quinta-feira, 12 de abril de 2012

LANDMARKS - MITO E FANTASIA


ORDO AB CHAO!
Muito já se tem escrito e discutido acerca dos Landmarks na Maçonaria.
Estudiosos há que, pretensamente, os consideram os princípios fundamentais da nossa Instituição, ainda que sua origem se perca na poeira dos tempos e não tenha sido obra de nenhum legislador.
Como refere Nicola Aslan (Landmarks e outros problemas maçônicos - Estudos, p. 13), "a idéia geral que se tem sobre os Landmarks, na Maçonaria, é que são usos, costumes, leis e regulamentos universalmente reconhecidos, existentes desde tempos imemoriais, fundamentais princípios da Ordem, inalteráveis e irrevogáveis, e que não podem ser infringidos ou desviados o mais levemente que seja. Tão remotos seriam eles de não se lhes poder determinar a origem, e tão essenciais que, se fossem alterados, modificados ou emendados, também estaria mudado o próprio caráter da Maçonaria".
Etimologicamente, a expressão deriva da palavra inglesa landmark, composta de land - terra, solo, terreno, e mark — limite, marco. Como assinala Aslan (op. cit., p. 15), “... significa, pois, marca na terra para ser utilizada como ponto de referência, e mais, limite, linde, marco, lindeiro, fronteira, raia, termo, ponto divisório, baliza, confim, estaca, etc. Mas em literatura maçônica, o vocábulo tem o sen1ido de regra ou norma".
Afirma ainda que, como tantas outras, a idéia dos Landmarks veio da Bíblia, o que não deve causas estranheza, de vez que "a partir do momento em que os ingleses se afastaram do domínio religioso de Roma, as Sagradas Escrituras se tornaram o livro de cabeceira daquele povo”. E de fato, vários versículos da Bíblia referem-se a marcos e limites. “Há os que removem os limites” (Jó, 24, 2); “Não removas os marcos antigos que puseram teus pais” (Provérbios, 22, 28); “Maldito aquele que mudará os marcos de seu próximo” (Deuteronômio, 27, 17). (Nicola Aslan, ibidem).
É oportuno mencionar-se que Anderson, a quem se atribui a sistematização da Constituição de 1723, era pastor. A propósito, Christian Jacq (A Franco-Maçonaria — História e Iniciação, p. 15), afirma que dois homens representaram importante papel na elaboração das constituições surgidas em 1723: o pastor Jean Théophile Désaguliers (1683-17??) e o pastor Anderson (1684-1739).
Isso evidencia que a polêmica ultrapassa os limites dos Landmarks propriamente ditos, estando presente até na definição da autoria da Constituição de Anderson, de 1723. Sobre o assunto, diz Christian Jacq (ibidem, p. 16), “... predominam três teorias: Anderson é o único autor; Désaguliers é o verdadeiro autor e Anderson o zeloso redator; um comitê de quatorze maçons indicou as idéias principais que Anderson pôs em forma".
Jacq acrescenta que, segundo notas do próprio Anderson, “... irmãos cheios de escrúpulo queimaram demasiado precipitadamente vários manuscritos de valor referentes à Fraternidade, às Lojas, aos Regulamentos, Obrigações, Segredos e Costumes, para que esses papéis não caíssem entre as mãos dos profanos “. “A justificativa é um tanto fraca!” — prossegue Jacq. “Essa revelação nos informa em termos claros que as ‘constituições’ autênticas foram simplesmente destruídas para que ninguém, no futuro, pudesse estabelecer comparações significativas. Destruição ingênua parece, pois as antigas regras de vida dos maçons foram, em parte, encontradas”.
Importante ressaltar que, apesar da confusão e da polêmica acerca da Constituição de Anderson, é absolutamente evidente a sua preocupação em estabelecer uma posição política para a Maçonaria, como se pode verificar no preceito que trata da Autoridade Civil, superior e inferior, que diz textualmente: "O maçom deve ser pessoa pacífica, submeter-se às leis do país, onde estiver e não deve tomar parte, nem se deixar arrastar nos motins ou conspirações deflagrados contra a paz e a prosperidade do povo". "Nem se mostrar rebelde à autoridade inferior, porque a guerra, o derramamento de sangue e as perturbações da ordem, têm sido sempre funestos para a Maçonaria". "Assim é que, na antiguidade, os reis e príncipes se mostraram muito dispostos para com a sociedade, pela submissão e fidelidade de que os maçons deram constantes provas no cumprimento de seus deveres de cidadão e em sua firmeza em opor sua conduta digna a caluniosas acusações de seus adversários. Esses mesmos reis e príncipes não se recusaram a proteger os membros da Corporação e defender a integridade da mesma, que sempre prosperou em tempo de paz. Segundo estas doutrinas, se algum Irmão se convertia em um perturbador da ordem pública, ninguém devia ajudá-lo na realização de seus propostos e pelo contrario devia ser compadecido por ser um desgraçado. Mas por este fato, e ainda que a Confraria condenasse sua rebelião, para se evitar dar ao governo motivo de alguma suspeita ou de descontentamento, sempre que o rebelado não pudesse ser censurado por outro crime, não podia ser excluído da Loja, permanecendo invioláveis suas relações com esta, bem como os direitos de que como maçom gozava”.
Entendemos que este preceito, mesmo com as características de um landmark, não é assim tão inflexível, eis que admite — em nome, talvez, da tolerância —, a rebeldia do Irmão, inclusive acobertando seu “deslize”, embora o rotulando de “desgraçado”.
Ou então, o que nos parece mais consentâneo com a realidade, traz ele implícita a idéia de que o maçom “é um homem livre, fiel às leis, amigo dos governantes, quando eles são virtuosos”, não admitindo viver sob a opressão de um governo despótico ou tirânico".
“Por aí se vê — destaca João César (Maçonaria e Política. 1956. p. 98) —o caráter eminentemente político da Constituição de Anderson. Enquanto havia necessidade de a Maçonaria servir aos adeptos das concepções democráticas e liberais de Cromwell, essa Constituição não encontrava ambiência. E só teve a aceitação que granjeou imediatamente porque ia servir, politicamente, ao poder constituído, interessado na submissão” de tão poderosa organização “.
No entanto, João César (op. cit. pp. 97/98), destaca também que “Anderson, ministro cristão do Evangelho, deu cunho de religiosidade à Ordem e aboliu o caráter cristão até então predominante, ampliando a concepção do ser supremo, que passou a situar-se acima de qualquer crença”.
Bernar E. Jones, em seu Guia e Compêndio do Franco-Maçom (Freemason’s Cuide and Compendium, p. 334), refere uma definição de John W. Simons (Principies of Masonic Jurisprudence — Princípios de Jurisprudência Maçônica), que estabelece:
“São considerados Landmarks as regras de conduta que existem desde tempos imemoriais — seja sob a forma de lei escrita ou não escrita — que são co-essenciais à Sociedade (maçônica) que, na opinião da maioria, são imutáveis, e que todo maçom é obrigado a manter intactas, em virtude dos mais solenes e invioláveis compromissos“.
Daí os princípios:
• de que um Landmark é irreformável perpetuamente;
• de que nenhum novo Landmark pode ser criado;
• de que, teoricamente, poderia, contudo, ser explicitado;
• de que, mesmo que se concebesse a possibilidade de se reunir em uma convenção mundial, todos os francos-maçons regulares do planeta, e que mesmo que essa convenção emitisse um voto unânime, ele seria detido pelas regras acima citadas;
• de que um Landmark não é nenhum símbolo, nem uma alegoria, mas uma regra;
• de que não é, contudo, um dogma, pois é de origem humana;
• de que qualquer um que discorde dessas máximas, sai ipso facto da verdade maçônica.
Como já vimos, na Maçonaria a idéia de Landmark tem um sentido próprio, assumindo a característica de lei, mandamento, norma de conduta e organização.
Uma das particularidades da norma, da lei, é a de trazer consigo um sentido de coação, de constrangimento, e que representa a possibilidade de ser obedecida.
Aliás, esta coação tem duplo sentido: primeiro, quanto ao aspecto psicológico — saber antecipadamente que a transgressão pode redundar em pena, castigo, punição; por fim, após a transgressão, a aplicação da sanção, da punição propriamente dita. De qualquer forma, admite-se que o indivíduo, exercitando seu livre arbítrio, obedeça ou não, arcando, contudo, com as conseqüências de seu ato.
CONTEXTO HISTÓRICO
É nos Regulamentos Gerais de George Payne, de 1720, que se encontra a primeira referência ao vocábulo “Landmark”. Ali, o artigo 39 estabelece: “Cada Grande Loja anual tem inerente poder e autoridade para modificar este Regulamento ou redigir um novo em benefício desta Fraternidade, contanto que sejam mantidos invariáveis os antigos Landmarks...“ Como aponta Nicola Aslan (ibidem, p. 16), “... a Assembléia Geral celebrada a 25 de novembro de 1723, pela Grande Loja da Inglaterra, substituiu a palavra “landmark” pela de “rule“, regra, e incorporou o texto dos Regulamentos Gerais de Payne no Livro das Constituições de Anderson, na edição de 1738”. E a expressão “rule” continuou a ser empregada nas edições posteriores, de 1756, 1767 e 1784.
No entender de João César (op. cit. p. 97), “A Constituição de Anderson, promulgada em 1723, é o marco que assinala a transformação da Maçonaria de Operativa em Especulativa, embora já existisse, muitos anos antes, a Maçonaria Simbólica, ou melhor, a adoção dos “Maçons Aceitos” ou “Maçons Adotados “.
De maneira nenhuma se pode deixar de levar em consideração o contexto histórico em que as Constituições foram elaboradas e a que tipo de interesses serviram. E importante lembrarmos que, à época, vivia-se a “idade das Luzes”, sendo natural que, depois do obscurantismo medieval, as idéias iluministas influenciassem sobremaneira a ambiência cultural e o pensamento. Uma das principais características da época diz respeito à valorização e à busca da razão das coisas.
Na Inglaterra do século XVI, era evidente a luta pelo poder entre uma classe social ascendente — a burguesia — e a nobreza. A arma principal da burguesia é o controle econômico, que determina, em contrapartida, o controle das idéias e valores, abrindo os horizontes do mundo, estimulando as ciências, opondo-se aos dogmas religiosos, destruindo a objetividade medieval e criando caracteres libertadores, novas significações, novos ares sobre o mundo “velho” e parado.
A história registra que, no século XVI, após o rompimento com o Papado, efetivado por Henrique VIII (fundador da Dinastia dos Tudor), e a fundação da religião anglicana por sua filha, Elizabeth I, a Inglaterra, sob o longo reinado da soberana (1558-1 603), conhece um período de apogeu cultural e político, transformando-se em potência marítima e iniciando uma expansão colonialista.
De 1642 a 1649, a Inglaterra se defronta com uma guerra civil, que culmina com a decapitação do rei Carlos I (da Dinastia dos Stuarts), que queria governar sem parlamento. Inicia-se, então, um período de nove anos de ditadura militar de Oliver Cromnwell, que proclama a República. Contudo, em 1660, é restaurada a Monarquia, com o trono sendo entregue a Carlos II. Em 1707, Inglaterra, Escócia, Irlanda e País de Gales formam a Grã-Bretanha, ou Reino Unido. Com o afastamento dos Stuart, em 1714, a Dinastia dos Hannover se instala no trono, ocupando-o até hoje. Nos anos que se seguem, a Inglaterra consolida seu império colonial, principalmente na Índia e América do Norte.
Bastante significativa a circunstância de que a Inglaterra, durante o período em que esteve sob o governo do puritano Cromwell, haver conhecido sua única Constituição escrita: o “Instrument of Government”. Também singular mostra-se o fato de os puritanos, que deixavam a Inglaterra para livremente celebrarem seu culto em terras do Novo Mundo, haverem redigido, ainda a bordo do “Mayflower”, o documento político que haveria de estruturar a forma de organização constitucional das futuras colônias inglesas.
Entendemos que a fixação dos Landmarks pela Maçonaria anglo-saxã servia, fundamentalmente, á intenção de serem garantidos seus interesses, especialmente quanto a questões econômicas e comerciais, e quanto ao controle sobre as Lojas que, naquele momento histórico, começam a se multiplicar. Sem dúvida, isto afastou bastante a Maçonaria dos seus objetivos primeiros.
Diz Christian Jacq (op. cit.. pp. 1 8/1 9): “De fato, no momento em que a Franco-Maçonaria entra na história sob a forma de uma instituição definida por regulamentos administrativos, entra também num longo período de decadência em relação às suas finalidades de origem. A substância de uma ordem iniciatória é, com efeito, o simbolismo, que dá ao homem a possibilidade de iniciar-se em espírito; desde que uma Ordem funda sua autoridade sobre uma legislação temporal em detrimento de qualquer outro fator, condena-se a se sujeitar às flutuações históricas. A Maçonaria de 1717 esqueceu a máxima medieval. Quando reina o espírito, não há necessidade de leis".
Em contrapartida, para outros, os acontecimentos de 1717 (a criação da primeira Grande Loja da Inglaterra) representam o surgimento esperado de uma Maçonaria que “finalmente se destaca de um clima manual e inculto, lançando-se aos cumes do intelecto “. (Christian Jacq, ibidem)
CONCLUSÃO
Jules Boucher (A Simbólica Maçônica, p. 217), citando Qswald Wirth, destaca que “os Landmarks são de invenção moderna e seus partidários jamais conseguiram pôr-se de acordo para ,fixá-los“.
“Isso não impede — prossegue ele — que os anglo-saxões proclamem sagrados esses limites essencialmente flutuantes, que se ajustam de acordo com seus particularismos. Cada Grande Loja fixa-os de acordo com seu modo de compreender a Maçonaria; a Maçonaria é compreendida de modos muito diferentes, razão das definições contraditórias, destrutivas da unidade dentro de uma instituição que visa a concórdia universal.”
Entendemos que a profusão de pronunciamentos dos estudiosos do problema dos Landmarks, via de regra imprecisos e mesmo contraditórios, impede a sistematização de juízos válidos no autentico caos em que se mergulhou o assunto.
Nicola Aslan (op. cit., pp. 19/20) menciona a posição de Virgílio A. Lasca, no seu trabalho “Princípios Fundamentales de la Orden e los verdaderos Landmarks”, que “não existe, entre os autores, unidade de critério para a seleção ou classificação do que eles estimam deverem ser considerados como Landmarks ou antigos limites. Estes foram estabelecidos recentemente, depois dos meados do século XIX, e são mais fruto da fantasia, pois os que deles se ocuparam enumeram-nos em classificações que variam de 3 até 54”.
Aslan (ibidem) transcreve uma relação de 15 listas de Landmarks conhecidas, elaborada por Virgílio A. Lasca, que entendemos oportuno citar:
• 3 para Alexander S. Bacon e Chetwode Crawley;
• 6 para a Grande Loja de Nova York, que toma por base os capítulos em que se dividem as Constituições de Anderson;
• 7 para Roscoe Pound, a Grande Loja da Virgínia, e o cubano Carlos F. Betancourt;
• 9 para J. G. Findel;
• 10 para a Grande Loja de New Jersey;
• 12 para A. S. Mac Bride;
• 15 para Jonh W. Simons e para a Grande Loja de Tennessee;
• 17 para Robert Morris;
• 19 para Luke A. Lockwood e a Grande Loja de Connecticut;
• 20 para a Grande Loja Ocidental de Colômbia, com sede em Cali;
• 25 para Albert G. Mackey e Çhalmers I. Paton e ainda a Grande Loja de Massachussets, a qual, embora só admitindo 8 Landmarks, estes são iguais àqueles enunciados por Mackey;
• 26 para a Grande Loja de Minnesota;
• 29 para Henrique Lecerff,
• 31 para o Dr. Oliver;
• 54 para H. G. Grant e para a Grande Loja de Kentucky.
Também não passou despercebido para Aslan (ibidem) o fato de que o tema interessou basicamente, “e quase que exclusivamente aos maçons da América do Norte”. Diz mais o estudioso: “Todas essas relações de Landmarks sofreram as mais severas críticas por parte de escritores autorizados que os estenderam àqueles que, sob pretexto de tratar dos antigos Landmarks da Ordem, deixaram a sua fantasia voar. E cada qual considerando Landmark tudo aquilo que bem quis e entendeu, originou-se desse modo uma grande perplexidade e uma confusão ainda maior”.
A teoria dos antigos Landmarks da Ordem, como já vimos, encontrou seus melhores partidários nos Estados Unidos. Posteriormente, também a Maçonaria da América do Sul passou a considerá-los, pelo menos até os primeiros anos do século XIX, quando se intensificaram os movimentos de emancipação das repúblicas atuais de suas antigas metrópoles. Tais movimentos, surgidos numa seqüência de fatos históricos iniciados no século XVIII, a partir das revoluções americana (a Independência dos Estados Unidos, em 1776) e francesa (1789), consagraram inúmeros “Libertadores”, entre eles Simón Bolívar, Bernardo O Higgins, José de San Martin e Antonio José de Sucre.
Novamente aqui verificamos a Imita entre a sociedade tradicional (nobreza estrangeira) e a burguesia ascendente. Os “libertadores” rechaçavam toda a intervenção estatal tia vida e nos negócios dos cidadãos, baseando-se no princípio do laissez-fruire, laissez aller (literalmente, “deixai fazer, deixai seguir”).
A forma de organização que comumente adotaram os participantes ativos da luta libertadora ou de emancipação foi no princípio a da “loja”, que em geral se encontrava integrada na Franco-Maçonaria internacional, como o caso da Loja Lautaro, que granjeou grande prestígio e poderio no Cone Sul do continente americano.
O surgimento da Grande Loja da Inglaterra, em 1717, sob a direção de Anthony Sayer, representou um dos melhores instrumentos com que contou aquela nação para contribuir à expansão, para ela imprescindível, de seu mercado, artífice de seu desenvolvimento econômico.
A ruptura da Maçonaria sul-americana com a das metrópoles não teria representado uma transgressão a alguns Landmarks ou regras estabelecidas?
Sem dúvida, a cisão refletiu a vontade das comunidades sul-americanas, fundada na ambiência social, econômica e política que vivenciavam; enfim, inspirou-se na realidade.
Dentre as diversas relações de Landmarks, a mais adotada é a do escritor norte-americano Albert G. Mackey, contendo uma lista de 25 itens.
Segundo os estudiosos, Machey, inspirando-se nas noções de história disponíveis à época, cometeu inúmeros erros, o que reduz a sua lista de Landmarks, apenas e tão somente, à condição de referência para uma discussão. Aliás, Nicola Aslan acentua que Mackey, ao longo de seus escritos, censurava a incrível credulidade de Anderson, ironizando mesmo as suas fantasias, contidas na suposta história da Maçonaria redigida para constar das Constituições de 1723.
A contundência de Aslan (op. cit., p. 21) vai ainda mais longe, quando diz que mesmo Mackey “não conseguiu livrar-se de todo da imaginária narração de Anderson. Acreditou, como acreditaram todos os seus contemporâneos, na grande antiguidade da Maçonaria, nas supostas Constituições de York do ano de 926, e em outros fatos cuja veracidade histórica, somente neste século, ficou estabelecida pelos historiadores modernos que a negaram“.
Se considerarmos as manifestações dos seus mais categorizados estudiosos, os franceses não dão nenhuma importância ao problema dos Landmarks. Boucher (op. cit.. p. 217), com muita propriedade, afirma que “na Maçonaria francesa, a ‘Liberdade de Pensamento‘ é um ‘landmark’ fundamental e, paradoxalmente, um landmark não tem limites!“.
Também Marius Lepage (L’Ordre et les Obédiences), citado por Aslan refere a questão dos Landmarks de forma até irônica e agressiva. “Uma única pergunta — diz Lepage — “Mostrai-me um Landmark, um verdadeiro...“ “Nunca houve, não há, nunca haverá ‘landmarks’, salvo aqueles redigidos no dia a dia, segundo as necessidades do momento, por um corpo administrativo completamente desprovido de conhecimentos e de valor sobre o plano de iniciação tradicional
A esta altura, parece-nos pertinente a seguinte indagação: Quando uma Constituição, de qualquer das inúmeras Obediências hoje existentes, refere a necessidade de serem respeitados os Landmarks, quais exatamente os que devem ser considerados? Qual das listas antes referidas deve prevalecer?
Admitir-se a necessidade ou a simples ocorrência de Landmarks, ou seja, a existência de regras ou preceitos com características de imutabilidade, é, na verdade, dogmatizar-se certos enunciados, incorrendo no mesmo erro cometido pela Maçonaria anglo-saxã, que na sua época, andou na contramão da História, estabelecendo normas pretensamente irreformáveis e perpétuas, em um momento histórico em que se buscava a razão das coisas, um momento “iluminado”.
Constituição e realidade são idéias que devem andar juntas, pois a primeira qualidade de uma Constituição é atender à realidade do povo, do grupo, ou da nação a que vai servir. E a realidade — toda a ambiência social — que fornece a matéria-prima para a elaboração das normas, das regras de conduta e organização. E a realidade há de ser alguma coisa de muito profundo, que sobe do passado para inspirar o presente e projetar-se no futuro.
Concordamos com Nicola Aslan (op. cit., p. 13), que diz não acreditar “que o problema venha a ter, algum dia, definitiva solução, se não se resolverem os maçons a relegar o assunto dos Landmarks ao sótão da Maçonaria, para lá fazer companhia a muitos outros, hoje considerados como coisas imprestáveis “.
E para aqueles que condicionam a unidade da Maçonaria à existência e à aceitação de Landmarks, utilizamos as afirmações de Jules Boucher (op. cit., p. 2 17): “A unidade maçônica sonhada por alguns é um engodo; jamais ela será realizada e nem é desejável que o seja. A Maçonaria deve adaptar-se aos diferentes países e corresponder, em cada país, às diferentes aspirações dos maçons. É o simbolismo maçônico bem compreendido o único que deve formar, o cimento entre todas as Pedras, e é por ele que a verdadeira Fraternidade pode e deve se estabelecer”. -
Eis aí um desafio para todos nós, pois não é admissível que entre homens livres e de bons costumes, que compartilham os mesmos ideais, que adotam práticas ritualísticas semelhantes, que dividem e guardam os mesmos segredos, enfim, que se tomam por Irmãos, não se consagre efetivamente o sentido da Fraternidade, e que existam discriminações.
Afinal, como disse Pitigorsky, “Quem dá as costas à Luz, só vê a própria sombra“.
Autor do artigo:
Mário Mayerle
CIM 1857 -- ARLS "Fiel Amizade" nº 72 -- Florianópolis -- SC
Grande Oriente de Santa Catarina -- GOSC
Editor de O PRUMO
P.S. do postador: Talvez a maior discriminação cometida em nome dos Landmarks seja a de não se aceitar a iniciação de mulheres, o que não foi referido neste brilhante artigo.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

RESPEITO, DISCIPLINA E HIERARQUIA


A palavra Respeito tem muitas acepções, prestando-se às mais diversas aplicações. Dentre estas podemos destacar a de reverência, de receio, de consideração, de acatamento, de fazer justiça, de tolerância, etc.
A atitude respeitosa é aquela que demonstra apreço ao nosso semelhante, mesmo que dele discordemos frontalmente. Aquele que desrespeita perde a razão mesmo a tendo. O respeito é a parcela de igualdade que todo ser humano tem por obrigação demonstrar, não somente aos semelhantes, mas com toda a criação. Aquele que respeita pode vir a ser respeitado.
O Respeito é uma daquelas atitudes humanas que se desdobram em direito e dever: só pode exigir ser respeitado aquele que cumpre o dever de respeitar.
Por sua vez, a Disciplina é a virtude de quem, tendo livremente se submetido a uma ordem estabelecida por normas, a ela se submete com afinco, com presteza, com zelo. O ser disciplinado não descuida nos rumos que resolveu trilhar e trata diariamente de reafirmar os seus propósitos, dedicando-se com amor às atribuições que lhe foram confiadas, dando sempre o melhor de si.
A Disciplina não pode afastar, evidentemente, como decorrência do livre arbítrio, o necessário exame da justeza das ordens e atribuições a que nos submetemos.
Toda ordem estabelecida, inclusive a espiritual, se organiza por intermédio de leis e de competências, de tal sorte que se estabelece uma normatização e uma Hierarquia.
A Hierarquia é uma ordem de competências que se estabelece em diversos aspectos: a Hierarquia dos órgãos e dos cargos, por exemplo. Na maçonaria temos a oportunidade de nos relacionarmos com estes aspectos, de vivenciarmos nos cargos parcelas de competências e de, portanto, nos resolvermos positivamente na relação com o poder.
Além disso, a Hierarquia também se estabelece nos diversos graus pelos quais o maçom pode passar, tudo dependendo do seu próprio desenvolvimento. Este aspecto é muito importante, pois nos ensina que nada nos deve ser acrescentado que não decorra do merecimento.
Por derradeiro, é de notar que no ritual de abertura da Loja nos graus simbólicos, o Segundo Diácono responde à Venerável Mestra que ocupa aquele lugar à direita do Primeiro Vigilante para executar e transmitir as ordens deste, bem como para velar por todos que tem assento nas colunas, os quais deverão manter uma atitude de DISCIPLINA, RESPEITO e ORDEM, sendo o mesmo que declarar que o Corpo Astral responde pelo perfeito funcionamento dos órgãos.
         Or\de Porto Alegre, 05 de agosto de 2005 da E\V\
 Milton Lopes Teixeira
Mestre Maçom

Bibliografia:
Menna Barreto, Edgar; Manual de Instruções Maçônicas de Mestre; Editora Meridional “Emma”; Porto Alegre; 1969.
Peça de arquitetura apresentada na ARLSM Aldebaran n°10

segunda-feira, 9 de abril de 2012

OS NÚMEROS (3ª PARTE)


O número 7 (sete) é composto também pelo número três (triângulo) e quatro (tetragrama), são eles que formam o símbolo do Delta Sagrado, sendo o Delta o triângulo e o tetragrama as letras sagradas, às vezes substituídas pelo “Olho que tudo vê”.
O mestre deve saber subir os sete degraus do Templo.
Desde a criação do mundo o número sete foi impresso na mente universal, tudo foi criado em seis dias e no sétimo houve o descanso. Na antiguidade consideravam-se sete astros que regiam o universo. O Sol, Lua, Marte, Júpiter, Vênus e Saturno. 
São sete as notas musicais, sete os dias da semana, sete camadas de nossa pele, sete cores formam a cor branca, são sete as velas candelabro místico, são sete os pecados capitais (orgulho, preguiça, avareza, gula, inveja, luxúria e cólera), sete sacramentos, o livro dos sete selos, existem milhares de exemplos a serem citados com o número sete.
O sete é o único número de 1 a 10 que não é múltiplo ou divisor de qualquer outro, ele não é criado e nem cria qualquer outro.
O sete é o número da purificação, do arrependimento e da remissão. É atribuído ao Espírito Santo, que é sétuplo, conforme seus dons, ou seja: 1 – o Espírito da Sabedoria; 2 – compreensão; 3 – o Espírito do conselho; 4 – força; 5 – o Espírito do conhecimento; 6 – santidade; 7 – o Espírito de temor a Deus.
O número 8 (oito) é considerado como o número da sabedoria, é chamado de número da justiça e integridade porque é dividido em números iguais, ou seja, em quatro, e o quatro é dividido em dois e dois.
Observemos, ainda, que o algarismo oito deriva de dois quadrados superpostos ou se tocando por um dos ângulos. A primeira forma é oriunda da letra Het fenícia, oitava letra do alfabeto primitivo que, simplificada, tornou-se o nosso “H” (também oitava letra).
O número 9 (nove) é um número poderoso em todos os sentidos. Há nove esferas correspondentes às nove musas: Calíope, poema épico, corresponde ao movimento primeiro; Urânia, astronomia, ao céu estrelado; Polymnia, canto e oratória, a Saturno; Terpsícore, dança, a Júpiter; Clio, história, a Marte; Melpomene, tragédia, ao Sol; Erato, canções de amor e casamento, a Vênus; Euterpe, música, a Mercúrio e Thalia, comédia, à Lua.
Existem no mundo inteligível nove coros de anjos: Serafim, Querubim, Tronos, Dominações, Poderes, Virtudes, Principados, Arcanjos e Anjos.   

PEDRO NEVES .’.
M.’. I.’. 33.’. MRA.’.
http://www.pedroneves.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=3601642

quinta-feira, 5 de abril de 2012

As Jóias Móveis da Loja

Assim como o Templo em que nos encontramos em Loja representa, entre tantos outros significados, a caminhada que empreendemos pelas esferas de ação – da nossa ação, no retorno ao G\ A\ D\ U\, do ocidente ao oriente, também as jóias móveis podem demonstrar os nossos passos pelos mundos.
O Prumo, jóia do 2º Vig\, pode representar a fase em que “o homem só possuía os corpos denso e vital, ou físico e duplo-etérico, sendo análogo às plantas: casto e sem desejos. Nesse tempo sua constituição....era simbolizada por uma coluna reta, um pilar – um prumo se quisermos (│). O pilar – ou o prumo, pode significar o madeiro inferior de uma cruz, símbolo do homem em formação, quando era análogo às plantas. A planta é inconsciente de toda paixão, desejo, e inocente do mal. Gera e perpetua sua espécie de modo tão puro, tão casto, que propriamente compreendida é um exemplo para a decaída e luxuriosa humanidade, a qual deveria venerá-la como um ideal. A planta é inocente, porém não virtuosa. Não tem desejos nem livre escolha. O homem tem ambas as coisas. Pode seguir seus desejos ou não, conforme queira, para aprender a dominar-se.”
O prumo “é o emblema da retidão que há de presidir a conduta dos irmãos fora da Loja, e concerne especialmente ao aprendiz, enquanto mostra a direção vertical de seus esforços..., em sentido oposto à gravidade dos instintos, assim como a planta cresce e progride por meio de seus esforços verticais”.
O Nível, jóia do 1º Vig\, pode representar a fase em que o homem entrou em mais um de seus instrumentos: o corpo dos desejos ou corpo astral. “A constituição humana pode agora ser representada pela Tau (┬), pois o homem passa a dispor dos corpos denso, vital e dos desejos, mas carecendo ainda de mente. O que predominava então era a natureza animal. O homem seguia os seus desejos sem reserva”. O nível “é o emblema da igualdade e da harmonia”, da possível linha horizontal sobre a vertical, que há de servir para o equilíbrio necessário entre o físico, o emocional e o mental. “O nível ou horizontal é o princípio passivo de resistência e persistência que nos estabelece equilibradamente em nossas aspirações, e nos faz amadurecer e frutificar”.
O Esquadro, jóia do Ven\ M\, pode representar o madeiro superior que fecha a cruz (└): o homem no veículo mental ou corpo mental. “Simboliza o espírito irradiando de si mesmo os quatro veículos..., que entrou em seus instrumentos, convertendo-se em espírito humano interno”. O esquadro é um instrumento de governo, que há de representar a nossa perfeita justiça em relação ao próximo. É a virtude principal do Ven\ M\, que deve atuar sobre o esquadro, ou seja, a incidência perfeita da perpendicular, o vertical sobre o horizontal.
Temos assim a cruz completa (┼), o perfeito encontro entre a forma e o conteúdo. O cruzamento em Loja se estabelece no altar dos juramentos, com o esquadro e o compasso devidamente colocados sobre o livro da lei, significando que a criação deve provir pelo verbo.
Oriente de Porto Alegre, cinco de maio de 2007 da E\ V\.
 Milton Lopes Teixeira
2º Vig\
Bibliografia:
Mena, Barreto, Edgar; Manual de Instruções Maçônicas de Aprendiz; 2ª Edição; Porto Alegre; 1999.
http://www.fraternidaderosacruz.org/simbologia.htm