que renova e encoraja ou as mãos sublimes da CARIDADE, que sustenta e liberta, em nome do AMOR infinito do CRISTO, que não cessa jamais.
Fonte: LIVRO: "Pelos Caminhos de Jesus" 
Autor Espiritual: Amélia Rodrigues 
Psicografada por: Médium: Divaldo P. Franco
http://www.triangulodafraternidade.com/2012/12/o-anjo-da-misericordia.html#more



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

SE CRISTO VOLTAR NESTE NATAL


O Que Ocorrerá Se Subitamente Surgir Em
Público Um Grande Instrutor da Humanidade? 

Carlos Cardoso Aveline

Os rótulos não substituem a realidade. A sabedoria divina flutua acima das aparências visíveis, dos nomes próprios e das imagens personalizadas. O conhecimento universal é como um círculo infinito cujo centro está em todas as partes: por isso, a essência de cada religião ou filosofia contém a essência de todas as outras.
Quando vemos em profundidade a figura de Jesus Cristo, reconhecemos que ele simboliza no Ocidente os sábios e os instrutores da humanidade.  Krishna, Buddha, Pitágoras, Platão, Lao-tzu, Confúcio e Cristo ensinam a mesma sabedoria universal.
Os grandes sábios jamais afastaram-se da humanidade, mas o contato com eles  não é verbal e visual. Os seres humanos recebem sua ajuda e sua inspiração em planos superiores de consciência, acima do que é percebido pelos cinco sentidos e pelo nível “pessoal”, denso e primário, da atividade do cérebro. O contato a ser buscado é com a sabedoria em si mesma e não com a personalidade deste ou daquele instrutor.  
Qual é, então, o verdadeiro significado da idéia de uma volta visível de Jesus? 
A idéia simboliza para a alma o retorno dos sábios ao convívio humano, em um plano consciente. É a volta da sabedoria, e a reconquista da paz e do equilíbrio nos assuntos humanos visíveis. Não há por que personalizar indevidamente o retorno. Trata-se de recuperar a paz individual e coletiva, e não de pedir autógrafo ou favores pessoais a algum artista famoso recém-chegado do céu.   
“Quando ocorrerá a volta?” perguntam-se as pessoas de boa vontade.
Vale a pena examinar a questão. Suponhamos que, de fato, um dos grandes instrutores da humanidade aceite a tarefa de retomar uma presença reconhecida e consciente junto à comunidade humana atual.  Adotemos, também, a hipótese de que, para a ocasião, ele decida aproveitar o clima de confraternização das festas de final de ano, retomando o contato de um modo que sua presença física possa ser facilmente reconhecida pelas pessoas de boa vontade como a presença do mesmo Jesus do Novo Testamento.   
Ele se tornará visível em Nova Iorque, entrando na sede das Nações Unidas? Ele conversará ali, a portas fechadas, com o secretário-geral?  Ou ele surgirá curando doentes entre os povos mais pobres e humildes da África? Talvez o instrutor sagrado mande um e-mail para os principais chefes de Estado? Quais as conseqüências políticas, sociais e econômicas do seu reaparecimento? Estas perguntas práticas são incômodas.  A aparição pública entre nós de um grande ser, um mestre sagrado, poderia colocar em cheque os hábitos pessoais e os apegos de muitos. Abalaria instituições e estruturas sociais. 
Para investigar o que ocorreria de fato se Jesus reaparecesse na próxima véspera de Natal, o primeiro passo consiste em resgatar um texto clássico. O escritor russo Fiódor Dostoievski descreveu em 1880 como teria sido o retorno físico de Cristo durante o século 16. 
Ao escrever o relato, intitulado “O Grande Inquisidor”, Dostoievsky pode ter sido inspirado desde níveis superiores de consciência. Um Raja-Iogue dos Himalaias não só pediu que o trecho fosse traduzido do russo e publicado em inglês por Helena Blavatsky  em 1881, mas também escreveu, em uma carta para um discípulo leigo:
“A sugestão de traduzir ‘O Grande Inquisidor’ é minha; porque seu autor, sobre quem já pesava a mão da Morte enquanto escrevia, deu a descrição mais convincente e mais verídica jamais escrita da Sociedade de Jesus. Está contida ali uma grande lição para muitos, e mesmo você poderá tirar proveito dela.” [1]
A narrativa faz parte da obra “Os Irmãos Karamázovi”, e nela Dostoievsky descreve a aparição do instrutor divino entre os habitantes de Sevilha, na Espanha.  Na época, a Inquisição estava no auge.  O Vaticano prendia, torturava e matava em nome de Jesus. O Inquisidor tinha poder absoluto na Espanha.  Supostos hereges eram queimados vivos todos os dias em fogueiras públicas, “para maior glória de Deus”, conforme o lema dos implacáveis jesuítas. Como seria, nestas condições, a volta do Cristo?
Segundo a narrativa de Dostoievski, o Mestre decidiu voltar sem anúncio prévio:
“Ele apareceu docemente, sem se fazer notar e – coisa estranha – todos o reconheciam imediatamente. (...)  Atraído por uma força irresistível, o   povo comprime-se à sua passagem e segue-lhe os passos.   Silencioso,  ele passa por entre a multidão com um sorriso de compaixão infinita. Seu coração está abrasado de amor, seus olhos desprendem uma Luz, uma Ciência, e uma Força que irradiam e despertam o amor nos corações. Estende-lhes os braços e  abençoa-os. Uma força curativa emana do seu contato e até mesmo de suas vestes. Um velho, cego desde a infância, exclama no meio da multidão: ‘Senhor, cura-me e eu te verei’.  Uma casca cai dos seus olhos e o cego vê.  O povo derrama lágrimas de alegria e beija o chão sobre as marcas dos seus passos. As crianças lançam flores à sua passagem”. [2]
A população canta e grita ‘Hosanna!’ à passagem do Senhor. Os membros do povo repetem emocionados: “é Ele, é  Ele”.  O Cristo avança pela praça de Sevilha e ressuscita uma garota. No auge da emoção popular, surge na praça da cidade a figura temível do grande Inquisidor. É um ancião quase nonagenário, com uma rigorosa seriedade no rosto e a expressão de quem não admite ser contrariado.  Vestido com uma velha batina preta, rodeado pela sua guarda pessoal, ele percebe num instante o que está ocorrendo. Diante do seu olhar severo a multidão emudece e se inclina até o chão,  respeitosa e  atemorizada.  “Tão grande é o seu poder, e o povo está de tal maneira acostumado a submeter-se, a obedecer-lhe tremendo, que a multidão se afasta imediatamente diante dos guardas”, conta Dostoievski.  Em meio de um silêncio mortal, Cristo é arrastado para a prisão. 
Horas depois, a porta de uma masmorra se abre, rangendo, e o Inquisidor entra na cela do prisioneiro.   Ele olha a Santa Face, como para confirmar a identidade do seu interlocutor, e diz ao Mestre:
“És tu? Não digas nada. Cala-te. Aliás, que poderias dizer? Não tens o direito de acrescentar uma palavra além do que disseste outrora. Por que vieste estorvar-nos? Porque tu nos estorvas, bem o sabes. Mas sabes o que acontecerá amanhã? Ignoro quem tu és e não quero sabê-lo: tu ou apenas tua aparência. Mas amanhã eu te condenarei e serás queimado como o pior dos heréticos, e este mesmo povo que hoje te beijava os pés, amanhã, a um sinal meu, irá alimentar a tua fogueira.”
Enfático, o chefe da Inquisição faz um discurso sacerdotal. Ele alega que o “caminho estreito” ensinado pelo Mestre não pode ser percorrido na prática. Ele é demasiado difícil e só causa mais sofrimento, porque é excessivamente verdadeiro. Afirma que é impossível avançar de fato  pelo caminho da luz e do amor incondicional. Só uma religião autoritária, em que o dogma substitua a sabedoria, pode dar felicidade ao povo. Apenas a mentira organizada e institucionalizada pode garantir a ordem.  A verdade universal não é conveniente.  
Cristo apenas escuta. Ele fita seu carcereiro com olhos serenos, enquanto nos seus lábios há um sorriso de compreensão infinita.  A mente do teólogo-carcereiro não tem segredos para ele. Suas frases já são conhecidas antes que as pronuncie. O guardião da Igreja condena a liberdade individual pregada por Jesus. Os sacerdotes necessitam rebanhos. O Inquisidor considera absurda a idéia de que cada homem seja senhor do seu próprio destino. Ele conclui assegurando ao preso que a sua heresia, e a sua audácia de reaparecer em público, serão punidas com a morte.  
Terminadas as longas alegações, o Mestre não diz uma palavra, mas mantém seu silêncio calmo e cheio de paz.  Depois de alguns instantes, Jesus ergue-se, olha seu acusador nos olhos e o abraça.   O  poderoso Inquisidor fica surpreso, confuso, assustado.  Ele luta para manter o autocontrole psicológico.  A força da santidade do Mestre parece vencê-lo. Ele abre com força a pesada porta da cela. Ele aponta nervosamente para a saída e diz ao Cristo:
“Vai embora. Vai e não volta jamais. Nunca mais!”
O prisioneiro não responde. Com o olhar iluminado e os passos calmos, ele sai da cela, passa pelos guardas e desaparece na noite escura.
Este, resumidamente, é o relato de Dostoievski referente ao século 16. 
O que ocorreria se Cristo aparecesse subitamente no momento atual, cinco séculos depois? Os desafios não seriam poucos.  Quem estaria disposto a largar seus dogmas para viver o ensinamento?  O escritor indiano Anthony de Mello, um jesuíta herege do século 20, inspirado por idéias teosóficas e universalistas e duramente criticado pelo Vaticano, previu esta possibilidade em um pequeno conto simbólico, ambientado em uma situação posterior à volta de Cristo. 
Mello escreveu:
“Foi feita uma proposta, nas Nações Unidas, no sentido de que se corrigissem todos os livros sagrados de todas as religiões. Tudo o que neles tivesse algum sabor de intolerância, crueldade ou fanatismo deveria ser eliminado. O mesmo se faria com toda e qualquer parte que atentasse contra a dignidade e o bem-estar do homem. Imaginem o burburinho quando se veio a saber que a proposta viera do próprio Jesus Cristo! Os repórteres correram à sua residência, ávidos de esclarecimento.  A sua explicação foi simples e curta: ‘As Escrituras, como o Sábado, foram feitas para o homem, e não o homem para as Escrituras!’ , disse ele.” [3] 
O que seria então das grandes instituições humanas se Jesus voltasse, e não fosse morto nem encarcerado?  Qual o poder revolucionário da sua presença física consciente entre os habitantes do século 21?
Ele poderia reaparecer, por exemplo, em meio a um tiroteio, no auge de um conflito inter-religioso qualquer. Quando os atiradores o metralhassem, veriam que seu corpo era imaterial: o Mestre estaria usando apenas um corpo sutil − uma réplica do seu corpo físico − o mayavi-rupa da filosofia esotérica. Ele seria perfeitamente visível, mas não poderia ser tocado ou morto.  
Depois disso, o Mestre surgiria nas ruas de Nova Iorque com seu corpo físico denso. Ele caminharia em direção ao prédio da ONU e seria reconhecido ao atravessar uma rua com sinal vermelho. Os carros parariam. Uma aura de luz branca, transparente, rodearia completamente seu corpo. “Só pode ser Ele”, pensariam as pessoas imediatamente.
O engarrafamento de trânsito se expande enquanto ele avança. Não se ouvem buzinas, porém. Os carros são abandonados com as portas abertas.  Homens e mulheres se ajoelham ao ver o Mestre. Crianças correm para Ele e ele abençoa o povo. De quando em quando, ele interrompe sua caminhada por um momento e cura alguém; e aconselha, consola, ensina.  No portão externo do prédio das Nações Unidas, ele menciona que quer falar com o secretário-geral e são solicitados seus documentos. O Mestre explica que não tem passaporte consigo, mas avisa que “não pretende tomar muito tempo do secretário-geral”. Os guardas têm ordens claras: sem documentos, a entrada não é permitida. O episódio toma vulto. O sistema de segurança é acionado. Em instantes, o Mestre é cercado por Forças Táticas e agentes especiais do F.B.I.  Começa o interrogatório do “suspeito sem passaporte”, e surge o impasse legal.
Quando já está a ponto de ser acusado formalmente de imigração ilegal, o Mestre desaparece no ar. Do episódio fica apenas a perplexidade do público e dos policiais.  Mais uma vez, estava claro que a aproximação visível e consciente entre os Mestres e a nossa civilização não era viável. O Mestre volta ao silêncio dos seus locais de retiro nos Himalaias, de onde são inspirados, entre outros pontos do planeta, os corações de boa vontade.  
A verdade é que, devido às limitações da consciência humana no estágio atual da sua evolução, nenhum grande instrutor pode aparecer no mundo desta forma externa e óbvia, que gera constrangimento e incompreensão.  Os Mestres tampouco “canalizam” mensagens verbais através dos numerosos profetas e intermediários que hoje se pode encontrar a cada esquina.  Toda “volta” personalizada, ocorrendo no plano físico ou verbal, é ilusão.  
O próprio Jesus do Novo Testamento − um personagem, aliás,  simbólico e não histórico −, só foi reconhecido como um mestre e compreendido por alguns poucos indivíduos. E mesmo entre os poucos, ele foi compreendido apenas parcialmente, segundo conta a grande e bela parábola que são os Evangelhos cristãos.  
Os Mestres de Sabedoria, os Imortais, os Arhats, os Rishis, ajudam anônima e incessantemente a humanidade há milênios sem conta. Eles têm colocado à nossa disposição, sob diferentes linguagens e roupagens culturais, uma sabedoria eterna que contém respostas para todos os males humanos. Taoísmo, budismo, hinduísmo, judaísmo, islamismo, cristianismo e diversas filosofias e tradições de distintas épocas contêm lições de suprema beleza e eficácia. Para tirar real proveito delas, basta transcender o dogmatismo e o emocionalismo que tendem a personalizar indevidamente o que é sagrado.  
As diferentes personificações da sabedoria  − entre elas as figuras de Cristo,  Krishna, Buda e Lao-Tzu − funcionam como sinais da existência de seres aperfeiçoados. Tais Mestres não têm vida pública.  Eles preservam corpos físicos, mas vivem anonimamente, afastados da vida social, e trabalham em um plano de consciência que está acima do alcance da imaginação popular.
Ao mesmo tempo, em um nível subjetivo, as imagens públicas dos instrutores sintetizam as nossas melhores aspirações. As imagens conscientes que as pessoas de boa vontade alimentam sobre eles são, em parte, projeções criadas a partir da divindade presente na alma humana. Só não devem ser entendidas literalmente.
Existe em cada ser humano uma  semente divina, e ela deve germinar. Esotericamente, a verdadeira “volta” ou “reaparição” de Cristo é o processo de re-nascimento na alma humana deste nível universal de consciência.  Sobre a volta de Jesus, o Evangelho segundo Mateus afirma:
“Então, se alguém vos disser: ‘Olhe o Messias aqui’ ou ‘ali!’, não creiais. Pois hão de surgir falsos Messias e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios de modo a enganar, se possível, até mesmo os eleitos. Eis o que eu vô-lo predisse. Se, portanto, vos disserem, ‘Ei-lo no deserto’, não vades até lá; ou ‘Ei-lo em lugares retirados’, não creiais. Pois assim como o relâmpago parte do oriente e brilha até o ocidente, assim será a vinda do Filho do Homem.” (Mt. 24: 23-27)
A luz da sabedoria vem do Oriente, de fato.  Mas, na última frase desta citação, a palavra gregaparusia, traduzida como “vinda”, significa, na realidade, presença. A frase afirma que a presença de Cristo será percebida como um relâmpago de leste a oeste, isto é, em todo o mundo. Helena Blavatsky,  a fundadora do movimento esotérico moderno,   escreveu que o significado desta passagem é duplo.
Em primeiro lugar, a expressão “Vinda de Cristo” significa na verdade “a presença de Cristo em um mundo regenerado e não, de forma alguma, a vinda corporal de Cristo Jesus”. 
Em segundo lugar, “este Cristo não deve ser buscado nem no deserto nem em lugares retirados, nem no santuário de algum templo ou igreja construída pelo homem, porque Cristo – o verdadeiro Salvador esotérico – não é um homem mas o Princípio Divino em cada ser humano.” 
Para Helena Blavatsky, ver Cristo literalmente como um ser humano é um equívoco, mas a imagem pode ser usada no plano simbólico. Ela prossegue:
“Aquele que se esforça por promover a ressurreição do Espírito crucificado em si mesmo pelas suas próprias paixões terrenas, e enterrado profundamente no sepulcro da sua própria carne, aquele que tem força para fazer rolar a pedra da matéria para longe da porta do seu próprio santuário interno, este faz despertar Cristo em si mesmo.” [4]
                                              
Há milhares de anos, nas mais diferentes tradições, o céu simboliza a alma imortal. Na Idade Média, porém, o céu cristão deixou de ser entendido como símbolo e passou a ser encarado de modo literal. O deus monoteísta, criado por teólogos desinformados segundo a imagem e a semelhança deles próprios, é um velho com ar patriarcal e olhar severo que mora entre as nuvens. Ele espia para baixo e tenta  manipular os assuntos humanos, freqüentemente através da violência. 
Do ponto de vista esotérico, por outro lado,  o céu é a imagem simbólica da consciência elevada. A reaparição de Cristo “entre as nuvens do céu” (Mateus, 24:30) significa que o Mestre interior e a sabedoria divina ressurgirão primeiro nos níveis superiores da mente humana, isto é, no plano da inteligência espiritual, da fraternidade universal e do amor incondicional à verdade.
Neste sentido, Cristo não é uma pessoa, mas a luz da Lei do Universo.  A “volta” dele deve ocorrer como um renascimento em cada coração humano. De fato, qualquer grande instrutor da humanidade só poderá aparecer no mundo externo – e ser interiormente reconhecido – quando houver em nós a pureza, a ética e a verdade que formam a essência do sentimento religioso e filosófico. Como diz 2 Coríntios,  6:16:
“Que há de comum entre o templo de Deus e os ídolos? Ora, vocês é que são o templo do Deus vivo”.
A grande oportunidade prática que está diante de nós é, pois, a tarefa da autotransformação. O Natal que comemoramos no Ocidente a cada final de ano simboliza o ressurgimento periódico e sagrado da esperança de redenção individual e coletiva. Ele significa a renovação cíclica do nosso aprendizado, e também a decisão de nascer de novo, a partir da consciência do Mestre interior, isto é, a alma imortal,  que vive em unidade com o universo. Este renascimento se comemora ao mesmo  tempo que o Natal externo. Os presentes físicos e as comemorações visíveis são apenas reflexos externos do verdadeiro resgate anual da consciência da luz, no nível mais essencial de nossas vidas.  Nem todos são conscientes deste processo.
Deste modo, descontadas as aparências e as formalidades, cada Natal traz de certo modo a volta de Cristo, de Buddha e de outros grandes instrutores. Nesta época do ano, um sentimento de paz ilumina invariavelmente a mente humana “como um relâmpago que vem do Oriente” − de um extremo a outro do planeta − e parece compensar por um momento os sofrimentos da alma individual e coletiva.
Não pergunte, pois, quando, ou onde, se dará a volta do Cristo.  A volta do Cristo se dará em sua mente e seu coração, neste exato Natal e neste Ano Novo, e sempre e quando você estiver preparado para ela.
É da consciência de cada cidadão de boa vontade que o grande Advento se irradia, estimulando a regeneração de todas as formas de vida. 
NOTAS:
[1] “Cartas dos Mahatmas Para A.P. Sinnett”, edição em dois volumes, Ed. Teosófica, Brasília, 2001, ver volume I, Carta 21, p. 142.
[2] “Os Irmãos Karamázovi”, de Fiódor Dostoievski, Ed. Nova Cultural, Círculo do Livro. Veja o Capítulo V do Livro V, pp. 203-217.  Em alguns detalhes, segui a tradução feita por Helena Blavatsky diretamente do russo e publicada na revista The Theosophist, Índia, edição de novembro de 1881.
[3] “O Canto do Pássaro”, de Anthony de Mello, S. J. , Edições Loyola, SP, 1995, p. 61.
[4] “Collected Writings of Helena P. Blavatsky”, TPH, Índia, volume 8, pp. 172-173.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

CUIDADO COM A LÍNGUA

Existem dois tipos de agressões que podemos fazer ou sofrer: - a agressão direta e a indireta. Agressão direta é aquela realizada através de uma grosseria, um ato de estupidez, uma agressão física, uma ofensa moral, um ato de desonestidade, indiferença ou qualquer mal feito a alguém, claramente, visível por ambas as partes. São aquelas que nos lembramos e que às vezes até nos desculpamos com as pessoas. Enquanto que a agressão indireta é aquela que praticamos e que muitas vezes nem as consideramos como agressão, nem percebemos o que estamos fazendo na realidade. Trata-se de um tipo de agressão que causa mais estragos do que a chamada direta. Prejudica mais a vítima do que uma bofetada no rosto.
Mas afinal, que agressão é esta?
É a agressão de julgarmos as pessoas baseando-nos no que os outros dizem. Pois conforme todos sabem, mais de noventa por cento do que as pessoas nos falam sobre as outras diz respeito ao que não presta. São coisas ruins.
Podemos nos lembrar acaso, de alguém que tenha nos parado na rua ou nos telefonado para nos contar que conheceu alguém caridoso, que faz o bem às escondidas durante a noite? Ou de alguém que faça questão de nos contar que o marido da fulana é um homem digno e fiel? Ou um colega de trabalho chegar ao patrão e dizer-lhe que tal funcionário da firma é uma pessoa maravilhosa, que defende a empresa, que trata bem os clientes que é muito competente? Infelizmente noticiar o bem não dá IBOPE!
Quando noticiamos algo de bom, as pessoas nem recebem com tanto interesse como receberiam uma notícia ruim ou uma fofoca, por esta razão as pessoas não se apressam em dar notícias boas para as outras. E já que muitas pessoas gostam de notícias ruins de um modo geral, algumas pessoas quando não as tem para dar, inventam. Por isso, de uma coisa estejam certos: - Mais de 90% do que falam dos outros, não é verdade.
Muitas vezes divulgamos coisas a respeitos de outros, que nem mesmo sabemos de onde partiu. Geralmente a autoria do falatório vem de alguma mente doentia, observando-se o princípio de que só vemos nos outros aquilo do que nossos corações estão cheios.
-Quem vive a dizer que fulano é desonesto, com certeza vive na desonestidade;
-Quem vive a julgar qualquer um, por qualquer motivo como homossexual, com certeza tem problemas nesta área.
-Quem vive a dizer que todo político é ladrão, com certeza daria o maior desfalque nos cofres públicos.
-Quem diz que todo homem trai a mulher, com certeza trai a sua.
-Todo ciumento diz que o ciúme é normal, porque tem a doença.
Caso alguém venha nos falar mal de outra pessoa, é de bom alvitre perguntarmos: - Você teria coragem de confirmar isso diante da pessoa interessada?
Há muitas pessoas que julgam os outros, baseados no "ACHISMO". Simplesmente acham que poderia ser verdade e saem afirmando como tal. Isso é uma irresponsabilidade e uma maldade de gravíssimas proporções, pois muita gente inocente ja’foi para a cadeia porque alguém se deixou levar pelo veneno da língua dos outros. A maneira mais coerente, prudente, decente, honesta e correta de julgarmos uma pessoa ( se é que podemos julgar alguém), é por aquilo que ela demonstra para conosco.
Por isso cuidado! Muitos de teus sofrimentos "inexplicáveis", poderão advir de julgamentos dos outros que os fizeram sofrer. A justiça é implacável, bem como a Lei de Ação e Reação.
"FAÇAMOS AOS OUTROS AQUILO QUE GOSTARÍAMOS QUE NOS FOSSE FEITO"
AS TRES PENEIRAS
Um rapaz procurou Sócrates e lhe disse que precisava contar sobre alguém.
Sócrates ergueu os olhos do livro que lia e perguntou:
- O que você vai me contar já passou pelas tres peneiras?
- Tres peneiras?
- Sim. A primeira peneira é a Verdade. O que você quer contar dos outros é um fato? Caso tenha ouvido falar, a coisa deve morrer por aí mesmo. Suponhamos então que seja verdade. Deve então passar pela segunda peneira: -a Bondade. O que você vai contar é coisa boa? Ajuda a construir ou destruir o caminho, a fama do próximo? Se o que você quer contar é verdade, é coisa boa, deverá passar ainda pela terceira peneira: - a Necessidade. Convém contar? Resolve alguma coisa? Ajuda a comunidade? Pode melhorar o planeta?
E arremata Sócrates:
Devemos ser sempre a estação terminal de qualquer comentário infeliz!- Se passar pelas três peneiras, conte! Tanto eu, você e seu irmão iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo. Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos, colegas do planeta. 
( Extraído da Revista Visão Espírita )

terça-feira, 25 de setembro de 2012

SESSÃO ABERTA


Nessa próxima quarta-feira, dia 26-09-2012, teremos nossa sexta sessão aberta do ano. A palestra será de nosso amigo e irmão Denis Schossler.
Por volta dás 20:00 horas os visitantes serão convidados a entrar no templo.

domingo, 23 de setembro de 2012

O PAPA E O LAICISMO


Andou muito bem o Papa Bento XVI, em sua recente visita ao oriente médio, pedindo se respeite, ali, a liberdade religiosa e defendendo o laicismo por ele adjetivado como "saudável".
Por muito tempo, a Igreja condenou com veemência tanto a liberdade de crença quanto a laicidade da sociedade e do estado. E não faz tanto tempo assim. Não precisamos retroceder à Idade Média e aos tempos em que vigorava incontestavelmente soberana a teocracia religiosa no ocidente. Todo o século 19 e boa parte do há pouco findo século 20 serviram de cenário para uma tenaz luta da Santa Sé contra esses princípios, de origem secular. Em 1832 o Papa Gregório XVI, na encíclica Mirari Vos, chamava a liberdade de consciência de "pestilenta", denunciando que essa postulação do mundo liberal abriria caminho à perigosa introdução da "liberdade plena de opinião" e ao desenvolvimento das falsas religiões. Outra loucura, para ele, era a separação entre estado e igreja. Atrás disso, dizia, sobreviriam as maiores desgraças para as nações e para a fé. Essas mesmas ideias foram repetidas em sucessivas encíclicas de Pio IX e Pio X. O indiferentismo religioso, o laicismo, o relativismo em matéria de fé, o naturalismo e todas as liberdades de pensar, de crer ou deixar de crer, foram condenados com expressões arrasadoras, nas bulas e encíclicas papais do mundo moderno e contemporâneo. Na base dessas posições estava a ideia de que sem religião – ou, mais precisamente, sem a única religião verdadeira – não há moral, não há ética, não se sustenta uma sociedade saudável.
Acho que é a primeira vez que um sumo pontífice romano, nesse sermão pronunciado no Líbano (14-09-2012), agrega ao substantivo laicismo o adjetivo saudável. Mesmo deixando espaço ao entendimento de que existem outras formas de laicismo condenáveis - ou seja, aquelas que se ocupam de combater as crenças de cada um - fica expresso o reconhecimento de que laicidade não é sinônimo de imoralidade. É quase o reconhecimento explícito de que, com ou sem religião, há no ser humano uma vocação natural para o bem, para a ética, para o justo, para o progresso. Defendendo o pluralismo religioso, o Papa afina seu discurso com a modernidade. Mais do que isso, acenando para a prática do laicismo, reconhece que onde crenças religiosas se arvoram em juízes das atitudes humanas, descamba-se para graves violações aos direitos humanos. Não é por outra razão que o fundamentalismo religioso é o responsável hoje, como o foi no curso de toda a história, por nossas mais cruéis tragédias.
O mundo fica melhor na medida em que sua gestão política e social se liberta da tutela religiosa. Isso não significa divorciar-se da espiritualidade ou rejeitá-la. Só com o respeito ao pluralismo, às liberdades individuais e políticas pode-se desenvolver a genuína espiritualidade. O autêntico laicismo sempre é saudável porque, sem combater crenças individuais, admite a existência de uma gama infinita de formas de interpretar o divino e o humano, a consciência e o universo, buscando, no conjunto de tudo, o sentido da vida.
Paradoxalmente, aqueles mesmos que ainda ontem se rebelaram contra a vitória do laicismo sobre a ditadura da fé reconhecem, agora, que só numa sociedade genuinamente laica há espaço para vicejarem e crescerem os verdadeiros valores do espírito. Sinal dos tempos! Bons sinais. Plenamente concordes com a sentença de Jesus de Nazaré, segundo a qual "o espírito sopra onde quer". O que se pode ver é que, cada vez mais, espiritualidade passa a ser sinal de humanismo. Migra do inescrutável reinado do mistério e do dogma para o terreno aberto e democrático das experiências humanas, contra cuja corrente, quase sempre, se posicionaram as castas sacerdotais. É a força do espírito livre, centelha divina presente no homem. A ela tudo um dia se há de conformar. Inclusive as religiões, quando compreenderem que o verdadeiramente sagrado é o natural. Não o sobrenatural.
Milton R. Medran Moreira
Advogado e jornalista, presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre
Zero Hora – Domingo, 23 de setembro de 2012 – página 15